Por que Elis Regina gostava de gravar canções do jovem compositor pop Guilherme Arantes?

Por que o jovem virtuoso Marcelo Jeneci se parece tanto musicalmente com Guilherme Arantes?

O que poderia haver de comum entre o paulista Guilherme Arantes e o paulista Paulo Vanzolini? Haveria algo em comum entre eles?

Por que Mano Brown, dos Racionais MC’s, e outros rappers gostam tanto de Guilherme Arantes?

Por que Guilherme Arantes retribui a admiração rapper e afirma, meio brincando e meio a sério, que Mano Brown é maior poeta que Manuel Bandeira?

Guilherme ArantesComo um cara durão como Mano Brown pode se identificar com a música de um rapaz que frequentava trilhas sonoras de novelas da Globo, cantava sobre chuvas, neblinas, lágrimas e outros “estados da alma”, em tons frequentemente mais femininos que masculinos?

Por que as músicas pop de Guilherme Arantes são tão belas, tão bregas, tão simples, tão sofisticadas?

Que veios subterrâneos percorrem a chamada MPB, permitindo o entrecruzamento de gêneros aparentemente inconciliáveis como bossa nova e funk carioca ou paulista, hip-hop e pop radiofônico, e assim por diante?

Publicado originalmente na revista Fórum (e reproduzido reproduzido aqui por FAROFAFÁ), o texto de perfil “Entre o pop e a sutil transgressão” procurou investigar o estranho fio condutor entre jazz, bossa nova, funk, pop, rap etc. a que chamamos música brasileira. O que segue abaixo é uma versão completa da entrevista com Guilherme Arantes que originou a reportagem.

 

Pedro Alexandre Sanches: Você participou do show de dois anos de liberdade do Dexter, não foi? De onde vem essa afinidade sua com o rap?

Guilherme Arantes: Eu conheci o Mano Brown há uns dois anos, em Salvador. Os Racionais MC’s iam fazer um show em Camaçari, fui pedir um autógrafo para ele. Ele tinha dado uma entrevista num desses canais e falou superbem de mim, que eu sou gente fina, que gostava de mim. Aí, quando fui fazer o coro do meu disco em São Paulo, no estúdio YB, eles estavam gravando numa outra sala. Era o Mano Brown com uma produção do Hyldon, uma coisa bem legal, um suingue com o baterista do Azymuth, o Mamão. Escutei, falei: “Nossa, feroz o suingue!”. Fui lá dar um abraço, acabei tocando um piano Fender, no suingue deles. Aí estreitou a amizade, peguei telefone, fui na produtora deles, a Boia Fria. Aí me apresentaram o Dexter, disseram que ele gostava de mim também. Falei: “Pô, quero tocar nesse show aí”. Acabei indo lá e cantei “Um Dia um Adeus” (1987) com Dexter. É engraçado, o Marcelo D2 falava no passado que o rap, o hip-hop, era o pesadelo do pop. Na verdade, descobri que o pop é o sonho do rap. É meio ao contrário. Eles gostam muito das harmonias, das melodias. E descobri que tinha essa linha aberta. A gente está aí planejando fazer parceria. Mano Brown canta muito bem, as pessoas não conhecem o lado soulman, black music, dele. Ele é todo melody.

PAS: Você já ouviu ele cantar?

GA: Já, ele canta bem pra caramba. Canta superbem. Só que ele fica, vamos dizer, muito cobrado dentro da proposta. É que nem ele fala, “eu já fui bem mais punk, hoje estou querendo ser mais melódico”. E aí veio a calhar essa coisa de a gente talvez fazer umas parcerias. Ele faz letras muito legais, é muito talentoso. Sempre achei isso, lá de trás, do começo, tanto é que a amizade surgiu da tietagem explícita mesmo.

PAS: E da sua parte? Você é melodia pura, de onde vem sua atração pela coisa pesada e declamada do rap?

GA: É, eu tenho a frustração de não saber fazer o outro lado.

PAS: Você acha que não sabe?

