Foi uma gigante surpresa o show único que Erasmo Carlos protagonizou cá em São Paulo na sexta-feira que passou, 23 de outubro de 2009. Nem foi exatamente Erasmo a surpresa, porque a grandeza dele é notória – quem sabe sabe, conhece bem, e aí não há em que se surpreender. Mas me surpreenderam, entre outros vários lampejos, a produção vistosa e sofisticada, a cenografia chique de doer, o azeite rock’n’roll da banda (com Dadi e os formidáveis garotos da banda – para mim desconhecida até então – Filhos da Judith), o roteiro mui inteligentemente alinhavado, o modo de apresentação das músicas mais novas, a volta ao repertório erasmocarliano do clássico “Panorama Ecológico” (1978).

O que não consiste em surpresa nenhuma, mas foi mais uma vez delicioso constatar, foram as sinalizações oferecidas pelo enorme e dulcíssimo artista, de que ele é, acima de tudo o mais, um cínico de marca maior.

O cinismo brotou todo florido, por exemplo, quando o velho band leader partiu para a inevitável menção ao ano comemorativo do inevitável Roberto Carlos. A banda se retirou (exceto o tecladista) e Erasmo, o grande, anunciou: ia agora prestar uma homenagem mínima, minúscula, singela, ao parceiro durante quase 50 anos.

Certeiro, remeteu-se ao pernambucano Luiz Gonzaga, o “rei do baião”, para prestar tributo ao seu “rei” (público e) particular: citando “Boiadeiro” (1950, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas), disse que sua homenagem “é pequenina, é miudinha, é quase nada/ mas não tem outra mais bonita no lugar”. E começou.

Não vou me deter em interpretações desta vez, que eu já fiz isso vezes sem fim. Acho que basta reproduzir alguns extratos das canções que ele selecionou, na sequência que ele montou, em versão pot-pourri apenas de teclado, voz e imensa candura. Cito de memória, mas acredito que foi exatamente assim, ou quase: “Por que me arrasto aos seus pés?/ por que me dou tanto assim?/ e por que não peço em troca/ nada de volta pra mim?”, em seguida “olha, você vive tão distante/ muito além do que eu posso ter”, depois “eu te proponho/ nós nos amarmos/ nos entregarmos”, então “vou me agarrar aos seus cabelos/ pra não cair do seu galope”, adiante “não adianta nem tentar me esquecer/ durante muito tempo em sua vida eu vou viver”, enfim “eu te amo, eu te amo, eu te amo” e “como é grande o meu amor por você”. Depois não vem me dizer que EC não dialoga apaixonadamente com RC quando canta criações de RC & EC.

Depois do denso momento de homenagem, o show continuou, para bem mais à frente, chegar ao episódio máximo de inteligência, sensibilidade, afronta e – principalmente – cinismo. Fora do bloco-tributo, Erasmo apanhou mais uma canção do repertório do parceiro e trouxe ao mundo uma versão rock’n’roll (“Rock’n’roll” é o nome de seu mais novo CD e o mote tanto do disco como do show) de “Quero Que Vá Tudo pro Inferno” (1965), aquela que o rei posto não canta há décadas, ao que consta por aversão TOC à palavra “inferno”. No moderníssimo telão de led ao fundo do palco, ardia uma enorme, infernal fogueira.

“Cê tá entendendo?”, perguntaria Arnaldo Baptista. Grandissíssimo Erasmo Carlos.

p.s.: Apenas comecei a ler “Minha Fama de Mau”, o livro autobiográfico do “tremendão”. Li pouco até agora, mas foi o suficiente para já perceber que está lotado de perspicácia, talento e inteligência (não dava para ser diferente, tratando-se de quem se trata). Mas aproveito esta oportunidade para registrar que o show me ajudou a ver o que eu já tinha perceber depois de umas tantas audições, mas acho que até hoje não mencionei aqui: há grandes, grandes, grandes momentos nesse novo álbum de EC, nesse “Rock’n’Roll”.

p.s. 2: O uso repetitivo do termo “grande” neste texto não é mera coincidência, nem bobice ou desleixo. Como cantou o gigante em pessoa, no momento mais novo e emocionante do show, “você não vê porque não quer/ a guitarra é uma mulher.”

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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