Luz com trevas. Capa. Reprodução
Luz com trevas. Capa. Reprodução

Artista multimídia, Cabelo Cobra Coral acaba de lançar seu primeiro disco solo, ele, poeta, cantor, compositor e artista visual. “Cinema é luz com trevas”, diz verso da faixa-título (Cabelo/ Leo Saad/ Fabricio Oliveira). “Negativo, positivo, é a rebelião sem trégua”, continua.

Lembro-me de Cabelo liderando a Banda Boato, que fez algum barulho no Rio de Janeiro entre meados da década de 1990 e o início do novo século. “Xuxa preta”, hit do grupo, conheci num cd dedicado ao projeto CEP 20.000, capitaneado pelo poeta Chacal, então encartado na revista Trip – tenho o disquinho até hoje em minha coleção.

“A Xuxa pintou o cabelo de preto/ causando a maior correria nas fábricas de brinquedo/ passa tinta no cabelo da boneca, passa tinta no cabelo da boneca, passa tinta”, dizia a letra bem-humorada, que me fazia, à época e novamente agora, ao ouvir este novo trabalho, me pegar pensando na capacidade que os letristas de música popular têm de reinventar o cotidiano. Em “Luz com trevas”, “A perna da boneca” (Cabelo), com assobio de Milton Guedes, é irmã daquela. “A perna da boneca tá sem ela/ vai andando pela passarela/ passa pela poça/ que parece um pedaço do céu”, começa a letra desta.

“Luz com trevas”, o disco, é vibrante, com seu passeio por várias paisagens e cores sonoras; se fosse um livro, certamente seria uma inspirada coletânea de crônicas; se filme, um panorâmico road movie por seu Rio de Janeiro natal.

“EXUberância” (Cabelo/ Leo Saad/ Léo Leobons) – lê-se “echuberância” e não “ezuberância” – reverencia o orixá, conectando o artista a suas ancestralidades afro-brasileiras, com a sonoridade dos terreiros.

Sobressai no disco certa pegada funk orgânica. “Conheci você” (Cabelo/ Beto Valente/ Gui Guimarães/ Jean Beyssac) narra o encontro de um mototaxista com uma garota, numa corrida com destino a um baile funk. Com tintas de rap, “Ladainha do morto” (Cabelo/ Gerardo Mello Mourão) lista diversas personalidades, famosas ou anônimas, que morreram pelo protagonista, como o mesmo revela – Cabelo chega a citar o sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal.

Com Pedro Luís (e Beto Valente) assina a inspirada “Raio de amor”: “esse mundo parece filme de terror/ as garras do monstro crescem aumentando o calor/ floresta desaparece com o avanço do trator/ madeireiro, garimpeiro, grileiro, minerador/ o boi vem com a bala, a bíblia vem a motor/ se pensa que vai me enganar/ se enganou, doutor”, diz a letra, de tintas políticas – convém lembrar que a Banda Boato e Pedro Luís e A Parede são da mesma geração e geografia.

Cabelo (voz) é acompanhado basicamente pelos produtores do álbum, Kassin e Nave, que assinam programações e teclados, com participações especiais pontuais de Léo Leobons (voz e percussão em “EXUberância”), Milton Guedes (assobio em “A perna da boneca” e na faixa-título), Nina Becker (coro em “EXUberância” e voz em “Je vous salue Marie”, de Cabelo), Rogério Caetano (violão sete cordas em “Vovô vai voltar”, de Cabelo), Pretinho da Serrinha (cavaquinho e percussão em “Vovô vai voltar”) e Tainá Machado (voz em “Vovô vai voltar”, de Cabelo).

“Vovô vai voltar” encerra o disco em clima de partido alto, comprovando que todo rapper/funkeiro é herdeiro direto de Bezerra da Silva. A música se equilibra entre o samba e a eletrônica, falando de um personagem que vivia na boemia, não se preocupava com as coisas do além, mas um dia acordou “bolado”: “meu neto, eu já estou a um passo da cova/ nunca me liguei nas coisas do além/ desconfio que quando chegar minha hora/ vou apelar pra Oxalá, pra Nossa Senhora/ se realmente alguma coisa houver por lá/ juro que venho para lhe contar/ vovô vai voltar/ trazendo notícias do mundo de lá”, diz a letra, num caldeirão de sincretismo, entre gêneros musicais, o sacro e o profano, e o candomblé e o catolicismo, bem ao jeito de Cabelo fazer artes. No plural.

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Ouça “Luz com trevas”:

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