Anderson Moreira Sales, em cena no monólogo
O ator, dramaturgo e diretor Anderson Moreira Sales está no Espaço Parlapatões até 10 de julho com o monólogo "57 minutos - o tempo que dura esta peça". Foto Pedro Mendes

O jovem ator, diretor e dramaturgo Anderson Moreira Sales gosta de cumprir com a palavra. Promete chegar nos “57 minutos – o tempo que dura esta peça”, e ao final dela oferecer pão de queijo e uma boa cachaça mineira. Mas por trás desse ato gentil, o objetivo de Anderson é maior, bem maior, em tempos obscurantistas: ele quer se comunicar com quem não parece estar disposto ao diálogo. O monólogo em cartaz até 10 de julho, às terças e quartas-feiras no Espaço Parlapatões, em São Paulo, é um convite para refletir como chegar até o outro que não quer ouvir.

57 minutos seria tempo suficiente para desarmar os espíritos tão acirrados e armados? Anderson até que tenta, com seu jeitinho mineiro e formado em teatro em Porto Alegre. Mas tudo bem se ultrapassar um pouco esse tempo, afinal sua missão é hercúlea. No palco, ele convida o público a acompanhar a história de um homem comum, mostrando que por trás das ações dele em um dia comum há uma jornada digna de Ulisses, o personagem de James Joyce (1882-1941). Sem se reconhecer ou mesmo entrar em choque com figuras masculinas que cruzará ao longo desse dia, esse homem repensará questões identitárias em disputa no tempo presente.

Impossível não traçar paralelos com o momento atual da sociedade brasileira, em que apesar dos avanços conquistados em termos de direitos das minorias, a pluralidade voltou a ser perseguida, senão silenciada. Anderson, sozinho no palco, parece querer gritar em nome do que está se esvaindo das nossas mãos, porém sem levantar a voz, o que é uma façanha digna para quem quer dialogar de verdade. É fácil compreender essa construção quando se está do mesmo lado, ideológica ou politicamente falando. Mas será que serve para furar as bolhas sociais premidas pela raiva e pelo ódio?

Em 2015, Anderson Moreira Sales escreveu, atuou e dirigiu o também monólogo Lujin, que conquistou a categoria de melhor dramaturgia no Açorianos, a principal premiação do Rio Grande do Sul. Foi nessa peça que ele teve o primeiro contato com Ulisses, período em que pesquisava sobre arte performática, e ficou fascinado com a possibilidade de narrar um dia inteiro de uma pessoa, como fez Joyce. Mas ao transportar essa estratégia para os dias de hoje, em que os sinais de cordialidade do brasileiro vão sendo abandonados rapidamente, é certo que os temas do personagem vão girar em torno das manifestações escancaradas de homofobia, machismo, racismo e xenófobas.

As cenografia e iluminação enxutas fazem a atenção se voltar para a interpretação e a narrativa propostas por Anderson. Nesse jogo de 57 minutos, o ator interrompe algumas vezes a peça, dialogando humildemente com o público, para tentar captar ou retomar a atenção. Talvez seja isso o que esteja faltando para nós brasileiros.

57 minutos – o tempo que dura esta peça. No Espaço Parlapatões, na Praça Franklin Roosevelt, 158, São Paulo. Até 10 de julho, terças e quartas-feiras, às 21 horas. Ingressos a 30 reais, com desconto para alunos da USP.

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