Roger Waters atiçou a militância bolsonarista ao imprimir #EleNão no telão dos shows no Allianz Parque, em São Paulo - Foto Jotabê Medeiros

“O neofascismo está em ascensão”, diz o ex-vocalista do Pink Floyd, que cria músicas de enfrentamento aos totalitarismos desde os anos 1960

“Quem mandou ele vir aqui pra falar tanto? Teu negócio é cantar! Canta, porra!”, berrava, na arquibancada inferior, uma espectadora do show Us & Them, de Roger Waters, na noite passada, no Allianz Parque, em São Paulo.

A moça não parecia saber exatamente quem era Roger Waters e nem o que fazia no show dele. O pai do cantor e baixista, Eric Fletcher Waters, foi morto pelos nazistas durante um bombardeio em Anzio, Itália, quando ele ainda era um bebê. Para o pai, em 1983, ele compôs The Fletcher Memorial Home, na qual fala de “incuráveis tiranos” e os nomeia um a um: Ronald Reagan, Alexander Haig, Menahem Begin, Ian Paisley, Leonid Brezhnev, Joseph McCarthy , Richard Nixon.

Em show no Allianz Parque, Roger Waters cita Bolsonaro entre os neofascistas em ascensão - Fotos Jotabê Medeiros
Em show no Allianz Parque, Roger Waters cita Bolsonaro entre os neofascistas em ascensão – Fotos Jotabê Medeiros

Em 1990, Roger Waters montou o show The Wall (cuja essência é a metáfora do perigo do fanatismo e do fascismo) na base do que fora o Muro de Berlim, explodindo um muro de isopor simbólico como exposição de seu pensamento sobre aquela cortina comunista, a divisão do mundo pelo autoritarismo e pela força. Organizou um boicote internacional de artistas contra Israel, buscando asseverar direitos aos Palestinos e catalisando para si toda a raiva dos partidários do uso da força contra um povo (chegou a tretar com Caetano e Gil por causa disso). Em meio ao processo eleitoral norte-americano, ele inflou seu porco com a cara de Donald Trump sobre os ares do País, em turnê – e segue fazendo isso, expondo a insânia de Trump, até em português.

Portanto, Roger Waters é a própria imagem do destemor e da liberdade de expressão. Ele faz seu show justamente para dizer às pessoas o que pensa sobre os perigos da opressão, da supressão de direitos, da perseguição a grupos sociais. A meta dele é essa: identificar o fascista, apontar o fascista. O primeiro pensamento que vinha à cabeça de quem presenciava as vaias e os xingamentos que Waters tomava na noite de ontem era esse: será que esse pessoal não errou de show? Sem questionar a legitimidade da vaia, mas o que Waters procura é basicamente isso: causar desconforto naquele tipo de pensamento que não se coaduna com a defesa da irrestrita liberdade, da admissão dos direitos civis, do humanismo.

A vaia começou quando surgiu a tag #EleNão no telão. Antes, Waters já tinha exibido durante pouquíssimo tempo uma lista com o título “NEOFASCISMO ESTÁ EM ASCENSÃO”. Logo abaixo, os nomes dos líderes neofascistas e os países: Nos Estados Unidos – Trump; Na Hungria – Orban; na França – Le Pen; na Áustria – Kurz; no Reino Unido – Farage; na Polônia – Kaczynski; na Rússia – Putin?; no Brasil – Bolsonaro.

Houve já um apupo, mas Roger Waters cantou Wish You Were Here e saiu, anunciando um intervalo de 20 minutos. Ao voltar, logo após a execução de Dogs, um porco inflável gigante com os dizeres RESPEITEM AS MULHERES, NO WALL e AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA, além de grafites de palestinos atirando pedras e ilustrações simbólicas, percorreu os ares do Allianz Parque, agora fazendo jus ao seu apelido de Allianz Pork. Roger Waters e os integrantes da banda vestiram máscaras de porcos durante Pigs (Three Different Ones) e um garçom também mascarado servia-lhes champanhe. George Orwell reencarnava na Barra Funda. Mas quando a tag #EleNão voltou ao telão, aí começou a treta.

