Emicida
Emicida - Foto Julia Rodrigues

Desde outubro de 2019, quando foi lançado o álbum AmarEloEmicida tem priorizado, entre seus objetivos, refletir sobre o papel desempenhado pelo homem negro na sociedade brasileira. O assassinato sob as asas do Estado do menino João Pedro Matos Pintono dia 18 passado, torna mais aguda essa reflexão, no momento em que o rapper de 34 anos lança o primeiro de quatro episódios do podcast AmarElo Prisma.

Dedicado a informar com empatia os pares de Emicida nas “quebradas”, o podcast (disponível nas plataformas digitais) remete-se a assuntos especialmente agudos para o momento, como paz, saúde mental e segurança alimentar. Na entrevista abaixo (em vídeo e em texto), ele fala sobre esses assuntos, sobre pandemia, sobre o Brasil politicamente em cacos, sobre sensibilidade e sutileza em tempo de obscurantismo.

Pedro Alexandre Sanches: Estamos vivendo dias especialmente difíceis, com pelo menos três jovens negros inocentes assassinados, além das mais de 22 mil mortes pelo coronavírus. Como ficar em pé diante disso tudo?

Emicida: Uau, já começamos assim, vamos! Nossas negas véias, Dona Jacira, o que elas viram que a gente não viu? O que elas atravessaram que a gente não atravessou? Eu cresci no meio de um monte de mulher que atravessou situações muito mais difíceis do que essa. Sempre penso numa entrevista do B.B. King que eu vi, ele falando que quando chegou aqui, quando uma pessoa preta morria, eles diziam: “Vai lá no celeiro e pega outro”. O que ele estava querendo dizer com isso? Por mais que a gente tivesse um contexto de muita desesperança, muitas coisas melhoraram bastante. O fato de a gente estar tendo esta conversa aqui é uma prova de que algumas coisas mudaram, e mudaram pra melhor. Tudo que a gente conseguiu construir e influenciar pra que siga construindo a nossa presença aqui neste plano ainda é uma conquista que tem que ser celebrada. Isso não significa que a gente não está despedaçado por causa da tragédia que a gente atravessou. Muito pelo contrário. Nos anos 1960, na realidade dos Estados Unidos, aquele menino Emmett Till foi espancado por adultos brancos e a mãe dele atravessou a pior dor que uma mãe ou uma pessoa pode atravessar, que é enterrar seu filho, e ela exigiu que ele fosse enterrado com o caixão aberto, pra que o mundo visse a proporção da catástrofe que uma criança preta enfrentava. Dave Chappelle, o humorista americano, fala que aquele episódio foi gasolina aditivada na luta pelos direitos civis dos anos 1960. O nosso papel aqui é que essa tragédia, infelizmente, ainda hoje, ganhe visibilidade. A gente precisa fazer com que as pessoas observem isso. E esse tipo de assunto, por mais duro e dolorido que seja, precisa estar na ponta da nossa lança, porque cada uma dessas pessoas de pele escura numa condição de pobreza hoje está ameaçada não só de morrer pela mão do Estado sem amparo nenhum, e a gente nem está falando de coronavírus ainda. Vivemos uma sensação sádica neste momento, onde eu e meus colegas artistas que provavelmente passeávamos pelos fones de ouvido do João Pedro estamos aqui dizendo “fique em casa”, “fique em casa”, “salve vidas”. João Pedro estava em casa. Então existe uma outra doença, a jornalista carioca Flávia Oliveira escreveu um texto falando sobre isso, existe uma outra doença aí, uma outra causa mortis que atravessa a situação do corona, que infelizmente estava antes e ainda vai estar depois. Porque a gente escamoteia isso aí. A gente chama racismo de preconceito e não conversa sobre a estrutura. Tudo isso me faz pensar que quando a gente olha simplesmente pelo espectro da política e toda essa tragédia representada por essa ocupação que tem no Palácio do Planalto agora, que é a única ocupação do país que devia ser destituída com violência, com a violência que é destinada a outras ocupações, como a Mauá, a Prestes Maia ou a do interior de São Paulo pelo governo do estado, que aconteceu agora, durante a pandemia, parece que a gente tem um problema gigantesco na mão, mas a urgência desses caras parece ser outra sempre. A urgência é sempre produzir mais destruição, mais destruição, por mais fragilizadas que as pessoas estejam. A questão dessa criança, do João Pedro, precisa estar no front, precisa ganhar o mundo, precisa circular. A gente precisa falar o nome dele. A gente não pode falar “morreram três esta semana”, a gente precisa falar o nome do João Pedro e dos outros que agora esqueci o nome. Mas não foi só ele.

PAS: Outro era João também, o terceiro não lembro agora.

E: Dois Joões, eu me lembro.

PAS: E são os casos que vazaram para a mídia. Deve ter outros.

E: Com certeza. E isso fala sobre uma mazela profunda, leva a gente a pensar o quê? Bolsonaro, na sua cruzada de morte e ignorância, é só a ponta do iceberg. É nisso que a gente tem que se concentrar neste momento. Não adianta ficar aqui conversando sobre eleição como se a gente só existisse entre junho e outubro dos anos eleitorais. Existe uma cratera, um buraco muito mais profundo, quando a gente fala da situação deste país, e isso não é uma coisa que está pautando as discussões. Muito pelo contrário, estão tentando reescrever esse tipo de coisa pra dar a entender que tudo isso é uma questão superada, quando não é. Tudo que a gente está pagando hoje é o resultado direto das lições de casa que a gente não fez. A gente permitiu, todos nós, enquanto sociedade. A gente permitiu, em todos os governos anteriores, a liberdade de todas as pessoas que cometeram assassinatos na ditadura. Tem gente que não foi encontrada até hoje, e a gente permitiu. A gente não parou as nossas fábricas e escolas, a gente não queimou pneu na rua pelo corpo de cada uma dessas pessoas, pela lágrima de cada uma dessas mães. A gente não parou nosso modo de vida pra dizer: olha, morreram tantas pessoas numa chacina na Candelária; olha, mataram esses caras desarmados no Carandiru; olha o que aconteceu em Paraisópolis, em Osasco. A gente não parou. A gente está funcionando numa espécie de modo avião, onde a gente não se conecta com nada, com nenhum outro universo. As redes sociais têm amplificado isso. Todo mundo quer falar. Não à toa, o termo que identifica o nosso momento é o lugar de fala. Mas escuta-se muito pouco, e a gente precisa escutar. Principalmente quem está no poder, esses precisam escutar. A gente está brigando por falar também porque passou 400 anos calado. Então, se a gente não vai se levantar de verdade enquanto sociedade, coisa que a gente não fez como deveria, com a radicalidade que deveria nos últimos anos, aí, mano, a tendência é a gente sentar aqui daqui a cinco anos e estar chorando outro João Pedro. 

PAS: É um dado positivo que esses casos dos meninos estejam repercutindo bastante mesmo na pandemia?

E: Sim. Porque existe esse Brasil não-oficial que o Machado de Assis falava. Esse Brasil não-oficial tem estofo para ganhar voz, ele só não tem consciência da importância dele. E tudo que está acontecendo agora, sobretudo no âmbito da política, é pra fazer com que tudo fique nublado e esse Brasil não-oficial perca a capacidade de se conectar consigo mesmo. 

PAS: O Amarelo Prisma busca o contrário disso?

