“carta capital” 473, de 5 de dezembro de 2007. será o benedito, será a benedita, será o sebastião?

NARA NA VANGUARDA
A modernidade da artista, morta em 1989, volta à tona no CD de uma cantora pop e em desfiles no Brasil e no Japão

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Nara Leão estava na moda em 1964. A ditadura militar acabava de nascer, e a cantora topava, não sem certa hesitação, desfilar roupas da coleção Brazilian Style, da Rhodia, na Europa e no Japão. Nos bastidores da caravana, dedicava-se ao proselitismo político. Como narra Sérgio Cabral (pai) em Nara Leão – Uma Biografia (Lumiar, 2001), ela tentava, aos 22 anos, fazer a cabeça das modelos para que abandonassem “futilidades” e se preocupassem com “a miséria do povo”.

Morta em 1989, aos 47 anos, em decorrência de um tumor inoperável no cérebro, Nara não está na moda em 2007. Quem hoje se apresenta em passarelas japonesas é Fernanda Takai, também integrante do grupo pop-rock Pato Fu, no desfile de Ronaldo Fraga, um entre poucos estilistas que trabalham com o princípio de que a moda e o design do Brasil podem e devem dialogar diretamente com a cultura natal.

Na passarela, a não-modelo Takai canta músicas lançadas por Nara, com quem guarda semelhanças físicas e vocais. Ao redor se movem as estampas de Fraga, todas inspiradas no imaginário da dita “musa da bossa nova”. Nara Leão está na moda em 2007.

Confirma-o Fernanda, que lança agora, pelo selo independente Do Brasil, o disco Onde Brilhem os Olhos Seus, tributo irreverente não a um compositor, mas a uma personalíssima intérprete. Amapaense que vive em Belo Horizonte há mais de 20 anos, ela soube das intenções do amigo mineiro de devolver Nara às passarelas quando já trabalhava no CD, sob produção de John Ulhoa (seu marido e colega de Pato Fu) e sugestões e orientação do produtor e jornalista Nelson Motta.

A conexão Nara-Japão traz reminiscências musicais e familiares a Fernanda, que era ninada pelo pai descendente de japoneses com Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (1971), de Roberto e Erasmo Carlos, uma das músicas regravadas. É que Nara, capixaba como Roberto, lançou em 1978 um LP inteiro com a obra da dupla romântica, sob saraivadas de críticas dos defensores mais puristas da dita MPB.

“Fiquei tão contente de ter conhecido e me reaproximado da origem de meu pai que comecei a estudar japonês. Fiz matrícula numa Quarta-Feira de Cinzas”, diz Fernanda.

A distribuição japonesa de Onde Brilhem os Olhos Seus, pelo selo local Taiyo, foi garantida durante a passagem do desfile por um país que costuma amar música brasileira em geral e Nara Leão em particular. “O Brasil não se deu conta de Nara. ‘Musa da bossa nova’ é muito pouco para ela”, Fraga exerce proselitismo político-musical. Nara concordaria com ele, pois contestava o rótulo, segundo a biografia de Cabral: “Musa, não. Talvez eu seja a muda da bossa nova”.

Mas de muda Nara não tinha nada. Em 1964, causou espécie entre colegas ao desancar publicamente a bossa fermentada ao redor de seu umbigo, nas míticas sessões coletivas no apartamento do pai, na orla carioca. “Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento”, disse à revista Fatos & Fotos, entre elogios ao “samba puro” e afirmações de que “a bossa nova me dá sono”.

“Escrevi e sustento que o primeiro disco dela inaugurou essa coisa que se chama MPB. Nunca nenhum samba até então tinha recebido o tratamento que ela deu”, avalia Cabral.

Já em Nara (1964), o primeiro LP, começava a se tornar dissidente do movimento de que era a figura feminina emblemática. Nara iria à faculdade de psicologia tardiamente, nos anos 70, mas a sigla de extração universitária “MPB” nascia ali a partir da mistura que ela fazia entre sambas de “raiz”
dos então anônimos Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti, canções de “protesto” de Carlos Lyra e bossas “alienadas” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. As vertentes conflitantes cabiam todas dentro de um vinil da desassossegada cantora.

Muda Nara não era, como demonstrou novamente em 1966, ao apontar os canhões da ditadura contra si própria. “Os militares podem entender de canhão ou de metralhadora e nada pescam de política”, afirmou no Diário de Notícias. O Exército e o Ministério da Guerra desejaram a prisão da moça pós-adolescente, mas os militares desistiram da idéia diante de um poema-pergunta escrito especialmente por Carlos Drummond de Andrade: A menina disse coisas/ de causar estremeção?/ Pois a voz de uma garota/ abala a revolução?

A jovem Nara se posicionava sem freios, e não raro a fogueira verbal era instrumentalizada mercadologicamente pela imprensa. Cabral relata o fogo cruzado com Elis Regina, produzido com a cumplicidade de ambas para a série “as grandes rivalidades”, da revista Manchete. “Ela começou gradativamente a trair cada movimento do qual participava”, disparava Elis, indignada com suposta conversão da “rival” ao iê-iê-iê. “Essa agressividade pueril e desequilibrada não é interessante para nenhuma de nós”, Nara contra-atacava. Na foto, apareciam juntas e sorridentes.

