Literatura, teatro, dança, cinema e música como uma só entidade, linguagens complementares e indissociáveis. Essa foi a visão que José Agrippino de Paula teve em 1969 quando montou seu primeiro espetáculo total, Rito do Amor Selvagem, uma das montagens mais influentes da história das artes cênicas brasileiras – conquanto tenha estado em cartaz apenas por alguns dias.

Primeiro grande artista a cortejar as matrizes africanas em consonância com as tradições literárias de Tolstói, Dostoievski e Chekhov e as visões da pop art e do industrialismo, José Agrippino de Paula e Silva (1937-2007) foi um guru também da Tropicália e da intelectualidade da contracultura. Abandonou a arquitetura pelo cinema, depois incorporou a literatura, a dramaturgia, a cenografia e a dança às suas bases criativas e, finalmente, teve uma visão sobre o futuro da TV, mas essa é sua derradeira obra, incompleta, quando já vivia no Embu das Artes como um ermitão.

Esta noite, segunda-feira, 16 de setembro, às 20h30, no CineSesc (Rua Augusta, 2075), um documentário inédito dirigido por Lucila Meirelles será mostrado com estilhaços dessa saga do espetáculo Rito do Amor Selvagem 50 anos depois, com trilha sonora composta por Cid Campos (que fez 32 peças para o filme). A noitada inclui um bate-papo com a diretora, o ator Sérgio Mamberti e o cineasta Jorge Bodanzky (que filmou a maior parte das performances de José Agrippino nos anos 1960 e 1970). O Rito, segundo Agrippino, era derivado de sua obra literária Nações Unidas (1968), que circulou até hoje apenas em edições mimeografadas e será relançado também esta noite pela editora Papagaio, de São Paulo.

Autor de Panamerica (1967), um dos mais importantes romances brasileiros, Agrippino e sua então mulher Maria Esther Stockler (coreógrafa de José Celso Martinez Correa, do Oficina) gestaram o  “Rito do Amor Selvagem” com técnicas de “mixagem”, como ele mesmo explicou, na segunda metade de 1969.  Após dois meses de ensaios, estreou, em dezembro, no II Festival de Dança no Teatro São Pedro. Em janeiro e fevereiro de 1970, a peça voltou ao S. Pedro a convite do teatro. Houve filas na porta do teatro (enquanto o público esperava na fila, uma parede cenográfica “desmoronava” sobre a platéia). Impactado pela pop art, Agrippino misturava personagens como Hitler e Mussolini com referências clássicas e candomblé. Ao final, uma enorme bola de plástico entrava em cena (uma antecipação dos truques que, hoje, até sertanejos usam). Os atores a circundavam até que um deles, normalmente interpretado por Stênio Garcia, subia na bola gigante, que era atirada na platéia.

Jorge Bodanzky registrou, juntamente com seu então assistente Hermano Penna, a série de apresentações do Rito em fotografias e em filme. O espetáculo ainda teve uma apresentação no Rio de Janeiro, no Teatro Cimento Armado, e enfrentou problemas com a censura. Por ser dispendioso e complexo, logo Agrippino se dirigiu a uma outra frente de linguagem e parou as montagens.

“Em The United Nations, os protagonistas de um jogo de xadrez gigante se misturam aos atores na filmagem de uma ficção, com Charles Boyer como Napoleão. As cenas se desdobram apenas para serem interrompidas por acidantes que, nos happenings, são previstos mas não totalmente dominados. As interrupções conferem um estilo caótico à damaturgia, e é assim que o diretor construirá um ambiente mágico e fantástico por meio de tais acidentes”, anotou Agrippino.

“O documentário seguiu essa pegada”, diz Lucila Meirelles. “Criei livremente algumas cenas e interrupções mantendo o espírito de realismo fantástico do Rito”.

O primeiro livro de Agrippino tinha sido Lugar Público (1965), que já o projetou como uma insólita revelação literária. Após escrevê-lo, ele foi até a casa de uma sua vizinha no Leme para pedir a opinião dela. Queria saber o que Clarice Lispector achava de sua obra. Assustou Clarice, mas logo adiante seduziu Carlos Heitor Cony, que o recomendou vivamente na orelha do livro, reeditado pela Papagaio em 2004.

 

Fonte: O Homem Hibernado, a vida de José Agrippino de Paula, de Vinicius Galera