E: Eu tenho influência de um monte de coisa, então eu leio sobre música, tenho uma hortinha que cuido aqui e acho que é onde eu mais aprendo, com a horta e com as crianças. Não é da boca para fora, não. Minha filha mais velha, Estela, perguntou, no meio da quarentena: “Ô, pai, e quando for o covid-20” (ri)”. É a pergunta que os presidentes deviam estar fazendo. O tanto de porque e de camada que existe na resposta a essa pergunta é o que conduziria a gente pra um outro lugar enquanto sociedade. Mas infelizmente é uma pergunta que não está sendo feita. Acho que a gente precisa voltar pro começo. Lá na primeira mixtape a primeira música fala sobre isso: quando os caminhos se confundem é necessário voltar pro começo. Se você não lembra pra onde estava querendo ir, é importante que você volte pro começo e olhe tudo de novo. Acho que a gente precisa voltar pro começo. Existem lutas coletivas muito importantes, muito urgentes, e elas têm ganhado força e voz, sobretudo nas redes sociais. Mas a coletividade não anula o indivíduo. Muito pelo contrário. Essa ideia de que um ser humano some na multidão é uma ideia muito perigosa. Essa ideia é o que levou nós pras maiores catástrofes da humanidade. Quando os europeus chegam no continente africano, olham toda aquela negrada e falam que todo mundo é igual, e que ninguém ali tem alma. Pra eles aquilo ali era só peça de reposição. É muito perigoso isso. O Prisma parte exatamente dessa valorização não só do eu, mas do nós, mas partindo do eu. Porque aí eu vou trabalhar pensando em coisas muito individuais, ainda mais neste momento que a gente está atravessando. Saúde mental, questões que foram roubadas de nós. Coisas com as quais a gente aprendeu a não se preocupar. A gente foi doutrinado pra isso, pra não pensar nessas coisas, pra gente ir viajando numa espiral de loucura, cada dia mais. Então hoje eu penso quantas coisas me foram roubadas porque eu precisava fazer justiça ao estereótipo do que é ser um homem preto machão do rap. E o grande desperdício que foi tudo isso, de tempo, e o tempo não volta. Ainda bem que eu me conectei, me cerquei com pessoas que valorizam esse tipo de pensamento, e aí eu posso reivindicar minha sensibilidade através de um projeto como AmarElo, e são a doçura e a sensibilidade que vão conduzir a gente para dentro desse Brasil que a gente aprendeu a amar, o Brasil do Aldir Blanc, não o Brasil da Regina Duarte.

PAS: Você dividiu o podcast em quatro movimentos, e começa falando sobre a paz, que deve ser o mais difícil de encontrar agora…

E: (Ri.) Sim, mas vê que coisa doida. Partindo da filosofia do budismo, primeiro, antes de mais nada, a paz é um estado mental. Então a gente precisa organizar os nossos pensamentos. A gente precisa ser esse lugar dentro de nós antes de buscar esse lugar no lado de fora, e é nesse sentido. É importante que a gente aprenda a organizar nossos pensamentos para ver o mundo com clareza. Isso é o que tem regido nossas ações, nossas atitudes. É assim que eu tenho tentado ver o mundo também. Antes de tomar uma atitude impensada, eu reflito. Reflito e tento ver o mundo de uma outra maneira, pra ver se eu realmente tenho que agir de uma maneira tão dura. Isso me abre uma gama de possibilidades. Nesse sentido a gente fala da paz. Eu sempre fico com um questionamento, quando fico lendo esses livros de uns monges budistas. Sempre fico pensando como aquele livro seria se ele morasse no Complexo do Alemão. Mas aí eu também tenho que pensar que aquele cara como Thich Nhat Hanh, que é o cara que organiza esses quatro pilares num livro, também atravessou a guerra do Vietnam. Ele é vietnamita. Ele atravessou um contexto bastante extremo de violência. Não dá pra superficializar a perspectiva dele, ele é um exilado do Vietnam até hoje, inclusive. É bem interessante ver que esse pensamento surgiu num momento de extrema violência. E isso fala o que para nós hoje? A importância da serenidade. Por quê? Quando eu roubo a sua serenidade eu roubo a sua capacidade de se concentrar nas coisas que você ama. Isso é feito na nossa sociedade de um milhão de formas, através de seu pouco salário, da sua jornada de trabalho extremamente longa, do lugar que você mora que é longe demais do seu trabalho, as duas horas que você demora pra ir e voltar, quatro horas só no trânsito, através de todas as outras problemáticas de uma vida pessoal, seja com sua mulher, o desenvolvimento dos seus filhos, a preocupação com o lugar onde você mora. Tudo isso rouba a sua capacidade de sentar e pensar em como eu vou tomar a melhor atitude dentro de uma situação tão difícil. Se para quem vive em condições confortáveis isso já é um desafio desgraçado, imagina para quem está na beirada deitado no chão porque tem um monte de buraco de bala na parede já. É importante também pegar esse contexto. Eu falei do lance do Complexo do Alemão e dos monges budistas porque eu sempre faço essa conta. Mano, e se esses caras estivessem numa realidade como a nossa? Mas ele estava, de fato ele estava. É importante pensar nisso.

PAS: Pode falar dos quatro pilares?

E: Os quatro pilares são paz, clareza, compaixão e coragem. Quando a gente lança o AmarElo, a gente não se refere a ele como um álbum, mas como um experimento social. Por quê? Porque acho que essa é uma construção que começou antes do próprio álbum. A pluralidade desde a primeira mixtape, de assunto, da forma de situar aquilo, de tocar, a forma de se posicionar e se relacionar, ainda mais com os meios de comunicação, ampliou bastante o espectro do nosso país a respeito do que um jovem negro pode significar. E a gente colhe frutos positivos disso até hoje. Esses debates são muito mais populares hoje do que eles eram quando a gente chegou. A Laboratório Fantasma, através dos meus discos, foi um epicentro de coisas muito positivas, em muitos ambientes diferentes. Hoje a gente tem uma conversa gigante sobre empreendedorismo. Obviamente não só com a gente, outras pessoas também, Feira Preta, Adriana Barbosa com a movimentação incrível que ela faz. Tudo isso ajudou a criar um contexto, um espaço de reflexão muito bacana, num lugar onde a gente foi muito roubado. Essa paz foi roubada de nós. No momento que a gente alcançou essa paz e conseguiu ter uma visão um pouco mais límpida do que é viver neste país, a gente tem uma clareza. A paz mental ajuda a gente a organizar as ideias e a gente vai para o segundo pilar, que é a clareza. Quando a gente fala de paz, fala do eu interno, interior. É uma coisa de meditação. E eu vou falar, do fundo do meu coração, eu jurei para a minha vida inteira que meditação era uma coisa impossível. Eu fui o maior militante antimeditação dos meus últimos 30 anos. E aí, nos últimos anos, em momentos muito difíceis, eu tive que baixar minha orelha, que ficar calmo. Eu comecei a ficar com uma sensação ruim contínua. Voltei a ir no terreiro, tomei um passe ali, aquilo me ajudou. Mas aí também as entidades me falaram para eu ouvir mais o mundo, calma também. A gente faz essa reflexão pela ótica do budismo porque é bem interessante mostrar que tem um referencial… As pessoas esperam que a gente use sempre bases africanas para falar, porque nós somos os empoderados, não é verdade? Mas acho importante mostrar que a gente tem um campo muito múltiplo de exploração pra além da visão europeia.