Porco inflável no show de Roger Waters trazia os dizeres: um porco inflável gigante com os dizeres "RESPEITEM AS MULHERES", "NO WALL" e "AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA"
Porco inflável no show de Roger Waters trazia os dizeres: um porco inflável gigante com os dizeres “RESPEITEM AS MULHERES”, “NO WALL” e “AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA”

Jair Bolsonaro é considerado fascista por quase todas as publicações importantes do mundo (Le Monde, Libération, Der Spiegel, The Guardian, El País, New York Times) por seus próprios méritos. Já expressou mais de uma vez a sua disposição para o extermínio das diferenças, sua misoginia, homofobia, racismo, a apologia da violência. Ainda assim, parte significativa da plateia discordou veementemente de Roger Waters. Essa parte tem planos de votar no candidato com todo o pacote do que ele representa, e se incomodou com a identificação categórica do perigo nazifascista concentrado em Bolsonaro. Como rebateu isso? Alguns grupos isolados gritavam “Fora PT” em resposta. Outros ofendiam Waters. “Babaca! Filho da puta! Vai se foder!”. Houve diversos casos de empurrões e agressões verbais de espectadores dessa corrente contra a outra metade da plateia que discordava.
Enquanto tuitava sobre os acontecimentos em progressão, um jornalista celebrado das redes sociais tomou um tranco de um partidário de Bolsonaro.

Pressentindo o clima tenso, Roger Waters cruzou os braços no peito e tentou pacificar os ânimos. Lembrou que o Brasil está em meio a uma eleição, que iriam dizer que não era da conta dele. Mas não abriu mão um milímetro de suas convicções. “Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder não crê que uma ditadura é uma coisa boa. Lembro das ditaduras da América do sul e foi feio”.

Durante pelo menos uns 10 minutos, Roger iniciava uma fala e as vaias recomeçavam. Tentava apresentar a banda e sobrevinham novas vaias. Com larga experiência no comportamento das turbas (Another Brick in the Wall é uma alegoria do comportamento das massas), ele levou a tensão até seu esgotamento e anunciou Mother. Durante a música, ele ia enfatizando versos com uma expressão facial de advertência. “Mãe, será que eu devo concorrer para presidente?”, e fazia um esgar com a boca. “Mamãe vai fazer todos os pesadelos se tornarem realidade”.

Ao sair de cena, após Comfortably Numb, de novo Roger Waters colocou a tag #EleNão no telão. Já refeitos dos confrontos, os antifascistas da plateia ironizavam o público bolsonarista. “Não teria sido melhor terem ido no show do Zezé di Camargo?”, brincava um gaiato. Muitos fãs na pista VIP, que custava R$ 810, usavam camisetas do Pink Floyd (um até tinha uma camiseta número 12 com o nome de Syd Barrett às costas) e mostravam fúria desmesurada em relação ao ídolo, como se alguém tivesse olhado dentro deles, do que carregam de mais íntimo dentro de si. A participação do coral de crianças em Another Brick in the Wall foi inebriante, a alegria dos garotos era tamanha em estar ali que Roger até se emocionou.

Poucos, entretanto, falavam mal do som na saída. Roger Waters fez um dos shows mais orgânicos de suas turnês recentes. Na época em que trouxe ao Brasil o show The Wall, em 2012, ele tocava muito pouco, cantava muito pouco e havia mais eletrônica do que instrumento na execução. Dessa vez ele soltou a banda, deixou que saíssem do script, alguns solos foram menos xiitas em relação ao som gravado. O show perdia um pouco o pique quando entravam as canções novas, como Déjà Vu e Last Refugee, mas era irretocável em clássicos como The Great Gig in the Sky, com o habitual tour de force das suas vocalistas ao estilo replicante de Blade Runner. Os efeitos do prisma de luz durante Eclipse tinham até a capacidade de invadir as almas conflagradas de parte da plateia e reorientá-las, fazê-las voltar a acreditar no conceito de liberdade absoluta do artista.

