Mauro Gonçalves de Souza, novo diretor presidente substituto da Agência Nacional de Cinema

Com a nomeação, hoje, da advogada Aline Machado de Souza como assessora pessoal do diretor presidente substituto Mauro Gonçalves de Souza, a nova presidência da Ancine cristaliza uma insólita conexão regionalista em seu mandato-tampão de apenas cinco meses: a Armação Audiovisual dos Búzios.

A advogada Aline (que também foi candidata derrotada a vereadora pelo PSL) é da mesma região de onde já provinha o advogado Miguel Ângelo Gonçalves Azevedo, as estâncias turísticas de Búzios-Cabo Frio-Itaboraí-Maricá. Azevedo, nomeado na semana passado também como assessor direto do diretor substituto, é de cidade vizinha à do interino da agência, a base de Cabo Frio (RJ), na qual o novo servidor manteve, até o ano passado, uma pousada (Vila Porto Hospedaria), e onde possui um escritório de advocacia. Outro nomeado para assessorar Mauro Gonçalves na semana passada foi Rodrigo Luiz de Moraes.

A preferência geográfica do aparelhamento funcional (os nomeados não têm nenhum histórico na atividade audiovisual) se explica pelo exame das relações políticas do grupo: são todos ligados ao Centrão (arranjo político de apoio ao governo federal no Congresso Nacional) e à deputada federal Soraya Santos (PL-RJ). Mauro Gonçalves de Souza foi assessor parlamentar do deputado estadual bolsonarista Philippe Poubel, do PSL do Rio de Janeiro. Poubel ganhou manchetes ao invadir um hospital de campanha em São Gonçalo, em janeiro de 2020, armado, e se meteu em outra confusão em uma festa negacionista na região da nova elite da agência de cinema.

Ao mesmo tempo em que preenche posições com colaboradores próximos, Souza também já começou a “limpar” a área dos homens de confiança de gestões anteriores. Na semana passada, ele exonerou Gustavo Rolla, que tinha sido assessor internacional do ex-diretor presidente da AncineChristian de Castro. Castro renunciou ao cargo e é réu na Justiça por improbidade e enriquecimento ilícito.

O dado curioso do aparelhamento escancarado da Ancine no sultanato provisório de Mauro Gonçalves de Souza é que ele foi nomeado diretor presidente enquanto, se espera, consolida-se a posição de Alex Braga Muniz como primeiro diretor efetivo da agência de cinema em dois anos. Indicado por Jair Bolsonaro, ele deverá assumir em outubro após sabatina no Senado. Mas a movimentação de Mauro Souza indica que poderá haver surpresas – já foi um espanto geral o descarte de um aliado de primeira hora de Bolsonaro, o pastor Edilásio Barra, como provável diretor efetivo da Ancine. Os problemas de Alex Muniz se acumulam: além de ser réu em ação de improbidade administrativa na Justiça Federal, essa semana o TCU aceitou a denúncia de paralisação deliberada do funcionamento da agência em sua gestão.

Em 29 de abril de 2020, o Farofafá revelou, nesta reportagem, que o Centrão tinha feito duas exigências em relação à agência nacional de cinema para o presidente Jair Bolsonaro, em troca de seguir apoiando sua gestão incondicionalmente. O grupo queria a presidência e mais um nome na direção. Da forma que está sendo conduzida a interinidade de Mauro Souza, parece que o Centrão agora já quer tudo (àquela altura, os políticos daquele grupo já tinham conseguido a chefia do escritório-sede da agência em Brasília, ocupado por uma advogada ligada à deputada Soraya Santos.

Além da deputada Soraya Santos, há outros congressistas ligados ao governo que têm interesses no setor do audiovisual. Um deles tem chamado a atenção dos cidadãos brasileiros por sua postura convictamente subalterna na CPI da Pandemia: o senador Eduardo Girão (Podemos-CE). Girão tem sido conselheiro do governo na área do cinema por um motivo pouco conhecido: ele fez carreira como produtor de cinema. Durante anos, militou na produtora Associação Estação da Luz. E também se valeu dos recursos da Ancine para produzir seus filmes espíritas – o filme Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito, por exemplo, recebeu um Prêmio Adicional de Renda de R$ 223 mil em 2009. Já As vidas de Chico Xavier recebeu R$ 1,8 milhão do Fundo Setorial do Audiovisual.

Bruno Graça Melo Cortes, Secretário Nacional do Audiovisual. Como quase tudo na política nacional, as posturas parecem se adequar ao toma lá-dá cá da lógica que tem sequestrado os interesses republicanos.

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