O Bixiga 70 no palco do BR-135 em Imperatriz. Foto: Guta Amabile
O Bixiga 70 no palco do BR-135 em Imperatriz. Foto: Guta Amabile

A julgar pela trilha sonora dos deslocamentos de Uber, em Imperatriz só se ouve música gospel e breganejo. Mas o rótulo é falso. “Em todo lugar tem uma turma curiosa, disposta a ouvir o que não conhece, ou ansiosa por receber o que conhece e quase nunca tem oportunidade”, disse-me um entusiasmado Alê Muniz, metade do duo Criolina – a outra banda é Luciana Simões –, idealizador e produtor do Festival BR-135, que teima em acontecer desde 2012, em São Luís, e pela primeira vez cruza os limites do Estreito dos Mosquitos – o braço de mar que separa a Ilha capital do continente.

“O festival deveria acontecer em Alcântara”, revelou-me também, mas avaliando as condições, sobretudo da rede hoteleira em receber o público que certamente se deslocaria de São Luís com mais facilidade, acabou indo parar às margens do Rio Tocantins – o palco da etapa instrumental em Imperatriz, iniciada ontem (11), está armado na Concha Acústica da Avenida Beira-Rio.

As apresentações mantiveram o padrão de qualidade a que está acostumado o público do BR-135 e, via de mão dupla, o nível de vibração do público a que estão acostumados os artistas que vêm ao festival, pouco importa se o público era, talvez, um pouco menor do que o esperado. Ou se a dj Sandra Marley (que tocou nos intervalos entre as atrações, sem deixar vazio) não se limitou a repertório instrumental – bem como os samples do Forró Red Light.

A noite começou com a apresentação da Bamuda, a Banda Municipal de Davinópolis, município de pouco mais de 12 mil habitantes, distante 15 quilômetros de Imperatriz. Mais de 60 músicos de sopro e percussão, regidos pelo maestro Maxwell da Silva Lima, um contador de profissão, pós-graduado em música, que outrora ocupou as fileiras do Exército brasileiro.

Músicos do Bixiga 70 em bate-papo com estudantes de música de Davinópolis. Foto: Zema Ribeiro
Músicos do Bixiga 70 em bate-papo com estudantes de música de Davinópolis. Foto: Zema Ribeiro
O encontro do Bixiga 70 com a Bamuda terminou em jam. Foto: Zema Ribeiro
O encontro do Bixiga 70 com a Bamuda terminou em jam. Foto: Zema Ribeiro

Bate-papo – O grupo teve um encontro, na tarde de ontem, na Unidade Regional de Educação (URE) de Imperatriz, com músicos do Bixiga 70, a grande atração da noite – fizeram um show impecável, entre repertório autoral, e homenagens a Pedro Santos (de quem tocaram “Desengano da vista”), “que teria completado 100 anos semana passada”, como lembrou o tecladista e guitarrista Maurício Fleury, e Luiz Gonzaga (“A morte do vaqueiro”), no bis.

O bate-papo com os estudantes colocou as experiências do Bixiga 70 e as trajetórias individuais de seus integrantes, não como uma espécie de bússola a ser seguida, mas como uma demonstração de que cada um deve procurar o seu caminho.

O baterista Décio 7 foi categórico: “músicos não separam vida pessoal de profissão e diversão”, com o que isso tem de bom e ruim. “É uma certa liberdade, felicidade de poder viver isso. A gente trabalha com isso por que criou as próprias ferramentas. Acreditem nos seus sonhos e trabalhem dia e noite para que aconteçam”, aconselhou.

O nome da banda se origina no primeiro estúdio em que começou a ser concebida, de propriedade de dois sócios (integrantes) da banda, que ficava no tradicional bairro de origem italiana em São Paulo – história que também contaram matando a curiosidade dos presentes.

“Não é uma boa ideia fazer uma banda de música instrumental com tanta gente”, brincou, falando sério, o saxofonista e flautista Cuca Ferreira. Depois de seis discos e cinco continentes, só agora o grupo conseguiu trazer seu afrobeat ao Maranhão. O bate-papo terminou com uma divertida jam que uniu alguns músicos da Bamuda e parte do Bixiga 70.

No show, durante um de seus temas instrumentais, a plateia mandou, sem ensaio, mas no ritmo: “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”. Depois o trombonista Douglas Antunes regeu a plateia antes de anunciarem a hora do trenzinho e todo o público cair num grande baile de carnaval fora de época a céu aberto.

A noite contou ainda com a poesia de Lília Diniz – pouco importa se era um festival de música instrumental –, que se apresentou após a Bamuda, Chiquinho França (com um repertório entre o rock e o choro, entre sua guitarra e seu bandolim), natural de Santa Inês, mas artisticamente formado em Imperatriz, e com o inclassificável som instrumental do ATR (sigla pela qual agora atende o outrora Aeromoças e Tenistas Russas), que precedeu o Bixiga 70.

A programação do Festival BR-135 Instrumental segue hoje (12), na Concha Acústica da Beira-Rio, com entrada franca:
17h – Trupe de Habilidades Circenses
18h – Sonia Guajajara
19h – Dj Sandra Marley
20h – Jorge Baião
21h – Luh del Fuego e Las Pupilas Dilatadas
22h – Guitarrada das Manas
23h – Camarones Orquestra Guitarrística e Manoel Cordeiro
O Festival BR-135 acontece em São Luís dias 21, 22 e 23 de novembro.

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