Waters volta logo mais ao Allianz Parque para o último show em São Paulo. A caminho do Uber, jovens fãs amantes da democracia, demonstravam preocupação com ele do lado de fora do estádio, mas esse não é o tipo do artista que cultiva a palavra medo. Daqui, ele vai a Brasília, ao Estádio Mané Garrincha, no dia 13; a Salvador, na Arena Fonte Nova, no dia 17; a Belo Horizonte, no Mineirão, no dia 21; ao Rio de Janeiro, no Maracanã, no dia 24; a Curitiba, no Couto Pereira, no dia 27; e a Porto Alegre, no Beira Rio, no dia 30.

Publicado originalmente em El Pájaro que come Piedra

21 COMENTÁRIOS

  1. Em tempos de Midiotagem do pigolpista fascista não é de se estranhar muito o que estes midiotas fazem. Se não estudaram História direito, ou se nunca tiveram consciência social e de classe, para atuar em alguma associação, sindicato, ong ou qualquer atividade política é pq estiveram lá só pra pular e viajar sem rumo.

  2. Eu gostaria muito que o cara que me chamou de vadia e fez gestos obscenos no show quando eu comemorava #elenao entendesse,com o cérebro e consciência e não com bílis, esse conteúdo excepcional. Hoje, eu cultivo o medo em expressar ELENAO em ambientes públicos.

  3. Tudo muito bom,tudo muito explicado. Só que aqui no Brasil não tem opressão de ditador, não temos povo oprimido nem subjugado. Também não somos uma nação beligerante ou armamentista. Nosso governo é democrático e o fato deste senhor querer ser contra o Reagan, o Trump, ou Bolsonaro não faz dele uma pessoa melhor. Por que este senhor não faz shows em Cuba, Venezuela, China, Guiné Equatorial, Russia, Coreia do Norte, Arábia Saudita, etc. , por exemplo, e provoca os governos destes países? Saúde a todos !!

  4. “Já expressou mais de uma vez a sua disposição para o extermínio das diferenças, sua misoginia, homofobia, racismo, a apologia da violência”… rindo pra não chorar. Prove o que está dizendo sem tirar as frases dele do contexto em que as pronunciou e mudo o meu voto, do contrário, vai tentar enganar gente inculta que não consegue pensar por si só e que não enxerga a realidade em que está afundada. Dinheiro pra “propaganda oficial do governo” está acabando, entendo o motivo de alguns dizerem algumas coisas…

  5. Dear Roger Waters, thank you for your great act of protest. Brazil needs you, who is a great bearer and diffuser of the struggle against the system that oppresses and massacres the poorest of this planet. Those who vaunt him do not understand the essence of Roger Waters and Pink Floyd. Humanity is approaching dangerous storms. one more time I say … Brazil needs your voice, your art. Gratitude! Much light and peace!

  6. É um idiota! Não tem que dar pitaco onde não foi chamado. Ele veio aqui para fazer show e vai provocar o povo. Nâo sabe o que tá passando aqui no país. Esse bando de petralhas assaltaram a nação isso é fato, até a globo anunciou os escândalos do mensalão, petrolão, lava a jato, etc. Está na cara, muito obvio que a maioria quer tirar o pt do país, a prova disso foi o primeiro turno, sem falar as urnas fraudadas. Ele tá equivocado, foi infeliz nessa e acabou oom o próprio show!!!!

  7. Sou super fã do Pink Floyd, cresci ouvindo eles, pois nasci em 1960. Sempre soube da posição esquerdista dele e de muitos outros. Nem por isso deixei de ser fâ. Agora se ele se propõe a externar sentimentos no meio de uma platéia onde a maioria é eleitor do Bolsonaro, claro que estará sujeito a protestos também! Não misturem alhos com bugalhos! Vamos deixar de ser tendenciosos… Bolsonaro não é fascista, não é nazista nem homofóbico! Isso é o que vocês querem que ele seja! Pois acabaram-se as mazelas e o PT que estrupiou o Brasil!

