O trombonista Raul de Souza (sentado), o pianista Henry Gray antes de reconhecer o trombonista (com a bengala) e o repórter, com o bloquinho

Morreu na noite de domingo, 13, em Paris, onde vivia, o trombonista Raul de Souza, aos 86 anos. Ele sofria de câncer na garganta.

Raul de Souza foi um dos nossos gigantes. Tocou com os saxofonistas Sonny Rollins e Cannonball Adderley, as cantoras Sarah Vaughan, Maria Bethânia e Flora Purim, o baterista Jack DeJohnette, o também trombonista Frank Rosolino, entre centenas de notáveis ou estudantes – para ele, era sempre a mesma energia.

Gravou o seu primeiro disco em 1955, com Altamiro Carrilho e a Turma da Gafieira (entre outros, Baden Powell, Edison Machado e Sivuca). Mas, vendo as dificuldades da profissão de instrumentista, alistou-se na Força Aérea Brasileira em Curitiba tentando ser sargento, não conseguiu e desistiu.

De volta à música, gravou com Sérgio Mendes e Bossa Rio o disco Você ainda não ouviu nada – The beat of Brazil (1963), com o qual excursionou pela Europa e Estados Unidos. Em 1973 o percussionista Airto Moreira o convidou para integrar seu grupo em Los Angeles. Ele foi e nunca mais voltou ao Brasil. Gravou nos Estados Unidos seu primeiro disco expatriado, Colors. Em seguida, vieram Sweet Lucy (1977), Don’t Ask My Neighbours (1978), Till Tomorrow Comes (1979), pela Capitol Records.

Com sua compreensão única do funk, alargando simultaneamente as fronteiras do samba com fusões únicas (sambop, sambossa), Raul criou uma linguagem pessoal na música (também era um admirável saxofonista). Tocou no Azymuth, o grupo brasileiro que criava fronteiras espaciais sobre as bases do jazz. Tocou com Luiz Carlos Vinhas e Gilberto Gil. Com Freddie Hubbard e Chick Corea, com George Duke e Jimmy Smith. Inventou o souzabone, um trombone em dó com quatro válvulas (uma das quais cromáticas) que ele desenvolveu e que replicava as notas para que ele solasse em cima da repetição. Um dos seus mais celebrados retornos ao Brasil foi durante o Chivas Jazz Festival, em 2004, fisgado pelo grande Toy Lima.

Filho de um pastor evangélico, João José Pereira de Souza nasceu em 1934 em Bangu, no Rio de Janeiro, e recebeu o nome artístico de Raul de Souza no programa de calouros de Ary Barroso, pelo próprio Ary. Na época, o trombonista se dividia entre o trabalho na Tecelagem Bangu e a música. Tocava de uniforme na banda da fábrica quando, um dia, voltando para casa no subúrbio após tocar numa procissão, devidamente paramentado, ouviu um saxofone soando pela janela de uma casa. Era um regional tocando e ele se aproximou. Aí, alguém o levou para apresentar ao maestro. “Me apresentaram ao Pixinguinha, eu envergonhado com o uniforme da banda. Ele pediu para eu tocar, ficou muito entusiasmado e pediu para que eu o procurasse na Praça Tiradentes. Mas foi só um convite bonito, só isso”, lembrou.

Raul chegou a ser contratado para formar o RC7, de Roberto Carlos, na época da Jovem Guarda. “Formei o grupo e ensaiamos por três meses comendo sanduíche de mortadela e tomando cerveja preta. O Roberto não apareceu para nenhum ensaio. Quando estreamos o programa de TV no Rio, ele não cantou com a gente não. O pior é que fomos direto para o estúdio sem comer e assim ficamos até de madrugada, quando voltamos a São Paulo. Eu cheguei a falar com Carlos Manga (diretor do programa Jovem Guarda), porque músico nenhum falava, que era preciso pelo menos jantar. Ele então indicou lá um restaurante, mas quando o sujeito ouviu falar o nome de Carlos Manga, foi logo dizendo que ele fosse antes pagar o que devia. Músico é isso, não tem valor nenhum”.

Em 2019, ele lançou pelo selo Sesc o disco Blue Voyage, com 8 faixas, ao lado de Glauco Solter (baixo), Mauro Martins (bateria) e Leo Montana (baixo) e Alex Correa (piano).

De uma humildade desconcertante, Raul de Souza parecia não gostar de ser paparicado. Mas era difícil: na foto que ilustra essa página, ele estava sentado na frente de um bar em Iguape (litoral Sul de São Paulo) quando foi reconhecido pelo notável pianista Henry Gray (de bengala, ao centro) “Hey, você eu conheço! Eu já vi você tocar”, maravilhou-se Gray, então com 90 anos, ao reconhecê-lo ali.

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