Em 1988, Ed Motta era um jovem funkeiro carioca que não queria compromissos com a vida além de dançar a vida na rua. “Eu não nasci pra trabalho/ eu não nasci pra sofrer/ eu percebi que a vida/ é muito mais que vencer/ já dirigi automóveis/ já consumi capital/ já decidi que o dinheiro/ não vai pagar a minha paz/ vamos dançar na rua/ vamos dançar pra valer/ vamos dançar enquanto é tempo/ nos aplicar a viver”, cantava com a suburbaníssima Conexão Japeri em “Vamos Dançar”, dele e de Rafael Cardoso. James Brown parecia ser um modelo.

Em 2008, Ed Motta era um homem “sofisticado”, arranhador de harmonias intrincadas (“cheias de aranha”, diria o soulman baiano Hyldon), bossanoveiro, apreciador de vinhos “finos” (& cristais, como já cantou Paulinho da Viola), cantor das letras em inglês (não muito sofisticadas) do álbum Chapter 9, lançado pela hoje silenciosa gravadora Trama, arquitetada no início deste século por João Marcello Bôscoli, filho da cafona-e-sofisticada Elis Regina. O brega-chic Burt Bacharach parecia ser um modelo.

Em 2011, Ed Motta se embananou. Em conversas públicas que supostamente supôs privadas, abriu destampatório preconceituoso contra “pobres”, “feios” & mulheres – provavelmente a favor de “brancos” & contra “pretos” (contra “gays” & a favor de “héteros”?), a favor de “magros” & contra “gordos”… O espelho quebrado parece ser um modelo.

Em 2003, Ed Motta era um pop-funkeiro ferino, que continuava gostando da rua, como insinuava “Tem Espaço na Van”: “Se arruma, aqui que tá bom/ aqui tá dez/ se arruma, tem espaço na van/ pega o trem, vem pro baile/ ser feliz sem disfarce/ tudo bem, tudo vale/ só nos resta sorrir/ e dançar em paz”. A Farofa Carioca do ex-morador de rua Seu Jorge, que, por sinal, era coautor do funk póptico inserido no álbum Poptical, parecia ser um modelo.

Em 2009, Ed Motta ainda mantinha um pé na jaca, outro na vida real. No colorido Piquenique, colocava-se diante de dificuldades cotidianas em “Mensalidade” (“pago mensalidade/ e nem cheguei na metade/ preciso emprestado/ vou pedir adiantado”) e reivindicava legitimidade estética e comportamental à “Turma da Pilantragem” do sofisticadíssimo-e-popularíssimo Wilson Simonal, cantando lado a lado com Maria Rita, irmã de João Marcello e Pedro Mariano e filha de Elis. Simonal parecia ser um (perigoso) modelo.

Em 2011, não deveríamos querer calar Ed Motta – ele fala por toda uma categoria, a tal MPB, que há anos vem misteriosamente calada, eticamente calada, politicamente calada. Ele nos dá notícias dum Brasil cantado por Milton Nascimento (“A novidade é que o Brasil não é só litoral!/ é muito mais, é muito mais que qualquer zona sul”) e Elis Regina (“o Brazil não conhece o Brasil”), que com o passar dos anos se encastelou atrás de uma sigla usurpadora (música “popular” brasileira, enquanto os mais “populares” que a MPB eram tratados não como MPB, mas como “cafonas”, “sambistas”, “pagodeiros”, “sertanejos”). Dói quando ele (ela?) fala, mas é preciso escutar e compreender o que ele (ela?) fala, por que ele (ela?) fala. Por que ela fala o que fala em 2011?

Em 2011, poderíamos sentir, além de raiva, ternura pelo espelho partido de Ed Motta. Ele tenta. Fala da van, da mensalidade, do piquenique, do “tudo bem, tudo vale”. Tudo Tim Maia, “vale tudo/ só não vale dançar homem com homem/ e nem mulher com mulher”. Tudo Jorge Ben, “mas tudo bem, eles não têm Jorge Ben/ o deles é Big/ o nosso é Jorge/ mas tá tudo Ben/ estamos bem” (como cantou para os britânicos em 2010 o samba-roqueiro Bebeto). Enquanto isso, nós nos irritamos, nos nossos espelhos também partidos, porque Ed esfrega em nossas fuças a necessidade de parecer fino demais, chique demais, sabido demais, culto demais, “Aystelum” demais (esse é o nome do disco instrumental de 2005).

Em 1988, nosso funkeiro pré-carioca estreava com o formidável Ed Motta & Conexão Japeri e sacudia “Manuel”. Embora não composto por ele (os autores são Fábio Fonseca Márcia Serejo), esse funk carioquíssimo faz exato retrato do que ele não é mais (e do que ele ainda é) em 2011. “Gostava de música americana e ia pro baile dançar todo fim de semana.” “Ia pro trabalho, cansado, às 6 da manhã”, “o trem tava lotado/ pensou no seu salário/ ficou desanimado/ se eu fosse americano minha vida não seria assim”. Tim Maia, carioca ex-exilado nos (e dos) EUA que transformou o funk gringo em “Coroné Antônio Bento” (1970) e “Canário do Reino” (1972), parecia ser um modelo em 1988. O “preto” Tim Maia, tio do “branco” Ed Motta, parece ser um (não-)modelo em 2011.

 

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