  8. O disco “The Wall” do Pink Floyd fala sobre o processo educativo que torna todos iguais sem respeitar a individualidade de cada um e a pluralidade humana. The Wall quer dizer O Muro e eu compreendo esse muro como sendo uma parede que nos separa de nos mesmos, o que queremos, o que somos, o que desejamos, o que gostamos. The Wall eh a parede eh o muro que nos isola do nosso EU. Esse muro eh formado pela educacao fascista que uniformiza, massifica e que torna todos um igual ao outro num processo perverso e violento contra nos mesmos.

  9. Fico feliz em saber que Roger Waters esta de volta porque no final da decada de 1980 Roger passou um tempo muito dificil na vida dele. Roger conseguiu superar essa fase e canta novamente. Agora resta voltar a compor. Eu tive essa informacao do Roger Waters com a minha irma Ita Paiva que foi pro Estados Unidos e ficou sabendo que Roger passava o dia inteiro em frente a TV sem falar absolutamente nada e sem fazer mais nada. Todo mundo estava preocupado e alguns com raiva que eh o caso da minha irma que me contou isso.

  10. Roger Watters é cantor. Devia limitar-e a cantar e não em dar opinião sobre o que não entende. Ao se manifestar mostra ser um completo idiota. Não conhece plano de governo de Bolsonaro e não conhece Bolsonaro. Assim,, está como um verdadeiro idiota, julgando uma pessoa por ###de imbecis. Se tivesse se dado ao trabalho de conhecer Bolsonaro e seu plano de Governo veria que Bolsonaro pode ser chamado de conservador, mas, nunca de fascista. Uma simples leitura do plano de Governo de Haddad mostra que quem é fascista é Haddad. Ele foi vaiado uma vez e não se emendou. De ignorante, passou a ser cretino.###CaleabocaRogersWatters

  11. Olha só, um cara que não conhece a realidade brasileira. Combater corrupção só é bandeira quando não é causada pela esquerda. Tem que ter paciência. Artistas não podem ser financiados com dinheiro publico, sobre qualquer pretexto.

  12. O problema maior é a pessoa não se informar e vomitar sandices.
    Ele ofendeu uma pessoa que ele não conhece.Bolsonaro machista,homofóbico,fascista….O próprio candidato poderia processá-lo por calúnia.
    Gosto demais das músicas do Pink Floyd,mas Roger mereceu todas as vaias que levou na cara.

  13. Incrível que todo mundo aqui virou amigo íntimo de Bolsonaro pra dizer que o Roger não o conhece. Ele sabe exatamente o que todos os grandes jornais , estrangeiros e brasileiros, anunciam sobre o cara. Até a revista mais liberal do mundo, The Economist , disse que ele é um perigo pra democracia. Vocês são cegos e ainda por cima são carentes,pq parecem mulher traída que não perdoa ,mas não consegue esquecer o ex e vive falando dele. Até quando não tem a ver com ele. Já arrumou outro,mas chama o atual pelo nome do ex.
    E não adianta mostrar pra vocês vídeos dele falando que a ditadura deveria ter matado e não torturado;que negro no quilombo não pesa 7 arrobas;que se tivesse filho gay ele ia apanhar e que ele pagaria menos pra uma mulher.
    Vocês sempre vão dar um jeito de dizer que tem contexto. Se eu te mando ir à merda , o contexto é um só. Pare de arrumar enredo. O sentimento antipetista é tão grande que deixou vocês manipuláveis. E vocês são tão inocentes a ponto de crer que um partido , um herói, um líder salvaria a vida de vocês que estão criando um novo “Lula”. Mas esse castiga com pau de arara.

    • O anti-intelectualismo é uma das armas de destruição de massa do fascismo, Joane… Esquecem que infelizmente os fascistas se suicidam no final do filme, já esqueceram de quando assistiam na Sessão da Tarde (ou nem assistiram, porque livro é sessão da tarde é coisa de comunista).

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