nesta madrugada, pensei numa música que eu ouvia por volta de 1988, 1989, quando eu tinha por volta de 20, 21 anos de idade.

reouvi-la agora há pouco, por volta de 20 anos depois, me faz pensar que as imagens podem até demorar muito a sedimentar, a criar raízes e a brotar frutos, mas, uma vez processadas, processadas estão, ainda que demorem mil anos a sedimentar, arraigar e florescer (bom-dia, chávez, bachelet, kirchner, lula, evo, correa, kirchner, e quem mais chegar).

em 1989, eu também ouvia (e detestava) “political world”, daquele cara (chato e estranho, supunha eu) que eu nem sabia que era judeu, descendente de russos, vindo de minnesota, norte gelado dos estados unidos, o bob dylan, esse mesmo que hoje me deixa embasbacado, apaixonado, cinco minutos antes de eu descobrir que em março ELE virá (de novo) fazer um show em são paulo – não é possível, depois de um mês ouvindo bob dylan, será que alguém anda fazendo lavagem cerebral em mim, para que eu goste tanto daquele judeu esquisito de minnesota (tanto quanto gosto daquela japonesa newyorkizada-cidadã-do-mundo named yoko)?

pois bem, eu achava que detestava, mas “political world” mora em mim até hoje, bem pertinho desta outra em que pensei nesta madrugada, “across the lines”. era composta e cantada por tracy chapman, uma artista que em minha ignorância juvenil eu supunha quase banal, e seus versos eu copio letrinha por letrinha linhas abaixo, não sem promover, of course, algumas pequenas interferências-2008, de minha (não-)exclusiva responsabilidade.

across the lines
(tracy chapman)


across the lines
who would dare to go
under the bridges (sobre águas turbulentas)
over the tracks
that separates whites from blacks
choose sides
or run for your life
tonight the riots begin

on back streets of america (do sul)
they (nunca) kill(ed) the dream of america (latina)

little black girl gets assaulted
ain’t no reason why
newspaper (nunca) prints the story
and racist tempers fly
next day it starts a riot
knives and guns are drawn
two black boys get killed
one white boy goes blind (o assum preto)

little black girl gets assaulted
don’t no one know her name
lots of people hurt and angry
she’s (not) the one to blame (nunca mais)

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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