GA: Ah, não sei. No outro disco, que foi um disco mediano que lancei, que chamava Lótus (de 2007), eu tinha um tributo a todos os artistas negros que foram o meu alicerce (refere-se ao rap “North Shore). Faço uma homenagem aos artistas da música negra, que é uma coisa muito arraigada em mim, porque fui criado tocando Ray Charles. Depois, na adolescência, ouvi muito Stevie Wonder, Marvin Gaye, Lionel Richie. Estive em Los Angeles na década de 1980, gravando pela CBS, eles me mandaram fazer um disco com Ronnie Foster. Fiz três discos com ele, e conheci boa parte dessa galera da música negra. Conheci o professor de canto de Michael Jackson, Seth Riggs, estudei com ele, fiz quatro meses de curso. Ele é professor de todo mundo, Mariah Carey, Natalie Cole, Prince, Lionel Richie. Conheci o Lionel, essa temporada em Los Angeles me aproximou muito da música negra. Então tenho essa afinidade, mas não sei declamar, não é a minha. É uma coisa de ritmo mesmo, de ritmação da letra, que é um fascínio que sinto pelo rap. Quando bem-feito é muito lindo, muito foda.

PAS: Você falou uma frase ótima, que Mano Brown é maior poeta que Manuel Bandeira, foi isso mesmo?

GA: (Ri.) Foi um pouco de licença poética, literária.

PAS: Uma provocação?

GA: Mas acho que muitos dos acadêmicos da ABL (Academia Brasileira de Letras) não honram a casa de Machado de Assis, entendeu? Às vezes um rapper é mais foda na verve poética. A poesia faz uma viagem, percorre um caminho alucinado, embora seja tudo em cima de um mundo da injustiça, da truculência, da pobreza. Mas, independente disso, é de uma riqueza de elementos poéticos, tem verdadeiras obras-primas.

PAS: Quando você disse que não era bom nessa parte, pensei que estava falando da poesia, mas era da declamação?

GA: É, esse é um gênero de poesia muito específico. Tentei fazer no meu disco, mas ficou engraçado. Mas é verdadeiro, porque falo dos artistas negros que me influenciaram e de como é a visão do branco. Na época acho que isso era uma sacada legal: como era a visão de um menino que foi criado numa família branca, ouvindo no nosso meio social as piadas étnicas, de judeu, japonês, negro, e o que havia por trás, na minha formação, de uma geração pós-guerra. Nasci em 1953, seis anos antes de eu nascer ainda tinha Adolf Hitler no mundo. Minha geração é muito marcada pelo fim da guerra, sou logo a geração baby-boomer.

PAS: Qual é sua origem? Você é descendente de quê?

GA: Italiano, português e francês. A minha mãe tem italiano e francês na família. No meu pai tem português e alemão. Minha avó é cearense.

PAS: Então tem cearense também…

GA: Tem cearense do Crato, do sul do Ceará. É de lá que vem a música, dessa raiz dos Lima Verde do Crato. Tenho muito orgulho disso. A família Lima Verde tinha um conservatório do Crato, do Telêmaco Lima Verde, meu bisavô. Daí é que veio a música.

PAS: Quer dizer, eram descendentes europeus que moravam no Ceará?

GA: Eram alemães.

PAS: O alemão era do Crato?