O que Elis interpretava como “traição” é o que hoje identifica Nara como uma vanguardista desde a origem. Em conseqüência, foi por vezes ignorada, por outras combatida. “A vida inteira enfrentou vigias intelectuais, de direita e de esquerda”, diz Fraga. “Ela mesma me dizia: ‘Canto muito bem!'”, lembra a sobrinha artista plástica Pinky Wainer, ciente de que criticar o canto pequeno de Nara foi por algum tempo um esporte popular.

Talvez por desamor à unanimidade e ao lugar comum nacionalista, a jovem Nara elogiava os Beatles, cantava Rolling Stones na Record (está no YouTube), passeava com o jovem-guardista Jerry Adriani e se casava com o cinema-novista Cacá Diegues. Em breve, desnortearia Elis, Edu Lobo e cia. ao se alistar não à turma do iê-iê-iê, mas da tropicália. Artista plástica ocasional e quase-atriz nos espetáculos de esquerda Opinião e Liberdade, Liberdade, aderiu ao movimento em 1968, com um elogio musical à “Gioconda do subúrbio” Lindonéia. O arranjo era do maestro erudito Rogério Duprat e a composição, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, sob inspiração de um quadro de Rubens Gerchman, hoje reproduzido nas estampas de Fraga.

Intérprete pioneira dos contemporâneos Chico Buarque, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Sidney Miller, Francis Hime, Torquato Neto e Jards Macalé, Nara faria meia-volta nos anos 70, ora de volta aos clássicos da bossa, ora dedicada a reler Chico, Roberto e Erasmo, ora pesquisando o passado musical nas cantigas de ninar de Meu Primeiro Amor (1975).

Antes de um mergulho final melancólico de volta à bossa (em discos feitos para o mercado japonês), apadrinhou Fagner e apresentou novos autores nortistas, nordestinos e sulistas. “Chegou a fazer uma seleção de músicas indígenas, mas (o produtor e amigo da vida inteira) Roberto Menescal a convenceu a não gravar”, diz o “narólogo” Fraga.

Inspirada por Nara, Fernanda Takai percorre hoje a contramão da contramão para homenageá-la. “Prefiro fazer boa música pop que fazer samba torto, mal tocado, sem suingue”, justifica.

Quem a traduz é Nelson Motta, que comemora o fato de o CD ter sido gravado “distraidamente”: “O mais bacana é que, tendo formação de pop-rock anglo-americano, Fernanda e John não sabem fazer samba, bossa, choros, baiões, os ritmos de Nara. Em vez de ficar uma sub-bossa com uma sub-Nara, são versões pop arrojadas”.

Ele concorda que Chico Buarque talvez estranhe a (per)versão de Com Açúcar, com Afeto: “Mas, pode não parecer, ele é um cara mais aberto musicalmente do que se pensa. Gosta de rap, é um bom rapper potencial. E me atrevo a dizer que Nara, que era abertíssima, gostaria muito de algumas coisas, de outras nem tanto, mas ficaria amicíssima de Fernanda”.

Se Takai estará na moda ou não em 2008, não se sabe, mas desde já a discípula distraída pisa o jardim da vanguarda e da afronta ao lugar comum, onde Nara sempre morou.

O “SÍNDICO” DO BRASIL
Um livro revela as brigas do trovejante Tim Maia com os parceiros e os fãs

Nelson Motta é o ponto de ligação entre a reavaliação de Nara Leão e a de um oposto quase simétrico da cantora, o trovejante Tim Maia (1942-1998). Além de orientar o disco de Fernanda Takai, ele é autor da recém-lançada biografia Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva, 392 págs., 50 reais), que diz ter vendido os primeiros 40 mil exemplares prensados em menos de um mês.

A boa aceitação parece refletir a popularidade de que o soul man à brasileira continua a desfrutar, à revelia das características “negativas”
que expressava publicamente, sem restrições nem controle.

Motta ilustra o fenômeno com um exemplo da fase de refluxo dos ápices artísticos de Primavera (1971), Gostava Tanto de Você (1973) e Sossego
(1979): “Em 1993, Tim fez diversos comerciais de big anunciantes, tipo Petrobrás, bombons Garoto, Banco Nacional, Cartão Sollo e Antarctica. Apesar de ter uma imagem pública capaz de queimar o filme de qualquer produto, sempre envolvido com drogas, brigas, processos e excessos, as pesquisas das agências mostravam que sua popularidade era absoluta da classe A à Z, em todas as faixas etárias”.

Escrita por vezes de modo displicente e pouco preciso em relação a datas, a biografia avança surpreendentemente no relato da precariedade emocional de Tim, quase sempre tratada de modo folclórico e reducionista. O autor relata situações de desamparo (como a “fuga” para os EUA, aos 16 anos, e prisões lá e cá) e dá pistas de que, atrás do clichê do “irresponsável” que não comparecia aos shows, havia uma personalidade em guerra constante consigo mesmo e, conseqüentemente, com colegas, banda, técnicos de som, mídia e mesmo a platéia.