A paz fala do eu, do você com você mesmo, quando você estiver na sua casa. É a gente pensar no Nelson Mandela na prisão. No meio de todo aquele inferno que estava vivendo, ele teve que encontrar um meio de refletir. E ele reflete, de uma forma saudável, pra sair dali não destruído, por mais que fosse uma situação extremamente difícil. Então a gente tem a questão da clareza, que é quando você olha o mundo de uma maneira mais límpida, e aí você consegue diferenciar as coisas. Como dizia Malcolm X, você diferencia um copo de água suja de um copo de água limpa. Fazendo essa diferenciação, você opta por um copo de água limpa. E aí, quando você tem essa capacidade de diferenciação das coisas, você alcança o terceiro estágio, que é a compaixão. Depois da paz e da clareza, a compaixão te dá uma espécie de superpoder, mano, porque ela faz eu olhar para você e me colocar no seu lugar. E aí é foda, porque não tem como a gente não pensar nisso olhando pro nosso ambiente e todos os vazios que existiram no nosso ambiente. Hoje, na cultura hip-hop e na música rap em especial, a gente tem uma série de artistas homossexuais. Por que eu não me lembro dos artistas dez ou 15 anos atrás? Eu converso, por exemplo, com o Tchelo, do Quebrada Queer, e ele me manda fotos dele no show. Mas no show ele não estava montado ainda, porque aquele ambiente não estava pronto pra ver ele montado ali. Ele estava passando por uma construção dele enquanto pessoa mesmo, de entender se aquela era a orientação, ainda mais um jovem preto homossexual num show de rap. Quando você alcança a capacidade da compaixão, que é esse poder de se colocar no lugar dos outros, também vem junto um ímpeto da coragem, que é o nosso quarto pilar, de você mudar essas coisas. Então, houve vários momentos da gente enquanto cultura que a gente corroborou com um tipo de discurso que contradiz nossos valores. A gente arranha de uma forma muito superficial o que significa ser um homem preto. O potencial de reflexão da música rap pra isso é bem maior, mas por causa da indústria – e a gente observa a música rap pelo prisma da indústria, e não pelo prisma filosófico – o que acontece? A gente não mergulha nessas questões. Eu tento, através de um projeto como o AmarElo, mergulhar nessas questões com profundidade e tomar de volta todas as coisas que roubaram de nós. Por que nós não podemos ser sensíveis? Por que nós temos que ser máquinas de sexo e de trabalho? Por que nós não podemos ser compreendidos como seres humanos plurais? Ninguém na história da humanidade viu duas pessoas brancas discordarem e virou para elas e perguntou quem era o verdadeiro branco e o falso branco. Só a nós é empurrado esse tipo de competição, que é uma forma de estreitar cada vez mais o seu entendimento a respeito de você mesmo. Porque no momento que te empurram pro lugar do falso negro, você tem que se defender e mostrar que você não é esse personagem. E aí você alimenta uma treta que não é sua. O racismo é uma treta que não é nossa. O racismo é uma problemática branca. É uma discussão que precisa estar nos lugares dos brancos. As pessoas brancas precisam olhar para os arredores dos lugares que elas circulam e se constranger com isso. A não ser que me convençam que uma pessoa de pele clara sofre de algum tipo de daltonismo. Porque a percepção das coisas é igual no nosso caso. Agora, existe uma questão cultural aí que faz com que as pessoas se protejam debaixo dessa estrutura. Quando você se protege embaixo dessa estrutura, de uma maneira cega, você corrobora com o assassinato de uma criança como o João Pedro. 

PAS: Caramba.

E: É esse tipo de construção. A gente tentou resumir muito esses quatro pilares, sabe? Para que a gente parta de um lugar muito simples, Pedro, de um lugar que qualquer um de nós pode acessar, que é dentro de si próprio, entendeu? A gente está num momento muito perigoso, mano. Muito perigoso. E em momento algum a calma e a serenidade são distrações ara que a gente não pense no perigo deste momento. Muito pelo contrário. A urgência é tamanha que a gente precisa estar inteiro. 

PAS: Você está falando da pandemia?

E: Não, a pandemia (ri)… É muito louco isso, né? O que é pior, chegar no fundo do poço ou continuar caindo? Essas são as opções que têm sido dadas para nós. As duas são desesperadoras. E olha só, o mundo inteiro atravessa uma pandemia, e de uma forma desesperadora luta pela sobrevivência. O Brasil é o único país do mundo onde o coronavírus está se transformando num detalhe por causa do tamanho da irresponsabilidade de quem está na condução da gerência. 

PAS: Está lutando a favor do coronavírus.

E: Não é? É o que eu penso, eu entendo que o governo vê no coronavírus um grande aliado. Essa é a única maneira de compreender a linha de raciocínio, porque não é lógico o que está sendo feito. 

PAS: No primeiro movimento, que é a paz, você elegeu falar muito de alimento, de alimentação. Passa a impressão de que a paz e a alimentação estão ligadas. Por quê?

E: Porque quando você fala de comida, Pedro, você fala de terra. Quando você fala de terra, você fala de casa. Você parte de coisas muito básicas. Todo mundo precisa de comida, de casa e de terra, sabe? E aí é importante que a gente faça uma pergunta pro mundo: todo mundo tem comida?, todas as pessoas têm casa? Então eu quis partir, sim, de um prato de comida. Porque a gente, conversando sobre comida, vai conversar sobre: e quem não tem comida? Tenho passado os últimos 70 dias – tenho uma lousinha ali que marco com as crianças, hoje (21 de maio) é o dia 70 da quarentena aqui, não é mais quarentena, é setentena já – eu penso muito nessa coisa da comida, a horta me trouxe isso. Por isso é importante trazer, por exemplo, alguém do MST (Movimento Sem Terra) pra falar sobre isso, sabe? São discussões, obviamente, de cunho político. Mas elas atravessam a política. Tudo isso é a respeito de uma outra perspectiva de sociedade, porque essa que a gente veio até aqui não funcionou. Não está funcionando, está funcionando pra um número muito restrito de pessoas. Então a gente precisa construir um outro modelo de sociedade, considerando coisas como essas que a gente colocou aí. O coronavírus, mano, no contexto que a gente está atravessando, está fazendo o quê? Está fazendo a gente ver o quão gritantes são os nossos abismos sociais, porque isto é o que vai matar, entendeu? A letalidade do vírus, de fato, é baixa. Mas a letalidade dos nossos abismos sociais é altíssima. Já era e agora vai ser mais ainda. 

PAS: No primeiro episódio, não só a pessoa do MST, mas um monte de gente é ouvida por você. Você está exercitando o lado jornalista?

E: (Ri.) É uma tentativa, na verdade eu gosto das conversas, sou apaixonado pelas conversas. E essa é uma característica do jornalismo que eu acho incrível. Por exemplo, quando eu olho para a mídia hegemônica, eu sinto muita falta disso. Sinto muita falta de uma conversa honesta sobre um assunto onde, mano, você pode discordar. Você pode discordar e, por exemplo, de uns tempos pra cá eu dei uma diminuída legal nas entrevistas, sabe? Por que, Pedro? Porque, mano, é foda eu ir conversar num veículo, mano, e o jornalista não está querendo me ouvir, está querendo me ensinar como eu tinha que pensar. 

PAS: Espero não ser um deles…

E: Não! Você não, você tá doido? Você é um dos caras que eu mais admiro nessa parada, fiquei feliz demais que a gente conseguiu conversar aqui, mano. 

PAS: Mas de fato, o não ouvir é uma praga do jornalismo…

E: Então, só que isso é perigoso, porque corrói o próprio jornalismo na essência, sacou? A gente, em vez de ouvir, silencia. E por ser um admirador da profissão do jornalismo é que eu me coloquei nessa função de ouvir, conversar (no podcast). Vamos trocar uma ideia, vamos falar com todo mundo, vamos pegar pessoas que tenham outras perspectivas, até porque tem uma questão muito interessante, né? Falando sobre o primeiro movimento em específico, olha que doido. As coisas, por exemplo, que a Bruna Crioula fala lá do Sul são coisas que a minha mãe falava. Ela é uma especialista em Pancs, plantas alimentícias não convencionais. A minha mãe já falava nisso, porque a gente era muito pobre, então tinha que pegar taboa, taioba na beira dos brejos pra fazer comida. Ela sabia disso aí, é um saber ancestral. 

