o garoto negro de 11 ou 10 anos passa rente e dispara: “ei, tem que ficar atento!”. eu abro um sorriso, indico que sim com a cabeça. ele segue adiante, volta, me reolha e dispara outra vez, subvertendo a fonética à moda de carmen miranda:

– uéru from?

abro um segundo sorriso, respondo em dentes:

– ô! eu sou daqui mesmo!

agora é o sorriso dele que se abre, em pontos de exclamação e de interrogação:

– ah! é baiano que nem a gente?!

conduzo que sim com a cabeça, sim, sim. ele estende a mão espalmada para que eu estale na dele, num “toca aqui” entre camaradas. eu bato, trocamos polegares e impressões digitais, sorrio e arremato: “certo, mano!”.

ele segue adiante, faceiro, baiano, carioca, paulista, paranaense, catarinense, gaúcho. está nascendo um novo líder no morro do pau da bandeira, no gogó da ema, no curuzu.

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miúdo, o garoto negro de 10 ou 9 anos cumpre o seu número: ele é um artista, tá na cara. é malabarista, faz maravilhas com três bolinhas que se movem alternadas e pairam suspensas no ar qual beija-flores.

não, a cena não está descrita com propriedade. rebobina, reenquadra.

miúdo, o garoto de negro de 10 ou 9 anos faz o seu número: ele é um artista, tá no corpo. é malabarista, faz maravilhas com três cocos verdes de água já bebida por alguém, que se movem alternados e paralelos e pairam suspensos no ar, qual favos de mel e beija-flores.

de longe o menino já sabe que estou amirando seu espetáculo, admirado. vem em minha direção, sorriso largo estampado na cara e na cabeça. aponto para meu muque para dar a entender, por gestos à la carmen miranda, que é espantosa a força de seus bracinhos magros. sorriso largo estampado no corpo inteiro, ele faz pose de popeye, nutre seu espinafre espiritual, aperta um muque que se estufa à prova de seus 10 ou 9 anos e à prova da magreza de menino.

lanço um mísero real, como a arte é barata (e não raro confundida com esmola) neste brasil de meu deus. penso em cuba, penso em são paulo, penso em salvador.

o menino vai faceiro retomar seu balé de balangandãs, de pesados cocos verdes que ora se seguram simultâneos em suas duas mãozinhas, ora se suspendem simultâneos no ar sob a regência certeira e precisa do pequeno maestrinho. está nascendo um novo líder no curuzu, no jardim ângela, na rocinha, na cidade de deus, nas cidades de meu deus todas plantadas no brasil.

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majestosas em trajes míticos de baianas que são mães de carmen miranda e são filhas de carmen miranda, as mulheres negras rodopiam o samba de roda do recôncavo. percussão masculina ferina felina, vocais corais, rendas & xitas, “tu não faz como um passarinho que fez o ninho e avoou, voou, voou…”. meu coração faz chica-chica-boom-chic(& brega).

a sambista líder puxa para a roda as moças fãs do pé do chão. as moças e os moços. ansiosas como todas as meninas (as brancas, negras e todas as intermediárias), e os meninos também, a(o)s fãs rebolam furiosa(o)s, e a imagem global da mulata globeleza se materializa diante das baianas “de raiz”, diante das moças e dos moços que não ousaram entrar na roda, dos baianos e dos estrangeiros: a miséria platinada global, a vergonha alheia, a auto-vergonha retida dentro de cada um.

nicinha, a baiana-sambista-líder, baila seu solo, o sorriso caymmiano pendendo soberbo do rosto e do corpo. você então olha o rosto de nicinha, ele parece imóvel, está quase imóvel. você mira os ombros e os quadris de nicinha, eles pairam no ar qual beija-flores (ah, quisera o helicóptero…), semi-imóveis. você olha de soslaio as ancas anti-carla perez de nicinha, elas nem parecem rebolar. você se fixa nos pés de nicinha, eles mal se locomovem, numa câmera-lenta que é o avesso completo da fúria globeleza, que não faz o tchan e é anti-carmen miranda em quase tudo, o que é que a baiana não tem?, o que é que a baiana não terá?

mas logo a seguir você congela na memória o sorriso caymmiano de nicinha e lhe enquadra o corpo inteiro. harmoniza a cena dentro do coco duro e troca as partes pelo todo. o corpo de nicinha está em pleno movimento, ele inteiro. o olhar magnético da líder carismática (mas não messiânica) banha o ambiente. ela capturaria a atenção até de um beija-flor que resolvesse passear zunindo por ali em busca de néctar e pólen.

na bahia(-minas) de tom zé(& ana carolina), onde cada homem sozinho é a casa da humanidade, o samba de roda e os movimentos de nincinha explodem e implodem, lerê, lerê, no bairro bem central do pelourinho. do pelourinho.

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no pátio externo da escola pública na periferia de salvador, o terno de reis evolui composto apenas de pequenas rainhas, princesas, xicas, carlotas, antonietas de 14 e 15 e 16 e 17 e 18 anos. ali ao lado, meninas negras de 7 e 8 e 9 e 10 e 11 e 12 e 13 anos empreendem um desfile de roupas de motivos africanos, baianos, brasileiros, estrangeiros, parisienses.

resplandece o contraste entre a pele preta e o amarelo de batas que são biquínis. uma a uma, as pequenas evoluem na passarela de asfalto, de cimento de pátio. uma a uma, elas reproduzem em motivos negros as poses & passos & truques & cacoetes da loura gaúcha gisele bündchen, carmen miranda oxi-pós-pós-modernizada.

e a africanidade fashion implode e explode no bairro pobre da liberdade. da liberdade.

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aliás, bairro, não. comunidade. a comunidade da liberdade, o subdistrito do curuzu, a casa cultural do ilê aiyê. passarela de ladeiras para a população autóctone e palanque de desfile para trupes de gringos do brasil e do mundo, que passeiam planos pelas sinuosidades de salvador. a comunidade a tudo assiste e se cala.

você não gosta do som do ilê aiyê? ora, madrugada já rompeu, já não é mais hora para futilidades. fique fixado o decreto: é fútil gostar ou não gostar do ilê aiyê. não mora nem nunca morou aí o xis do problema, nem o ipsilone das soluções.

não há mais xis, nem ípsilon, nem a-e-i-o-urca. inscritos nos muros da liberdade, repetidos pelas bocas do curuzu, retumbados nos tambores e nos debates do ilê aiyê, outras palavras & expressões & frases & sons & imagens são constantes, renitentes, ribombantes. aqui, neste auge turbulento de era lula, é impossível andar pela liberdade sem ouvir & ver & sentir motes & emblemas como estes que o branquelo de maringá reproduz aqui, mas que pairam quase parados no ar, codinome um bilhão de beija-flores:

– zumbi dos palmares

– movimentos sociais

– comunidade

– diferença, sim; preconceito, não

– se o poder é bom, eu quero ter poder

– favela unida

– candomblé

– hip hop

– orgulho negro

– zumbi dos palmares

– consciência negra

– minorias

– zumbi dos palmares

– zumbi dos palmares

há um outro mote, que não está nas ruas do curuzu, mas ribomba no coco, na água do coco. alô, carmen miranda-portugal-rio-hollywood, alô, seu jorge do brasil: moro no brasil, não sei se moro muito bem ou muito mal, só sei que agora faço parte do país, (vinicius de moraes que nos desculpe, mas) a inteligência é fundamental.

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