a dupla MGMT

Finalmente fui a Lollapalooza na noite passada.
O lugar é uma das melhores locações de festivais que já vi na vida – fica no Grant Park, uma mistura de Central Park com Hyde Park, uma área cheia de árvores e fontes e há redes para a moçada dormir e a cerveja é sempre gelada e a comida é boa, especialmente os tacos.
Mas vamos a uma breve sinopse crítica dos shows e do festival.

1. Exceto pelo palco principal, o som aqui é uma merda. Fosse em festival do Brasil, ia chover reclamação. As tendas e palcos de música eletrônica são muito modestas. O parque é longitudinal, então anda-se pra caraca para chegar de um palco a outro – no final da noite, as pernas bambeiam.

2. O MGMT fez seu show bastante prejudicado por essa questão do som ruim, então eu não quero dizer que eles são fraquinhos até que os veja com um som decente. Mas eles me pareceram bem fraquinhos, uma brincadeira de colegial que descobriu o psicodelismo hoje e acha que andar de bata fingindo tocar flauta na beira do palco é tudo que se espera de uma banda. Têm mais apelo nos hits, como Electric Feel e Kidz, mas de resto é meia-boca, especialmente na instrumentação – guitarra e teclados bem mal tocados.

3. A cantora Sharon Jones também fez um show bastante marcado pela deficiência sonora, mas ela é uma show woman de primeira. Lembra a Tina Turner, mas é mais ardida, mais moderna. Fica içando gente da platéia para dançar no show, sempre homens, e no meio do concerto tirou os sapatos e baixou uma pomba-gira na mulher. Fantástica.

4. O Battles é legalzinho, mas aluga muito os ouvidos com digressões intermináveis nos teclados – que nem são muito sofisticados. O vocal parou tudo para cantar parabéns para você para o baterista, John (e aproveitou para dedicar a música também à namorada, Grace, que estava celebrando sua data). Mas não aguentei muito tempo.

5. Enfiaram uns grupinhos aqui na programação que dá licença… A banda Brand New é um emo de chatear até fã da novela Malhação. Okkervil River dá sono de tão chato em seu neocountry de colégio. E há uns equívocos que tendem a se tornar cult: um exemplo é o novo show do Spank Rock, que parece um batidão reciclado. Eles colocaram duas cantoras depenadas para gritar à frente, uma delas uma cópia descarada da nossa Tiazinha (deveriam pagar royalties). O hip-hop e o funk ficam caricatos, meio deslocados, mas parece que a galera gosta.

6. Mas não foi só decepção. Teve também duas bandas bacanas: o Broken Social Scene, que é um combo em mutação (toda hora chamam um convidado ao palco; e não esqueçam que a mina do Metric já cantou e gravou com eles também). Belas camadas guitarreiras cobertas por melodias digressivas, um digno discípulo do Sonic Youth.
Mas o Wilco foi quem mais me pareceu chegar perto de um som clássico atualmente. A banda amadureceu, chegou a um tipo de apuro sonoro que só poucos grupos conseguem. Eles abriram com a matadora Misunderstood (“the cigarettes taste so good”) e tocaram também uma novíssima, Wheep, que entrará no próximo álbum. Uma “obra em progresso”, como definiu Jeff Tweedy, que também tirou um sarro dos próprios paletós coloridíssimos e ridículos que usavam, dizendo que o pessoal do grupo Radiohead não usa paletó porque são uma banda do futuro, e eles, Wilco, são do passado.

7. Ah, e Obama não veio ontem. Mas encontrei agentes de segurança e eles me disseram que o candidato vem hoje, para o show do Kanye West. Obama parece se sentir mais à vontade com os manos, o pessoal do rap. Mesmo não tendo aparecido, ele foi assunto no show do Rage Against the Machine, que fechou a noite. “Nós não votamos em Obama. Sabem por quê? Porque é o povo que deve tomar o poder”, disse o Zack de La Rocha. Segundo ele, os caras são eleitos e não demonstram mais o menor compromisso com o povo. Elegem-se salvadores da pátria, não representantes do povo. No final, antes do bis, tocaram o Hino da Internacional Comunista. Fosse uns 40 anos atrás, sairiam dali presos pelo pessoal do Macartismo. Um show de arrasar, não só politicamente, como também pelos decibéis e a força do punk-o-metal do Rage.

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