Não precisava muito para que, fora de controle, abandonasse o palco depois de xingar espectadores de “piranha”, “corno”, “mocréia”. Sabotava-se o tempo todo, mas os shows, ironicamente, alternavam-se entre esvaziados e lotados. Mais que afrontar e ofender interlocutores, parecia entrar em contato com os humores mais sombrios de empregadores, colegas de trabalho, anunciantes e fãs, que por sua vez oscilavam entre se assustar e se reaproximar.

Sem querer, Tim fazia das agruras uma espécie explosiva de marketing ao avesso, que somava a um apego constante por souls, funks e baladões melosos de forte poder comunicativo.

Embora o tema dos atritos entre ídolos e suas cortes costume ser tratado como tabu, Motta opina que não era prerrogativa exclusiva de Tim. “Renato Russo tambem adorava ‘discutir a relação’ com a platéia. Angela Ro Ro, Lobão, Cazuza, Raul Seixas, Marcelo D2, Seu Jorge, Luiz Melodia… Que time, hein? Por outro lado, quando Tim queria ser simpático, caloroso, sedutor, era irresistível. Qualquer um fazia o que ele queria. Tinha um carisma avassalador”.

E cita de novo a diversão que brotava de alegrias e pesares de Tim. “Fui amigo e fã desde que o conheci, como músico e como meu personagem favorito. Todo mundo sempre amou histórias e lendas de Tim Maia. Ivan Lins fazia coleção de ‘causos’. Durante anos me diverti imitando-o, especializei-me a ponto de passar trotes com a voz dele.”

A revisão biográfica evidencia que, no grande circo chamado MPB, Tim foi um dos “palhaços” mais talentosos. E não escamoteia que, como convém a tal personagem, havia muita dor e tristeza escondidas por trás das gargalhadas e da maquiagem. – PAS

PLÁCIDO VAMPIRO
Arnaldo Antunes tenta driblar regras da indústria

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O cenário e a filmagem em preto-e-branco fazem pensar o tempo todo no expressionismo alemão. Parece que O Vampiro de Dusseldorf passará encostado na parede ao fundo a qualquer momento. Mas, no centro do palco minúsculo, um cantor de voz grave entoa interpretações contidas, sob arranjos essencialmente delicados. O contraste entre expressionismo visual e impressionismo musical se repete em várias frentes.

O paulista Arnaldo Antunes elege o paradoxo como protagonista do primeiro DVD e CD ao vivo que cria, o que pode ser percebido desde o título, Ao Vivo no Estúdio (Biscoito Fino). O show acontece num ambiente aparentemente sombrio, tipo porão, diante de um público de cerca de 50 pessoas, todo mundo sentado no chão do minúsculo espaço que é ao mesmo tempo platéia e palco. Em certas cenas, flagram-se os técnicos de gravação do lado de cá do vidro, Arnaldo lá no fundo, qual vampiro paulistano ou peixe expressionista num aquário de placidez. “É como se o estúdio fosse uma caixinha de músico”, sintetiza, arredio a maiores elucubrações, o músico e poeta.

Os contrastes se espalham por entre músicos e convidados, que vão dos roqueiros ex-colegas do grupo Titãs (Nando Reis e Branco Mello) aos parceiros hippies “tribalistas” (Marisa Monte e Carlinhos Brown). No trio que o acompanha, sobressai Marcelo Janeci, que faz da sanfona quase um co-protagonista da gravação. No Brasil, o instrumento ficou identificado com o baião de Luiz Gonzaga e foi proscrito da música dita “sofisticada” pela geração bossa nova. “João Donato e Gilberto Gil começaram tocando sanfona”, ele lembra, mas admite que os foles em primeiro plano soam como uma “novidade” no contexto da banda e do trabalho.

Arnaldo oscila no paradoxo, ora fazendo da sanfona veículo de alta sofisticação (como em Luzes, do poeta paranaense Paulo Leminski, levada como num tango de Astor Piazzolla), ora usando-a para traduzir rock denso em leve quadrilha junina (em O Silêncio).

A série de contrastes se consolida, enfim, no balé entre redundâncias e inovações ao qual o artista demorara a se entregar, desta época de transição entre música gravada em CD, música para ver em DVD e o futuro de formato ainda indefinido. Ao Vivo no Estúdio é projeto retrospectivo feito sob medida para atender às convenções do DVD, mas sai pela tangente da redundância ao inserir a sanfona como elemento de corte, ao transformar os arranjos de modo marcante, ao adotar o paradoxo de ser gravado “ao vivo” “no estúdio” (em geral, os dois clichês são tidos como incompatíveis no jargão musical).

Pelo que diz, quase parece um trabalho inédito. Sem ser. Pelo que deixa de dizer, nem parece preocupado em ajudar na solução de impasses da indústria musical. Mas quem sabe?

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