PAS: Já era especialista em Pancs.

E: Porra, mano! Só que você entende que o desespero rouba a gente dessa capacidade de análise? Mas aí, esse desespero, essa maldição, não conseguiu parar o ímpeto da Bruna, que alcançou a universidade e levou esse desejo e esse saber lá pra dentro e potencializou isso, com todo o referencial que a universidade oferece. É legal por esses dois mundos em contato, a minha mãe com a Bruna. Infelizmente, não tem veículo que abre espaço pra essa discussão acontecer. E eu também não posso ficar esperando que o veículo A ou B me ligue pra fazer essa parada. Eu tenho a ideia, graças a Deus a gente tem a estrutura com o Laboratório Fantasma, vou fazer esses encontros acontecer embaixo do guarda-chuva do disco. Porque o disco chama a atenção das pessoas, os produtos que são gerados a partir do disco chamam a atenção das pessoas. Então eu quero agora oferecer isso. Quando você pega um disco como AmarElo, isso eu acho muito legal e a gente tem conversado muito sobre isso, você vê aquele tipo de música, aquele sample, parece que a gente está refletindo sobre o passado. Parece que a gente está entrando numa espiral de referências antigas. Mas o AmarElo é um disco sobre o futuro, Pedro. A gente está falando sobre um disco de outubro, que saiu pra rua em outubro de 2019. A gente está em maio de 2020, e cada uma daquelas músicas diz várias coisas sobre o momento que a gente está atravessando agora, todas alinhadas com esses quatro pilares do Prisma.

PAS: Já estavam os quatro pilares ali?

E: Sim. Se você for ver “A Cada Vento” (2009), da primeira mixtape, eu fiquei: caralho, a gente está alinhado mesmo. Porque estava ali, a gente dizia na “A Cada Vento”: “Clareza na ideia, pureza no coração, sentimento como guia, honestidade como religião”. Já estava organizado tudo em quatro pilares. Quando eu conheci esses livros do Thich Nhat Hanh, eu falei: caramba, mano, é muito próximo tudo! E passei a cruzar com muitas coisas. AmarElo pra mim é uma grande expansão de universo, mano. E aí eu vejo que esse universo está polvilhado em todos os outros discos. A sensibilidade, a luta pela sensibilidade está ali. Mas, assim como o nosso parceiro Tchelo não podia se montar pra ir num show de rap há dez anos, o Emicida também não podia cantar o AmarElo há dez anos, porque a atmosfera não tinha a capacidade de compreender um cara preto de quebrada falando sobre sensibilidade. Então a gente teve que trabalhar muito pra expandir esse espectro. E aí hoje eu acredito que a gente pode, não só a gente pode como a gente deve, e não só a gente deve como essa luta é urgente. 

PAS: É muito interessante pensar que é um cara com o codinome Emicida que está fazendo essa trajetória rumo à sensibilidade.

E: Não, total. Agora eu vou te falar a coisa dessas associações malucas, de viagens pelo mundo e tudo mais, olha o que acontece. Emicida… Lembra quando os Racionais MC’s foram no programa Ensaio?

PAS: Eu estava lá.

E: Ah, que foda, já morri de inveja (ri).

PAS: Estava disfarçado, foi o saudoso Fernando Faro que me permitiu entrar.

E: Poxa, mano. Lembra que o Mano Brown, numa das falas, disse que se ele fosse batizar o Racionais hoje o Racionais se chamaria Emocionais

PAS: Não lembrava, mas sensacional.

E: Mano, isso me marcou profundamente, Pedro. Isso é muito profundo. O estereótipo racista faz as pessoas observar uma banda como Racionais e entender que aquilo ali é a violência e a ferida em si. Isso é de uma pobreza de espírito sem tamanho. A discografia dos Racionais MC’s é composta em cima de músicas românticas que embalaram as transadas dos nossos pais que trouxeram nós pro mundo.

PAS: Você nasceu assim?

E: Com certeza absoluta, minha mãe casou com o DJ (risos)! Obrigado, Marvin Gaye (ri)! Então, quando o Brown fala sobre isso e você entra dentro das histórias contadas pelo Racionais, você entende essa sensibilidade. Você entende como também o conservadorismo da plateia vai direcionando os artistas e limitando o espectro, entendeu? Então, por exemplo, quando Brown lança o disco Boogie Naipe (2016), uma parte da audiência do rap acha que única função da existência do Brown é fazer as coisas sangrar, sabe? Isso é um equívoco desgraçado, é um triunfo do sistema. E aí a gente volta pro meu nome: Emicida, o assassino de MCs. Puta que pariu, agora eu sou o assassino e estou falando de sensibilidade, Pedro?, tá ligado? Olha que loucura.

PAS: Mas também que loucura que você tenha adotado um codinome violento no início. 

E: Sim!

PAS: Era o que você sabia na época…

E: É, mas aquele contexto de afirmação ali é muito louco, se você pesquisa a origem das batalhas de MCs, ela tem um monte de paradoxo. Sabe de onde vem esse negócio?

PAS: Do repente?

E: Pedro do céu, agora sua cabeça vai explodir, mano. Tem um estudo dos norte-americanos sobre isso, né? Tem uma coisa chamada de the dozens em ingês, as dúzias. Quando um escravizado, um sequestrado na África era deficiente, não tinha uma perna, um dente, um olho, um braço, esses que eram peças (faz gesto de aspas) deficientes eram vendidos às dúzias. Então eles eram amontoados nos porões às dúzias. E a travessia era feita com aquelas pessoas. A África sempre foi muito rica na questão da oralidade. E eles têm milhares e milhares de jogos de palavras. Dentre esses jogos de palavras, um eles chamam de the dozens, que era o quê? Esses caras e mulheres que tinham algum tipo de deficiência e na visão dos escravistas eram peças imperfeitas que não serviam pro trabalho principal, mas serviam pra outra coisa, eles eram vendidos em bando e tinham um jogo onde eles se xingavam zoando um com a deficiência do outro. E era frequente a metáfora da mãe. Então um xingava a mãe do outro. Tem até aquele filme do Eddie Murphy, O Professor Aloprado (1996), onde tem um humorista no palco que fica fazendo um monte de piadas sobre a mãe do cara. Isso é uma referência direta a essa cultura dos dozens, tá ligado, mano? Isso vai evoluindo com o passar dos anos. A coisa da mãe, na verdade, não está um falando da mãe do outro. A mãe era a metáfora dos escravizados pra se referir ao senhor de escravos. Então eles passavam o dia se xingando, mas na verdade estavam xingando aquele cara. E as batalhas de MCs são o fruto direto dessa tradição, tá ligado? Por isso que eu falo que tem um monte de coisa, um monte de camada nas batalhas de MC que as pessoas desconhecem, entendeu? Eu vejo muita gente aí que quer falar “não, mas a linguagem”, “mas isso e aquilo”. Não, tem muita coisa aí, tem muita pesquisa que tem que ser feita a respeito disso. Ainda mais na experiência do Brasil, onde a gente tem um fruto direto aqui, um fruto ancestral e contemporâneo ao mesmo tempo, que é o repente, sacou?

