É evidente que um ator não pode ser sequestrado por um único papel. É uma maldição pesada.

Mas o holandês Rutger Hauer foi, assim como muitos outros.

Eu não consigo imaginar John Cazale em outra função no mundo que não a de Fredo Corleone, o trágico filho condenado a suplicar por migalhas de protagonismo na famiglia.

Assim como ninguém tira o corpo de Eli Wallach do biotipo de Tuco em O Bom, o Feio e o Mau, um dos maiores westerns da História.

Um grande filme se amolda a um grande ator. Rutger Hauer teve a sorte de ser um anti-herói trágico em um dos maiores filmes de nosso tempo, Blade Runner – O Caçador de Androides. Só no Cine Vila Rica, em Londrina , eu vi umas seis vezes.

Ele será eternamente Roy, o humanoide punk que declama versos involuntários enquanto busca a chave de sua humanidade num mundo absolutamente desprovido de humanidade. Nesse papel, Rutger Hauer relativizou a noção binária de crueldade: quem é mais perverso, os que forjam as guerras e põem os inocentes nelas para morrer em seu lugar ou o louco que emerge delas em busca do seu sentido?

As leituras superficiais do cinema projetaram o ator holandês como um vilão, com olhar de psicopata de best-seller, amoldando-se ao vampiro, ao violador de castelos & ninfas, ao oficial nazista. Mas é evidente que Hauer tinha uma versatilidade impressionante, carregava tensão nos movimentos – talvez seu papel mais complexo, além de Blade Runner, tenha sido em Flesh & Blood, num enfrentamento épico com Jennifer Jason Leigh.

É o clichê dos clichês, mas sua despedida em Blade Runner pode funcionar perfeitamente como sua despedida, aos 75 anos, desse Vale de Lágrimas no qual vivemos atualmente:

“Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios-C resplandecentes no escuro perto do Portal de Tannhaüser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.

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