uma das minhas irmãs, a que tem olhos de personagem de mangá, esteve aqui e passou uns dias. estava inquieta e vulnerável, tinha voltado a ser a minha irmãzinha por um momento.
dois dias após partir, ela me mandou um e-mail no qual revelava que temia pelo seu futuro, pelo seu afeto.
eu apenas vivo, nunca encontrei tempo para buscar o caminho da sabedoria.
não tenho fórmulas, nem certezas. por instinto, cuido de quem cuida de mim.
ainda assim, encontrei um jeito de dizer umas palavras pra ela.
espero que ela não se importe de eu torná-las públicas.

Olá, meu anjo!

Não sei o que te dizer sobre o futuro, já que ele não existe.
Eu comecei a construir aquela minha casa no mato sonhando com o futuro, mas um dia me dei conta que ele tinha chegado e eu nem tinha percebido.
O futuro caminhara feliz ao meu lado várias vezes, como num dia em que vi meus filhos correndo no meio do mato e caindo e ralando o joelho e chorando e eu limpando com gaze e fazendo um curativo – naquele momento, que me lembro com clareza, eu estava vivendo aquilo que desejei, o melhor da vida. O futuro era uma gaze empapada de sangue muito vermelho e um choro abafado de alívio.
Você me pergunta: ficar ou partir?
Não é uma decisão fácil, mas às vezes o próprio ritmo da vida nos ajuda a tomá-la.
Não devemos temer. Nem a incerteza, nem a solidão.
Curiosamente, quando chegou seu e-mail, eu tava lendo aqui um livrinho do Ernesto Sábato, o escritor argentino.
Ele escreveu, sobre a superação das crises:
“Não deixarmos desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos desfrutar: uma mesa compartilhada com pessoas que amamos, umas criaturas que ampararemos, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Nós nos salvaremos pelos afetos. O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria”.
Sábato é um doce humanista. Eu o conheci brevemente um dia quando fui esperá-lo em Cumbica, ele chegou de Buenos Aires de chapéu de feltro. Ele se assustou quando o motorista que falava francês, o Bruno, tentou arrancar a bagagem de suas mãos para carregá-la.
Como Sábato, acredito que os afetos são mais importantes que a segurança.
Eu, como você pôde acompanhar, corro como um louco em São Paulo, atravesso a cidade com o coração aos pulos, sempre atrasado, sempre tentando terminar tudo de forma competente e sem furos.
Detesto me atrasar, detesto fazer as pessoas esperarem.
Sei que um dia não vou mais conseguir levar a vida nesse ritmo, mas não tenho medo. Tenho alguns amigos que sofrem com o medo do desmoronamento físico. Eu só temo perder o meu entusiasmo, o meu amor.
Sei que tudo isso vai parecer demasiado simplório, e que não é propriamente um consolo o que digo.
Mas, como disse aquele historiador no vídeo que o Matheus assistia, “não devemos ter medo da morte, mas coragem de viver”.

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