Mas aí vamos entrar aqui no Emicida, o Assassino de MCs. Naquele contexto de 2003, 2004, isso fazia um sentido gigantesco, faz até hoje. Pro contexto da batalha serve, só que agora minhas batalhas são outras, mano. Agora, a minha pesquisa se amplifica de uma maneira tão louca que eu fui descobrir, por exemplo, que em iorubá “emi”, do mesmo jeito que a gente escreve, ê, eme, i, pode ser traduzido como “sopro da vida”. E “cida”, em hindu, isso eu conheci porque conheci os caras da ayurveda e eles me falaram: “Você sabia que ‘cida’ tem uma tradução hindu?”. Eles me falaram que “cida” significa “um ser que é realizado”. Emicida, agora, eu acho foda. Casa perfeitamente, Pedro, é um sopro da vida, é o que eu eu quero ser, um sopro de vida. Porque a morte bate tantas vezes na nossa porta, o desespero bate tantas vezes na nossa porta, quantas vezes a gente perde o chão por não ter um lugar, alguém pra desabafar, meu mano? Se eu puder ter a honra de ser um sopro de vida, da mesma maneira que o Moacir Santos foi, que o Wilson Simonal foi, da maneira dele, que o Jair Rodrigues foi… Esses caras atravessaram períodos muito difíceis com um sorriso no rosto, e o sorriso desses caras foi revolucionário. Tinha muita coisa dentro daquele sorriso, e muita coisa dolorida.

Então eu quero, de novo devolver o direito de sonhar pras pessoas. Porque o sonho é o nosso ponto de partida, o nosso combustível. Nós estamos parando de sonhar, só estamos lamentando. Mas isso não tem nada a ver, é importante ressaltar, com essa lógica de “ah, morreram tantos, mas vamos falar de quem está vivendo”. Não, não. É o extremo oposto dessa parada, entendeu? A gente está consciente da tragédia em que a gente está imerso. Mas pra baixo todo santo ajuda. A gente precisa sonhar, sim, porque a gente só vai conseguir construir se a gente fizer uma coalizão em torno de um sim. E desde 2013 a gente tem se organizado em torno de nãos. Não isso, não aquilo, não aquilo outro, tá ligado? Isso foi uma parada também que me levou ir me afastando de um monte de coisa. Porque todo mundo precisa ser perfeito.

PAS: Está falando daquele negócio “não vai ter Copa”, “não vai ter Olimpíada”, “não vai ter golpe”?

E: Não vai ter nada. O crescimento do culto de antipolítica, e o que acontece quando todo mundo nega a política? 

PAS: O que está acontecendo com a gente.

E: É o que está acontecendo agora, sacou? Então é isso, o Brasil precisa parar de… Mano, tinha que entregar um exemplar de O Flautista de Hamelin em todas as casas. Esse negócio de ficar acreditando no salvador da pátria, no dar ideia firmeza, “esse cara está dizendo tudo que eu gostaria de dizer”. Não é tão simples assim. Tem muitas camadas, ainda mais no universo da política. Por isso eu dei uma segurada também, porque eu vi que muitas bandeiras importantes iam começar a ser esvaziadas. Se a gente não tomar cuidado, racismo é uma bandeira que vai ser esvaziada, uma palavra que vai ser esvaziada. Empoderamento é uma palavra que já é esvaziada. É uma palavra completamente vazia hoje. É uma palavra da publicidade.

PAS: Lugar de fala é a mais usada agora.

E: É, é popular lugar de fala, mas acho que ainda não como empoderamento. Empoderamento pra mim é um termo que já não diz nada, entendeu? Eu vivi uma situação muito interessante. Fui uma vez numa reunião com uns executivos chiques, pá, de marca, não sei o quê. E aí a gente chegou um pouco antes, os caras: “Ah, vamos almoçar?”. Vamos almoçar. Meu parceiro, o almoço virou uma desgraceira, tá ligado? Porque os caras começaram a falar uns bagulhos, “não, porque esse bagulho de racismo não existe”, tipo assim, os caras eram tudo uns caras brancos, héteros, e começaram a discutir se era pior o racismo ou a homofobia. E os caras não sabiam porra nenhuma dos dois baratos, tá ligado? E eu fiquei ali tretando, tretando, tretando… Beleza, né, mano? Como seres civilizados vamos lá pra nossa reunião agora. Subimos pra nossa reunião, levantou o bonitão que estava o mais radical falando que racismo não existia e falou: “Não, porque a gente está aqui pra empoderar as pessoas”. Sabe? É isso, mano? A palavra é vazia. Ela virou uma parada vazia, precisa ser convertida em atitude, entendeu?

PAS: Deve ser especialmente difícil enfrentar esses lugares em que a palavra está esvaziada…

E: Sobretudo isso, entendeu? Se a gente tiver a intenção de fazer isso ter o sentido que precisa ter, a gente precisa bater de frente com esse tipo de coisa. 

PAS: É o pilar da coragem?

E: Cá estamos nós (ri).

PAS: Achei muito bacana nesse primeiro podcast que a certa altura você fala que quando morava num apartamento apertado chegou a ter mania de perseguição. E fala também de crise de ansiedade. Isso a gente sabe que são coisas que geral está sentindo, principalmente num momento como esse. Mas não sei se você usou pra aproximar as pessoas ou se estava falando de experiências suas.

E: Não, são experiências minhas. Eu vivi isso aí. É muito louco, porque eu estava vivendo coisas bacanas do ponto de vista profissional. Estava ascendendo enquanto um artista e viajando pelo mundo, mas com uma tristeza gigante. Uma tristeza gigante. Aí começaram a rolar uns outros problemas, pessoais. Começaram a se sobrepor. E nessa sobreposição de problemas eu comecei a ficar com uma coisa que… Eu não sei exatamente se aquilo era uma crise de ansiedade porque não fui diagnosticado. Então também acho que pode ser meio irresponsável dizer. Sempre falo que é tipo uma crise de ansiedade porque vejo que é como as pessoas descrevem uma crise de ansiedade. Mas o fato é que fiquei com uma mania de perseguição desgraçada, fechei todas as janelas da minha casa, ficava no escuro o dia inteiro olhando porque achava que ia ter alguém que estava vindo me matar. 

PAS: Isso foi quando você já estava bastante famoso?

E: Cara, isso foi agora, faz uns cinco ou seis anos. 

PAS: Deve ter a ver com a fama diretamente, porque você está cercado de observadores por todos os lados…

E: Sim, mano, e acho que tem uma coisa das expectativas que as várias pessoas, vários tipos de pessoas que cercam a gente, têm. O artista de rap é muito cobrado. O artista preto de rap é muito cobrado. O artista preto de rap em ascensão é muito cobrado. A verdade também é que o mundo não está pronto, o Brasil ainda mais, pra ver uma pessoa preta livre, não, mano. Tá ligado, Pedro? Cada vez que alguém vê alguém como nós vem com um fardo de coisa, “então agora você carrega aí, você tem que carregar isso aqui”. Mano, estou tentando ser um ser humano. Linn da Quebrada fala isso. Ela fala uma coisa que acho fascinante, genial, ela diz que a gente parte de um lugar de sub-humanidade, a gente sonha com a humanidade, mas a gente é colocado numa condição sub-humana. O fazer artístico dá pra gente um lugar de super-humano, e a gente passa batido pela humanidade. A gente só queria ir no mercado fazer compra. Então eu dou um salto da sub-humanidade para a super-humanidade e esse buraco do que é simplesmente a humanidade continua existindo em nós. E a gente, mano, pra tapar esse buraco, os atalhos são vários, tá ligado? Aí pode ser droga, bebida, compra, consumo doente, a superexposição… As pessoas se viciam nessas coisas, entendeu? O que acho que talvez seja meu superpoder é que acho que sempre fui uma pessoa muito pé no chão. Porque a experiência de ser uma pessoa muito pobre na maior parte da vida me ensinou muito. Então, no momento em que tive todos esses problemas psicológicos aí, eu procurei um terreiro, mano. Eu não tinha um conhecimento a respeito de nada de saúde mental, né?, vou procurar um psicólogo… E também estava ainda muito preso naquela ideia de, pô, sou um negrão, né, mano?, não pode se abrir, né, mano?, negrão tem que ser o pirocudo mau, né, tio? Essa era a minha prisão, então não procurei uma psicóloga. Deveria, tá ligado?, ter feito uma terapia, alguma coisa do tipo. Eu considero a música uma forma de terapia. Mas acho que lidar com as minhas filhas e cuidar das minhas plantas também tem sido uma puta forma de terapia. A música pra mim é um negócio que salva a minha vida sempre.

