uia. quase nem consigo contar/convidar aqui, mas o sesc ipiranga promove amanhã (sábado 16), as 16h, um debate sobre raul seixas, do qual vou participar. (a ficha técnica: o sesc ipiranga fica à r. bom pastor, 822, do ladinho de onde dom pedro i parou para fazer cocô e para decretar a independência que continuamos lutando até hoje para conquistar; o debate é de grátis – a independência não é, evidentemente…)

sei que muita gente, quando ouve falar “raul seixas”, pensa imediatamente em chatice, cafonice, messianismo etc. mas, malucos e malucas, eu me arrisco a dizer que no fundo do peito não é nada daquilo.

seguindo alguns ensinamentos (alô, paulo césar de araújo!) e algumas intuições, há uns três anos decidi dedicar um capítulo ao raul no meu livro “como dois e dois são cinco” (do qual roberto carlos, o anti-raul, é o protagonista). pois mergulhar de volta na obra do cara me trouxe uma série de descobertas sensacionais, surpreendentes, emocionantes.

eu odiei raul seixas, quando era criança. eu tomei afeto por raul seixas, quando era adolescente e o ademar, um amigo malucão de minha irmã mais velha também malucona, me induziu a ficar horas e horas e horas passando seus discos de velhos vinis para velhas fitas cassete (até hoje nem sei para quê – devia ser mesmo para que eu, molecote, ouvisse os roques & toques & foques de raul). desgostei de raul quando era pós-adolescente e me irritava com a “breguice” e o fanatismo que o rodeava. pois acho que hoje adoro raul seixas, para sempre. porque graças ao meu livro reaprendi, com ele, que desde quando era pequeno eu já aprendia, com ele, que havia gente estranha por debaixo do mundo, trabalhando “nos fundo”, que não era peixe, mas não morria afogado. e era do caralho. o cara trabalhava duro para fazer esse brasilzão lindo que existe hoje – mesmo que isso lhe custasse sua própria carne.

hoje tenho o orgulho de dizer que sonho continuar sendo para sempre um discípulo de raul seixas, e que sinto, olhando o brasil, que ele é hoje mais vivo e atual do que jamais foi. tentei refletir um pouquinho sobre esse tema num texto que o sesc me pediu, para acompanhar a programação raulseixista de agora (quando ele completaria 60 anos, se não tivesse desistido da lida cedo demais). vai abaixo o tal texto, que, espero, seja equivalente a um convite para quem quiser passar uma tarde de sábado com raulzito & seus panteras (negras & brancas & multicores)…

O REDESCOBRIMENTO DO RAUL
Pedro Alexandre Sanches

É evidente que o Brasil jamais deixou de ouvir Raul Seixas (1945-89), e isso reverbera em cada esquina, em cada rua e em cada roda de violão pelo país afora. Mesmo assim, é preciso que se diga: está na hora de o Brasil aprender a reouvir Raul Seixas. Por muitos anos, a pecha de roqueiro acafonado e, de quebra, o suposto fanatismo de uma legião fidelíssima de fãs mantiveram Raul lamentavelmente afastado do reconhecimento da importância que poderia e deveria ser atribuída à sua obra.

Agora que o país anda redescobrindo, ainda temeroso, a força dos matizes ditos “cafonas” de sua música, as camadas ditas “cultas” e “intelectualizadas” de seu povo já demoram a se despir de seus preconceitos tolos e, abre-te sésamo!, compreender que o que Raul tinha a dizer era muito mais forte e profundo do que supunha nossa vã filosofia.

Por teimosia ou cegueira, são alguns dos brasileiros tidos como mais
“inteligentes” que até agora continuam desperdiçando todo um tesouro que o povão jamais deixou de louvar e reconhecer: aquele que se disfarçava atrás de tons ora messiânicos, ora românticos, ora de desbragado dramalhão era um dos mais subversivos artistas que já passaram por nossa música popular. Tentando (e conseguindo) furar o monolito da ditadura e flechar o coração da multidão (mais que das classes “esnobes”), um Raul 100% nordestino, 100% roqueiro dirigiu ao seu Brasil brasileiro um discurso de tons radicalmente rebeldes, libertários, provocativos, utópicos. Não consertou o mundo, mas deixou pavimentado um caminho que hoje um Brasil complexo e conturbado trilha com ares de surpresa e desassossego.

Pois aqueles a quem Raul dirigia o fervor de suas convicções vão devagarzinho fazendo ouvir suas vozes: são rappers, funkeiros e cantores “bregas”; moram na favela, no sertão nordestino e no pampa gaúcho; são Mano Brown, Deize Tigrona e as três cantadeiras cegas da Paraíba (Maroca, Poroca e Indaiá); integram o Planet Hemp, a Nação Zumbi e os acampamentos de sem-terra; somos você, eu e todos aqueles que intuímos, enfim, que “não dá no rádio nem nas bancas de jornais”, mas “alguma coisa está acontecendo” – é a vontade popular ecoando espontaneamente, sem intermediários ou atravessadores, num novo e ainda desconhecido Brasil, onde tudo é perigoso, tudo é divino, tudo é maravilhoso, tudo é como Raul Seixas sempre sonhou.

(Este texto utiliza termos como “culto” e “cafona” entre aspas porque entende, como o Sesc Ipiranga já entendeu, que não há mais sentido em distinguir esses falsos pólos opostos – num Brasil complexo onde tudo se mistura, o “culto” é o “cafona”, e vice-versa. E Raul Seixas já sabia disso, há dez mil anos atrás.)

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