Em 1966, o jovem músico carioca Marcos Valle havia lançado seus dois primeiros álbuns e preparava o terceiro. Samba “Demais” (1964) e O Compositor e o Cantor Marcos Valle (1965) eram dois discos ortodoxos de bossa nova, o primeiro com “Ela É Carioca”, “Ilusão à Toa” e a autoral “Sonho de Maria”, o segundo com as autoralíssimas “Samba de Verão”, “Eu Preciso Aprender a Ser Só” e “Gente”.

Seriam os únicos trabalhos de bossa ortodoxa na história desse artista até hoje conhecido como bossanovista. E o terceiro, o que seria? Não se sabe, porque ele nunca existiu, até este mês de junho de 2011. Preparando a caixa de CDs Tudo – Discografia de 1963 a 1974, o pesquisador e músico Charles Gavin encontrou, nos arquivos da gravadora EMI, o material inacabado que teria sido o terceiro LP, mas nunca foi. As músicas serão lançadas agora, num décimo-terceiro volume batizado The Lost Sessions.

“Eu estava gravando o terceiro LP, só que ‘Samba de Verão’ estourou nos Estados Unidos com Walter Wanderley, depois com Johnny Mathis, e Ray Gilbert, que era empresário do Tom Jobim, achou que eu devia ser o próximo a acontecer lá, depois do Tom. E fui eu”, conta Marcos hoje, aos 67 anos. O álbum foi abandonado no pretérito imperfeito em que se encontrava até agora.

As bases orquestradas estavam todas prontas, mas o cantor só tinha colocado voz em quatro faixas: “Batucada Surgiu”, “O Amor É Chama”, “É Preciso Cantar” e “Os Grilos”, essa última ao mesmo tempo derradeiro clássico bossa-nova e primeiro hit pós-bossa de um artista que voltaria transformado (e cheio de groove soul-funkeiro) em 1967, depois de abortada a aventura norte-americana, por iniciativa própria (ele não queria ser enviado para combater no Vietnã, como os EUA pretediam). “Não conseguia conviver com todo aquele profissionalismo dos americanos, me assustsva, eu não tinha o jogo de cintura suficiente”, explica.

As quatro faixas com voz seriam acondicionadas em um compacto duplo, editado aqui em 1967. Das demais, demarcadas com nomes provisórios na fita máster, “Se Você Pudesse” sairia com outro nome em seu primeiro álbum norte-americano, o exclusivamente instrumental Braziliance! (1967). Várias ganhariam letras e interpretações de outros artistas, como Os Cariocas (“Mais Vale uma Canção” e “Primeira Solidão”), Claudette Soares (“Lá Eu Não Vou”) e a efêmera cantora de bossa Luiza (“Pensa”, sob arranjo do maestro Moacir Santos, como Marcos lembra com orgulho).

Destino especial teria “Lenda”, que ganharia versão black da pesada e viraria primeirs faixa do LP solo de estreia do soulman à brasileira Cassiano, em 1971. “Uma Lágrima”, por sua vez, ficaria anônima até hoje.

O material seria abandonado pelo dono por conta das transformações que ele viveria pós-temporada nos EUA e pelo período de transição até sua filiação ao samba-soul e ao rock rural no início dos anos 70, quando tateou pela canção de protesto, pela MPB de festival, pela toada moderna de “Viola Enluarada”, pela tropicália, pela pilantragem de Wilson Simonal.

E como soaria o LP que não houve, segundo seu autor? “Ele não é bossa nova. Começa a ter uma abertura para outras influências. O interessante e que tem orquestra, como os anteriores, pra mostrar a mistura que já está havendo ali”, define Marcos. O conteúdo ainda não conhecemos, mas a versão original da híbrida “Os Grilos”, já bem conhecido, dá testemunho em favor do bossanovista mais impuro e rebelde que já existiu.

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