PAS: Nesta era das lives que a gente está vivendo, muito louca e nova, as marcas ficaram muito mais presentes. Elas estão muito mais visíveis. Cada live de cada artista tem seus patrocinadores com logotipo. Esse projeto agora parece mais o outro esquema, vi lá no final do vídeo que fala da Ambev, mas ela não está onipresente no material. Como essas coisas estão se desenvolvendo?

E: Você diz no Prisma?

PAS: De maneira geral, na live você fez propaganda de não lembro qual cerveja.

E: Ah, sim, tinha um apoio da Budweiser, sim. Eu acho que a gente está tentando encontrar formas de subsistir. A gente já tinha um trabalho com a Bud, de uma outra construção. Tinha outros projetos previstos para este ano, uma parada bem bacana que espero que a gente consiga construir em breve, porque é uma coisa que ia construir uma estrutura profissional bem legal em torno do rap. Mas isso foi pausado pela questão do covid-19. Mas eu acho que essa é uma grande experiência, está todo mundo fazendo experiência pra entender como capitaliza isso neste momento. Imagina que nossos times são grandes, e estão todos parados. Todos parados. Tenho visto aqui, quantos amigos meus mandando mensagem vendendo os equipamentos que ama. Eu passei os últimos dez anos da minha vida vendo os caras tocar com os instrumentos que são apaixonados, têm um milhão de história de amor a respeito de uma guitarra, de um piano, e estão pondo tudo isso aí à venda porque está todo mundo atravessando um momento muito difícil e precisa por comida na mesa. Todo mundo tem filho, entendeu? Se há uma possibilidade de trazer uma marca pra dentro disso aí, que ajude a financiar essa parada, eu acho que isso é possível. Mas é tudo muito novo, né, Pedro? Não tem uma forma.

PAS: Eu só achei que as marcas estão muito sedentas, aparecendo demais.

E: Ah, porque é uma forma de visibilidade, de visibilidade instantânea, participar de um momento de interação. Vamos lá, tem uma professora, uma mulher incrível do Rio de Janeiro, acho que ela é filósofa, chama Aza Njeri, ela me falou um negócio muito doido. Estava falando com ela sobre a questão do corona especificamente e ela disse assim: neste momento em que a gente está, o capitalismo suspendeu a única coisa que ele não alcançava, que é as nossas relações sociais. Então agora eu amo você, mas pra falar com você eu preciso de um filtro de alguma empresa de tecnologia. Duas, no mínimo, que é que faz o computador e a que faz o programa em que a gente vai conversar. Então nossa comunicação também começa a se restringir neste momento. A live vira uma pracinha, um ponto de encontro, pô, o Emicida está lá no tal aplicativo, vamos lá ver ele. As pessoas estão se organizando. No começo eu achei que a relação era um pouco menor, mas eu vi agora os meus parceiros, eles montam uma churrasqueirinha aqui do lado, liga a live, fica assistindo o barato e trocando ideia mesmo. Eles comentam, e tudo mais. Então é um espaço público digital que está se intensificando. Eu estou de verdade querendo entender, tá ligado? Querendo entender pra onde vai. Porque depois que passar, quando passar essa situação, as lives vão continuar existindo. Vai dar um saltão, vai começar a ter show digital pago, isso vai ser uma realidade já. 

PAS: Você tem gostado de fazer live?

E: Mais ou menos, mano, mais ou menos. Tenho, me divirto, mas não tem comparação com você fazer um show de verdade, entendeu? Pra mim é uma brincadeira, é sempre uma brincadeira. E é meio maluco, porque você acaba uma puta performance e está olhando pra uma câmera. Essa resposta é foda. Mas depois você vê as reações das pessoas pela internet, aí começa a ter noção de quanto aquilo alcançou o lugar emocional que você almejava. Mas obviamente prefiro mil vezes fazer um show de verdade.

PAS: E tem o dado de que vocês, artistas, são os animadores. Animar as outras pessoas num momento tão difícil não deve ser fácil pra vocês.

E: Não, porque os artistas também têm os dias ruins, e a gente está atravessando um momento superdifícil, né? Os últimos anos têm uma característica muito triste: tem um ataque gigantesco à classe artística, um ataque cruel, canalha, covarde. Extremamente covarde. O que foi feito inclusive com o aval de outros artistas, sabe? Uma perseguição a muitos de nós. E aí a gente chega a este contexto de estar extremamente fragilizado e a gente é o primeiro mercado que é suspenso. No momento em que a gente já estava no meio do fogo cruzado, lutando pra existir por um prato de comida, muitos de nós, ainda tem essa situação que suspende o nosso único ganha-pão. E aí a gente ainda vai ser o último mercado a se restabelecer. É uma situação desesperadora. Mas aí, quem não é visto não é lembrado, e as pessoas se colocam numa situação de “eu preciso aparecer de alguma maneira”, e as lives aparecem pra suprir isso. A gente precisa estudar como capitalizar em cima disso, pra que os artistas não se tornem simplesmente animadores, marcas ganhem o que gostariam de ganhar em termos de atenção, e os artistas continuem passando necessidade e morrendo de fome. Isso é urgente, é um fato inquestionável. Por isso eu demorei pra fazer também, porque eu queria entender uma forma de financiar isso aí. Porque fazer por fazer é possível, mas acho que também tem um exemplo e uma forma de dizer… A gente fez isso ao longo da vida inteira, né, mano? Se as pessoas querem se associar a nós, elas precisam financiar isso aí pra que a gente financie uma estrutura de muitas pessoas que sonham e fazem isso acontecer todos os dias. É isso que a gente está fazendo neste momento também. 

PAS: O vídeo que acompanha o Prisma é todo fundado nas cores da bandeira brasileira. Ficou meio perigoso usar essas cores atualmente, não? Qual era a sua ideia?

E: Na verdade aquelas cores são as cores do Brasil, né? Quando a gente começa a fazer a pesquisa do AmarElo, tem um debate, vamos por a bandeira?, não vamos por a bandeira? Mano, a bandeira que os pretos tinham que por era a bandeira preta, da pirataria, que é a bandeira do não-lugar, não pertenço a país nenhum, porque meus antepassados foram sequestrados, fui largado aqui sem assistência nenhuma. Agora, durante as pesquisas do material visual do AmarElo, a gente chegou numa conclusão muito interessante: as cores da bandeira estavam em muitas das coisas que a gente ama. A gente vê no verde nossas florestas, no amarelo a luz do sol, no azul as caixas d’água da nossa quebrada. E tem outras coisas, tem um marrom meio vermelho ali, aquilo também lembra os tijolos do lugar onde a gente cresceu. Então não é necessariamente reivindicando essa bandeira nos moldes que essa bandeira é apresentada na maior parte das vezes. Também não é querer ressignificar os signos dos bolsonaristas, não, que sequestraram todo o significado da bandeira. Não tem a ver com isso. Essa reflexão a respeito das cores é porque AmarElo fala muito também sobre um outro possível, uma outra recriação da bandeira. A gente brincou muito com isso, recriar a bandeira partindo dessas cores porque elas estão presentes na nossa realidade.

