feriadão é bom porque se pode contemplar a cidade distraidamente, sem medo de ter o retrovisor arrancado por uma moto.
dá para fazer sightseeing numa boa.
passo a 40 por hora por baixo da ponte octavio frias de oliveira (engraçado como ponte combina com nome de dono de jornal por aqui).
para usar um clichê, a ponte é de fato um “marco na paisagem”.
difícil discutir com um marco na paisagem, mesmo que seja pouco utilizado, um enfeite dispendioso.
sem o trânsito, fica tudo bacanérrimo: o céu azul, os cabos tensos da ponte, o syline da cidade – isso se não olharmos mais detidamente para o rio fétido.

os dois rios mortos atestam a incompetência dos ricos de são paulo.
o pastoso pinheiros adorna a truculência neoclassica da daslu, o exibicionismo do shopping cidade jardim (cópia tosca de um mall de miami).
o rio tietê, objeto de grande campanha de despoluição em 1991, recebeu investimentos da ordem de R$ 1,1 bilhão naquela época.
diziam que estaria limpo em 20 anos. está cada vez mais fétido.
há coisa de uma semana, a rede globo lançou um flutuador descendo o rio para medir o nível de oxigênio na água (por sinal, um serviço decente prestado por aquela rede de TV).
anteontem, o flutuador chegou a mogi das cruzes.
o nível de oxigênio lá estava em 0,5% (são necessários no mínimo 5% para haver vida no rio).
ou seja: o rio já está morto desde mogi.
há mais de 20 anos sob o comando do mesmo grupo político, o meio ambiente de são paulo se mostra sem futuro.

uma vez eu acreditei em soninha, a vereadora de bicicleta.
foi um desapontamento progressivo.
primeiro, logo após uma eleição, ela pediu cargo publicamente pelas páginas de um jornal. depois, fechou com o grupo político hegemônico, e gasta parte de seu tempo ultimamente dando entrevistas puxando o saco de seu novo avatar político.
no horário eleitoral, soninha virou uma espécie de ciro moura de interesses alheios, de ocasião. agora, já abandonou a plataforma das ciclovias.
já o antes promissor ambientalista carioca fala grosso em convenção do partido, o mesmo ambientalista que mandou a filha surfar no havaí com verba do congresso.
considera-se “anistiado” pelos interesses que representa.
seu colega, o zequinha, vive em apartamento pago por empreiteira.
é duro, com esse nível de “ambientalista”, enxergar perspectivas.

folheio na fnac as revistas destinadas a “jovens”.
fico abismado com a caretice, com a visão tacanha.
as matérias de política parecem escritas por um taxista malufista.
um amigo me disse: “a mtv hoje é apenas um sbt de piercing”.
não só a mtv.
não quero parecer uma espécie de hardy har har, a hiena do desenho animado, mas é foda.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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