Há mais humor e os diálogos são mais sarcásticos no novo Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas do que nos dois filmes anteriores (o melhor ainda é o primeiro, mas já ficou para trás). E é claro que, como diria o Fausto Fawcett, as duas horas e 21 minutos no cinema valeriam a pena só pelos três minutos com o Keith Richards, dos Rolling Stones, de pirata. Ele faz o pai de Jack Sparrow, e nem precisaria fazer nada: a gente já ouve os riffs de sua guitarra só olhando os sulcos no rosto dele.

O novo Piratas do Caribe me pareceu uma espécie de homenagem ao grande filme de Sergio Leone, O Bom, o Feio e o Mau. Johnny Depp, ironicamente, seria o Feio – os piratas Barbossa (o “Bom”) e Barba Negra (o Mau) seriam seus contrapontos éticos.
Rob Marshall, que dirige o filme, teve um insight interessante: mixou o gênero bucaneiro com o western spaghetti. Deu uma espanada nos filmes épicos do gênero, aqueles que tiveram o Errol Flynn como herói, e substituiu os valentes pelos mais vis covardes, traíras e cagões entre os bucaneiros dos Sete Mares. Todo mundo é trapaceiro no elenco. Talvez tenha criado algo que poderíamos chamar toscamente de “Buccaneer Spaghetti”.

Como em O Bom, o Feio e o Mau, o filme termina com um duelo triplo em uma espécie de cemitério da moralidade. O romance, a revolução e as motivações religiosas são coadjuvantes – todos procuram a fonte da eterna juventude por motivos diferentes.
Bucaneiro de grife, Jack Sparrow (Johnny Depp) divide a cena com Barbossa (Geoffrey Rush, de O Discurso do Rei) e Barba Negra (Ian McShane). Reaviva a chama dos extintos filmes de pirata. Os espanhóis, que dominaram a arte de singrar os mares e espalharam seus piratas pelo mundo, de Gibraltar a Cartagena de las Indias, comparecem no filme como xerifes dos mares.

E há a mulher no meio de tudo. Penélope Cruz, único porto seguro, única âncora de confiabilidade no meio de um festival de traíras.

No epicentro de toda a barbárie pagã, o missionário com sua Bíblia resiste à tortura, à violência, à provocação. Mas sucumbe à criatura de Deus que jamais compreenderá, Syrena, “um dos animais que perdeu o embarque da Arca de Noé”, em sua própria definição.

As realezas disputam a Fonte da Juventude de Ponce de León. O rei George, da Inglaterra, não quer que seu rival, o rei da Espanha, “cristão e metido”, chegue primeiro à fonte e consiga ser rei para sempre. Ambos têm pistas sobre o paradeiro da tal fonte – mas o rei George é obrigado a contratar piratas para atingir seu intento. O personagem Barbossa, então tornado bucaneiro a serviço do Rei, lembra certos ministros plenipotenciários dos governos democráticos no Brasil. Que, entre um pacote econômico e outro, ganham dinheiro grosso prestando consultorias a clientes anônimos.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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