Emicida
Emicida em foto de divulgação do álbum AmarElo – Foto Julia Rodrigues

PAS: Emicida, no meio tempo desde outubro, você lançou uma outra obra, que é o livro…

E: Sim, senhor.

PAS: O primeiro livro adulto, não é? 

E: Na verdade, Pedro, eu tenho que tomar vergonha na minha cara e escrever um livro inteiro, né (ri)?

PAS: Eu ia citar isso, porque ele é um livro coletivo, na verdade não é você só. Deu voz a uma pluralidade muito grande de pessoas, e achei legal que algumas delas vão falar sobre a faixa da mixtape, mas falam mais sobre elas próprias que sobre a música ou sobre você.

"Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe...", de Emicida

E: É totalmente coletivo, e tem essa intenção. Por quê? Qual a intenção desse livro? Mostrar que essa mixtape foi um epicentro de muitas coisas. Muitas coisas estavam acontecendo desde o lançamento dessa mixtape e outras coisas incríveis aconteceram. E essas pessoas são todas pessoas que tinham alguma conexão com ela, em algum momento da vida. Por exemplo, o Lula. O Lula era o presidente do Brasil, isso é uma coisa muito grandiosa, você poder ter o presidente do Brasil escrevendo sobre o marco que foi uma mixtape de rap, a mais popular da história do Brasil. E aí você tem o presidente daquele momento traçando um paralelo, e em um momento muito difícil também, porque ele estava num momento muito difícil também, ele escreveu aquilo de Curitiba, no meio de um fogo cruzado de um monte de coisa também. Mas trazer aí também algumas pessoas que são mais próximas, outras que são um pouco mais distantes, mas todas refletindo sobre a amplitude desse universo. É uma parada coletiva. Agora estou com vontade de fazer uma outra parada, eu mesmo. Um amigo meu que incusive, putz, foi demitido agora do Museu Afro, teve uma demissão vergonhosa de 23 funcionários. Já é uma instituição que está sendo atacada, as conquistas do povo preto têm sido atacadas incansavelmente por um monte de canalha, e a gente ainda perde 23 pessoas incríveis, 23 pessoas incríveis, Pedro. A capacidade dessas pessoas de apresentar todo o universo do Museu Afro pra todas as pessoas que vão lá, criar a atmosfera pra que isso seja possível, porra, é encantador, é inspirador demais. Me deu uma tristeza gigante. E eu estava falando com um dos amigos que foi demitido nessa leva aí, e ele me provocou e falou isto: que eu vivo enchendo o saco de todo mundo pra escrever livro, menos eu. Ele falou: “Você mesmo tem que fazer um livro, um livro que você sente e escreva. Você enganou todo mundo, falou que ia lançar um livro, mas chamou umas 30 pessoas pra escrever o livro no seu lugar” (ri). 

PAS: Pelo que estou vendo você tem uma vontadezinha…

E: Tenho, tenho. Estou até começando a organizar isso. Vai vir. Vai vir agora. Vou ver, se conseguir usar a quarentena pra isso também… Não estou me forçando a nada de criação, não. Uma coisa que estou me esforçando na disciplina é o aprendizado. Tenho um piano aqui, estou estudando o piano. Estou lendo um pouco de novo. Nos primeiros dias não consegui ler, não. Fiquei um mês, sério, fiquei um mês avoado, Pedro. Eu parava e ficava sentado olhando pro nada. Começava a fazer uma coisa e não terminava. Porque é um baque muito grande, né?, pra gente enquanto artista, pessoa, empresário. Imagina, tudo foi suspenso. Eu tenho um monte de funcionário lá na Lab, como é que eu vou pagar isso aí pra rapaziada toda? A gente está correndo aqui, se virando, está conseguindo, fé em Deus que a gente vai conseguir segurar tudo até o final, vai rolar, Oxalá é quem guia, como diria Luedji Luna. Vai rolar. Mas eu fiquei muito avoado, mano. E comecei aos pouquinhos, lendo um livro, voltei a estudar umas coisas brincando. Tenho escrito algumas coisas de novo. Voltei a desenhar também. Está começando a rolar. Estou exercitando a criatividade, e isso está me fazendo me conectar com a normalidade e não surtar.

PAS: A Laboratório Fantasma não demitiu ninguém?

E: Não. Se Oxalá permitir nem vai, a gente vai conseguir segurar a responsa com nosso pessoal. A gente tem um time que já é extremamente enxuto, né, mano? Esse time a gente já precisa fazer um malabares ali, não tem como tirar uma pessoa, vai criar um buraco. Graças a Deus as pessoas têm uma compreensão grande disso também, está todo mundo super-envolvido nos projetos da empresa pra ajudar tudo a ter o melhor resultado pra gente conseguir atravessar esta fase junto. Sou muito grato pelo time que a gente tem lá também, viu, meu mano?

PAS: Emicida, desde que saiu o disco morro de vontade de conversar com você sobre a faixa “Cananeia, Iguape e Ilha Comprida”, por causa da conversa com a sua filha no começo. É muito sensacional, e muito importante de estar lá. Você já falou sobre isso, é a questão do masculino, da sensibilidade, e lá você está tirando um sarro desse fato de que um rapper tem de ser mau.

E: Sim, imagina que a gente veio lá do “Triunfo” (2008), sabe, mano? Pega lá “Triunfo”, “todo maloqueiro tem em si motivação pra ser Adolf Hitler ou Gandhi“, essas metáforas, essas linhas de efeito mais pesadas. E aí agora, depois de dez anos, a gente consegue criar uma atmosfera onde isso pode ser uma piada, a obrigação de ser mau. A obrigação do negrão de quebrada. Tudo isso aí pode ser uma grande piada. Eu gosto demais dessa música, Pedro, porque acho que ela é a felicidade sem culpa, sacou? E é uma experiência que a gente aprendeu a ver como menor porque a gente não consegue ver a revolução que existe num sorriso. Estar vivo pra nós é foda, entendeu? Olha o peso da ausência de um sorriso. O que aconteceu com o menino João Pedro é isso aí. A gente nunca mais vai poder ver o sorriso dele. Então a gente precisa valorizar cada um dos sorrisos que a gente conseguir criar. “Cananeia, Iguape e Ilha Comprida” é isso aí, mano. 

PAS: E no caso ali você está conversando com a sua filha, dizendo que o rapper tem de ser mau, e ela começa não a dar um sorriso, mas a gargalhar, né?

E: É, porque aquilo não faz sentido. É como todas as nossas conversas, a gente vai conversar, Pedro, sobre questões que agora se chamam também de questões identitárias. E a gente vai conversar, por exemplo, sobre o é que é ser um homossexual. Mas meu mano, isso é ser muito amplo. Depois que a gente estipular todos esses quadradinhos onde uma pessoa homossexual pode existir, vai aparecer uma terceira pessoa que vai ser uma coisa fora daquilo ali, e ela não é uma pessoa falsa. Não é um falso homossexual, é só uma pessoa diferente. Assim como pra ser preto é a mesma coisa. Assim como pra ser um cantor de rap é a mesma coisa. Essa obrigação é uma expectativa da indústria em cima do que se criou em torno do que significa ser um rapper. Por isso que eu falo que tem que haver uma divisão entre a música rap enquanto indústria e o hip-hop enquanto uma filosofia. É completamente diferente. Quem pode rir disso aí é o hip-hop enquanto filosofia. Porque ele é um produtor de cultura, um retratista de um modo de vida. E aí, o paradoxo é: o discurso, esse nosso discurso tentando colocar as pessoas em caixinhas, o rapper precisa ser desta maneira, e a risada da Teresa é a realidade, a realidade que olha praquilo e diz: cara, daqui a pouco vocês vão virar a esquina e vão encontrar uma pessoa completamente diferente, e ela não vai ser uma pessoa falsa, ela vai ser uma pessoa.

