márcia e alessandra, vim cá para o vi mercado cultural da bahia, que reúne num grande feirão artistas dos mais variados estados brasileiros, do extremo sul do rio grande ao extremo norte do pará, e de países como argentina, colômbia, austrália, finlândia etc.

mas, sabe?, na praça campo grande, bem aqui ao lado do hotel e do teatro castro alves, está acontecendo a ii feira de empreendedoras(es) afrodescendentes de salvador. ei, cês tão ligadas nesse formato aí, “empreendedoras(es)”? por conta da(o)s empreendedora(e)s, tenho passeado entre bonecas negras fashion, bancas de cds (não piratas) de hip hop, estandes do tipo “movimento de cultura popular do subúrbio”, tendas de penteados afro e slogans como “vamos denegrir a mídia”.

ontem, tirei um cochilo depois do almoço e acordei com uma voz familiar cantando, lá no palco afrodescentente, uma música paulista, paulo vanzolini grátis para o povo da praça: “reconhece a queda e não desanima/ levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. era elza soares quem cantava.

por último e mais importante: o lema da feira de empreendedoras(es) afrodescendentes – ou seja, brasileiras(os) – é o seguinte: “século xxi: o século da reparação”.

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no pelourinho, eu passo pelo negro trabalhador e ele pede a latinha de cerveja, reciclagem, mora?

– ainda tem cerveja. – eu me desculpo.

também branco, outro rapaz passa pelo mesmo negro trabalhador, que também lhe pede a latinha de cerveja, reciclagem, mora?

– latinha é o caralho. – agride o branco boçal.

ante a agressão do branco boçal, o negro trabalhador abaixa os olhos, submisso, impassível. o mal praticado pelo branco boçal é profundo, irremediável.

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“século xxi, o século da reparação”, cê não tá entendendo nada, branco boçal.

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de volta do pelourinho pela madrugada, pedi um recibo para o taxista. ele preenchia, preenchia e preenchia, até que perguntou: “hoje é dia 4?”. algo me dizia que não era dia 4 (era 11), mas não houve negócio aqui dentro da água de coco, não consegui lembrar se era ou não era dia 4.

– deixa em branco o dia, que depois eu preencho. – sugeri.

– ih, agora já foi. – retrucou, enquanto preenchia, preenchia, preenchia.

de tanto que preencheu, me entregou o recibo, enquanto eu pulava para fora do táxi, pulava para dentro do hotel, pulava para fora do mundo.

o recibo que ele me entregou estava em branco.

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“século xxi, o século da reparação”, cê tá entendendo?

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mas também converso com a mãe-de-santo que é líder comunitária que é militante da consciência negra e que já esteve cara a cara com lula, olho no olho, em brasília, no planalto, no alvorada.

ela conta que guiou outro dia uma psicóloga branca, pasma diante das “adivinhações” da, opinou que a sacerdotisa negra levava maior jeito para psicóloga. coincidência, a mãe de santo contou à psicóloga que o sonho de sua vida era ser psicóloga. mas que teve de parar os estudos em prol da sobrevivência, não lhe foi possível continuar.

do encontro entre psicóloga branca e sacerdotisa negra para cá, a mãe-de-santo voltou a estudar, pegou nos livros após 20 anos de desquite. vai bem em todas as matérias, mas matemática é o grande problema.

enquanto pensa em desistir do vestibular, por medo da matemática, arma com um coletivo de terreiros de candomblé um curso oficial pré-vestibular, a ser ministrado exclusivamente pelas comunidades.

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“século xxi, o século da reparação”, cê tá participando?

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ah, mas a elza soares, a elza empreendedora afrocarioca rascando a garganta, a voz suspensa no ar feito beija-flor entre as árvores da praça campo grande, que é do povo como o céu e a terra são do paulo vanzolini…

(e a sensação forte, corcoveante, de que a bahia É cuba, de que cuba É a bahia…)

acho que já sabia (ó, clichê) que a bahia pulsa música em cada esquina (e, não, já não há mais a hegemonia axé, pelo menos não foi o que ouvi em cada esquina nestes dias de mercado cultural, feira afrodescendente & muito mais). posso até estar hipnotizado, mas o que vi, nestes quatro dias, é que hoje a bahia pulsa e respira música e consciência negra a cada esquina e a cada segundo. e isso quer dizer sabe o quê? que o brasil está crescendo, saindo da mamadeira, cuidando da própria saúde.

a coisa tá chegando, minha.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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