Há um céu leitoso sobre a cidade.
E eu atualmente moro nessa vila sob esse céu leitoso.
Uma vez, aos 15, vivi numa cidade úmida, num platô de araucárias esparsas, cidade com calçadas de pedras lisas que, quando chovia, as pedras que se soltavam criavam armadilhas para as calças e os tênis. Lá é assim até hoje.
Naquela época, eu tinha grande vontade de plagiar Zé Ramalho. “A lua cheia e todo o céu leitoso”; “As mulheres e luas são pedaços da noite”; “Além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar”.

Acalmava a consciência dizendo que essa vontade nem era assim tão grave, porque era óbvio que o próprio Zé teria expropriado a Bíblia e muitos cordelistas anônimos para obter aqueles versos misteriosos, versos de grande familiaridade incompreensível (como as rezas de minha mãe e os impropérios de meu pai).
Foi uma vontade que eu levei comigo para a universidade, e lá no Campus achei um grande cúmplice nessa missão, o inimitável Careca.
(Revi o Careca essa semana, levei-o ao Pacaembu para prestar reverência ao time mais mítico de todos os tempos, o Santos FC., e ele estava acompanhado de Maria Elisa, que eu só tinha visto menina e parece que toma conta bem do bandido).

Aos 20 e poucos, a gente andava pela UEL berrando os versos do grande Zé. Sinto que ainda somos os mesmos berradores de versos desafinados do Zé, 24 anos depois.

Também reencontrei outro dia o Dimi Vigarista na Avenida Paulista, e ele continua o mesmo debochado.
Conversamos sobre a vida do Belchior em seu refúgio lá em Rivera, no Uruguai, e demos muita risada.
Lembramos que fomos expulsos juntos da Casa do Estudante, mas tivemos direito a julgamento. No dia do julgamento dele, eu faltei, tava numa festa – os adversários me torturavam dizendo que meu voto poderia tê-lo salvado.

Pensei nesses reencontros porque estava hoje aqui ouvindo o novo disco do Springsteen, que na verdade é um disco velho.

Trata-se de The Promise, no qual ele foi ao fundo do baú e descobriu 21 canções que tinha gravado entre 1975 e 1978, época que é tida como o auge da carreira do Boss.
Ali no encarte tem um longo depoimento de Springsteen.

“No verão passado, antes de lançar esse disco, eu voltei várias vezes para ouvir essa música que eu tinha abandonado uns 30 anos atrás. Era como revisitar velhos amigos que vinham esperando meu retorno para fechar um ciclo que tinha sido abruptamente interrompido”, escreveu Springsteen. E completou: “Senti que minha seleção original de canções sobreviveu aos anos e continua a representar a compatibilidade das opiniões do jovem de muitos anos atrás”.

Senti exatamente isso ao reencontrar os velhos camaradas: as canções deles sobreviveram aos anos e continuam a representá-los como faziam na juventude, 24 anos atrás.

Não quero chatear vocês com essas conversas nostálgicas, é só o registro de uma sensação.

No mais, se forem comprar o novo/velho álbum duplo do Springsteen, comecem direto pelo disco 2, comecem direto pela música 3, FIRE.
Bom pra caracoles!

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10 COMENTÁRIOS

  1. Sempre achei que Springsteen não era legal andar gritando por aí, mas já que comentou, vou assumir.
    _Eu gosto dele, a tal "Born In The U.S.A" anos 80, auge da minha juventude.
    Nossa me sinto melhor agora!!!!
    Com o seu aval.

  2. pará, ainda bem que prosseguimos "cantando, beijando o espaço". veja lá no seu e-mail. mandei as fotos daquele dia e tb outras duas do encontro dos velhos camaradas. bom aquele pastelzinho do genésio, heim!?

  3. Não sou jornalista, mas frequentava o Jota e o Valentino na companhia da turma. Minha referência é o Careca. Sendo eng viajo bastante. Ano passado conheci uma jornalista (londrinense) em Floripa. Qunado ela contou que esteve trabalhando por um breve período no Estadão, não resisti e perguntei=lhe sobre vc. E não é que a moça te conheceu. Trata-se da Gabi Pirajá. Conversa prá lá de boa trocamos remissências (será que escrevi certo?). O moça te adora e pediu prá transmitir beijos e abraços. Então: grande abraço, Chiquinho Zagabria.

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