PAS: Eu sei que você temia ser zoado pelos manos, eles te zoaram por cantar com a Pabllo Vittar e com a Majur?

E: Mano, eu acho que tudo chegou com uma força tão grande que até as pessoas que… Deve ter tido um ou outro comentário disso na internet, mas pessoalmente graças a Deus não. E olha que incrível isso, o lugar onde a gente chegou. Porque eu lembro de artista de rap falar abertamente com discurso antigay, sacou? Por isso que eu sempre apelo para isto: estamos, sim, no meio de uma tragédia, mas não podemos perder a capacidade de ver os raios de sol que se têm. Cantar com a Pabllo e com a Majur e essa música ganhar a força que ganhou é um grande raio de sol, Pedro. O rap atravessou ela também, ela saiu atravessando tudo que tinha que atravessar, e pra mim isso é uma conquista. Queria fazer isso há maior tempão, conseguimos agora, criamos o contexto pra isso agora. E que isso se intensifique cada vez mais, porque tem muita gente foda. 

PAS: Num vídeo recente do youtuber Felipe Neto chamou às falas todo mundo, os artistas, os influenciadores. Depois dele se vê Anitta começando a falar sobre política. Vejo um movimento nesse território, queria saber como o vídeo pegou pra você.

E: Eu não vi esse vídeo, Pedro. Eu sou outro Brasil, mano. Com todo respeito, não que eu seja contra ou a favor. Mas eu não sou influenciado por esse tipo de coisa, entendeu? A gente tem uma construção muito séria, muito longe. Acho importante que as pessoas debatam sobre a importância das suas posições, sabe? Obviamente olho com bons olhos o fato de o Felipe Neto ter uma postura diferente agora em vários assuntos com os quais ele tinha corroborado com o outro lado antes. É claro que isso é fundamental, é urgente neste momento, então acho que é louvável e de se aplaudir. Mas daí a elencar esse tipo de personagem como uma bússola pra qualquer atitude deste campo que a gente vive, aí eu acho que a gente volta na história do Flautista de Hamelin, sacou, meu mano? Se pras pessoas que estavam até então aéreas e desconectadas disso, isso não era uma urgência e agora está passando a ser, ok, bacana. Mas eu faço parte do grupo de pessoas que estão falando desses perigos desde que chegou aqui. Porque nada disso é brincadeira, e é a gente que enterra os João Pedro.

PAS: Falei porque os artistas do rap são especialmente cobrados de ter posicionamento político…

E: Sim, e quando eles fazem isso pessoas com esse outro perfil chamam a gente de comunista superficialmente. 

PAS: Quer dizer, você está entre dois fogos e qualquer opção que tomar vai perder adeptos de um lado?

E: É, mas, mano, já foi o tempo de perder adeptos, né? Agora, graças a Deus, não preciso provar nada pra ninguém. Eu sei o que eu sou, sei a dimensão que tenho, sei o tamanho da minha construção, sei a influência que tenho e acho que a gente dá passos pequenos e sólidos. Se a gente volta na história do Brasil, a gente pensa por exemplo: quem era o grande vendedor de discos na época da tropicália? Era o Caetano Veloso? Não. Era o Gilberto Gil? Não. As pessoas criaram uma ideia distorcida de que a música de protesto sempre vendeu milhões no Brasil, isso é romântico e não tem fundamento. Essa música que é do cronista da realidade, essa experiência do Belchior, esse tipo de composição sempre foi o lado B do que a indústria considera vendável. A gente tem essa construção sólida, com esse tipo de ambição. Nem ambição, não é ser o cara que vendeu mais disco, a gente usou um discurso parecido com esse quando ele era interessante mercadologicamente falando porque não tinha uns caras pretos ali. Ah, então Emicida vendeu 10 mil cópias, aquilo foi importante. A gente bateu um milhão disso, sete milhões daquilo. Naquele momento aquilo foi importante. Hoje, não. Hoje tem uma conquista bonita, artística, sólida, embasada em toda intelectualidade e produção cultural deste Brasil que a gente ama. Eu não preciso responder a esse tipo de ímpeto, de “os artistas têm que se posicionar”. Sério?, você está querendo ensinar pra alguém que nada com os tubarões? Alguém que nada numa piscina de bolinhas vai querer dar uma palestra pra alguém que nada com os tubarões? A gente está nadando com os tubarões, mano, desde que nasceu. Então, não, esse tipo de chamada nem me interessa. Eu torço, torço e quero que dê consequências positivas. Acho muito importante a pessoa se posicionar. Mas essa questão pra mim sempre foi óbvia porque eu venho de um outro lugar.

PAS: É legal que ele foi adiante, não cobrou só dos rappers. Cobrou de uma maneira geral de todos os artistas, talvez de todos os brasileiros, aquela máxima de que quem se cala para o fascismo também é fascista.

E: É, mano. Se ele tem uma influência e pode utilizar esse barato a favor duma construção de um país melhor, eu acho que isso é louvável, entendeu? Mas acho que também tem uma coisa muito delicada nisso. A gente não chegou até aqui à toa. A gente chegou aqui por descuido. E ele foi bastante descuidado, durante muito tempo, pra usar a melhor das palavras. Eu tenho uma memória muito triste dele atacando a (atriz) Lupita Nyong’o quando ela ganhou o prêmio de mulher mais bonita do mundo. O que quer dizer, que eu odeio o cara? Não. Não odeio o cara. Mas esse tipo de pensamento, tá ligado?, atacar uma personagem como aquela, que estava dando o direito de sonhar para outras mulheres pretas? Ela ajuda, ajudou a embasar uma linha de raciocínio que justificou muito racismo por aí e fodeu a rotina e a cabeça de muita gente. Sabe-se lá quantas consequências negativas esse tipo de postura teve no planeta. Então é por isso que eu aplaudo, mano, pô, que do caralho que o mano subiu um degrau e consegue ver o mundo de uma maneira mais ampla. Daí a ser uma bússola pro Emicida, aí eu acho que é um exagero e volto pro Flautista de Hamelin: cuidado.

PAS: Do lugar de Emicida, o que você diria? Como é que a gente, Brasil, vai fazer pra escapar dessa enrascada em que a gente está metido?

E: Luiz Carlos da Vila, Pedro: Vamos levantar a bandeira da fé/ não esmoreça e fique de pé (ri), entendeu?, porque nós temos o direito/ senão um dia por qualquer pretexto nos botam cabresto e nos dão ração (Emicida se refere ao samba “Bandeira da Fé”, de 1983, composto por Martinho da Vila Zé Katimba). O samba já deu a bússola pra nós. O samba já deu o norte pra nós. Se levantar e resistir, entendeu? Ser pautado por afeto e construção, não por destruição. Tudo que a gente está vivendo no país hoje é a conquista do raciocínio destrutivo. A gente precisa orbitar em torno da compreensão. Da escola, do prato de comida, da terra, da população indígena, dos quilombolas, da população de rua, dos mais vulneráveis. É isso, são essas pessoas que têm que estar nas nossas prioridades. É isso, mano.

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