GA: É, minha avó era Bagels, família de Hamburgo. Mas é uma misturada, o Lima Verde acho que é português também, né? Essa é a minha formação. O meu pai, por exemplo, era muito durão. Ele e meus tios tinham um resquício ainda de admiração pelo totalitarismo europeu. Não vou dizer pelo fascismo, que meu pai não era fascista, pelo contrário, mas usava um bigodinho, cabelo escovinha. Era uma fase ainda de linha dura, e assim eu fui criado. E essa cultura negra era transgressora, porque ao mesmo tempo que meu pai cultuava Tchaikovsky, Brahms, também adorava Ataulfo Alves. Quando eu era menino surgiu o Jorge Ben, por exemplo, todo o suingue, meu pai gostava. Gostava de chorinho, de Adoniran Barbosa. Havia uma transgressão no ar na minha ligação com a música negra. A América também foi muito assim, eram de direita, superdurões, mas adoravam o som negro. É um fascínio que existe pela cultura negra. No meu caso, eu tocava piano desde os 5 anos, então eu imitava muito Ray Charles, que vinha do rádio. Eu adorava o Brasil do auditório, o Brasil popular. Mas havia uma grande exclusão social no Brasil. Você olha uma foto de 1940, 1950, você só vê branco, não se vê preto no Brasil. Isso veio a explodir mais tarde, né? Racionais surgiram nos anos 1990, foi um boom de uma linguagem totalmente nova. Eu ouvia Racionais o dia inteiro, isso em 1993, 1994, logo no início. Tinha um programa de rap na rádio Metrópole, depois acho que a rádio virou evangélica, não sei que fim levou. Foi uma pena, porque é um movimento muito importante. E aí me sinto abrigado, o pessoal me recebe super bem. Hoje em dia acho que sou bem-quisto em várias áreas da música, não só de MPB. O pessoal do rock mesmo é que me isola um pouquinho, mas isso já é histórico. Eu também comprei muita briga no passado, esse lado briguento é um ponto de convergência com a Elis Regina. Sou muito parecido, daí minha identificação muito grande com ela quando conheci, porque ela também era muito briguenta, comprava muita briga. Mas hoje já estou bem mais soft.

PAS: É uma convergência com Elis por um lado, mas com Mano Brown também, não? Não dessa mesma maneira, mas os rappers são briguentos.

GA: São. É uma honra pra mim. As pessoas falavam para mim, “você não se vale de uma coisa dessa”. Qualquer um sairia logo trazendo, por exemplo, Mano Brown pro seu disco. Eu acho cedo. A gente vai ter que desenvolver uma coisa pra valer juntos.

PAS: Você nasceu na capital de São Paulo mesmo?

GA: Foi.

PAS: Você é a música popular paulistana? Existe isso?

GA: Ah, não sei. Não, acho que é Paulo Vanzolini. Ele era amigo do meu pai. Ele era biólogo do Instituto Biológico. Meu pai era médico, também tocava violão e era amigo do Vanzolini. Mas eu nasci em berço de ouro, sabe?, não posso reclamar.

PAS: Rico, você quer dizer?

GA: Não é bem rico, não. A gente viveu bem, sem dúvida, meu pai era médico, um grande cirurgião, de indústria farmacêutica também. Mas a gente não era dessas famílias paulistanas tipo Penteado, Prado. Era uma família de batalhadores, meu pai era batalhador. Os Arantes, na verdade, foram sesmeiros. Os primeiros Arantes que vieram pro Brasil vieram com Dom João VI, para o vale do Paraíba. A família tinha uma gleba de terra muito grande no vale do Paraíba, ali se fixaram. Mas meu avô, pai do meu pai, perdeu tudo com o marco alemão. Então meu pai foi um cara que teve que sair da estaca zero. Mas digo berço de ouro em termos de música, por exemplo, do meu pai compor, tocar violão, bandolim, tudo de ouvido. Ouvia muita música bossa nova, era beatlemaníaco, comprava os discos dos Beatles. E na família tinha esse ramo dos Lima Verde, que foi muito útil pra mim. Eu tinha um primo que era Solano Ribeiro, o organizados dos festivais de MPB. Ele é filho de uma prima-irmã de meu pai. Através do Solano é que conheci todo mundo, Rogério Duprat, quando eu era menino, tinha 17 anos.

PAS: Você frequentava os festivais?

GA: Eu ia, fui no festival da Record de “Disparada” e  “A Banda”. Não, nesse, não, eu não estava. Estava no seguinte, de “Roda Viva”, “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque” (o festival da Record de 1967). Nesse eu estava lá no auditório. No filme sobre esse festival passa por cima a plateia, eu estou lá, eu olho aquilo e choro.

PAS: Eu sempre penso nisso, uma geração estava lá e a gente não sabe muito quem é, quem estava lá como público e virou músico depois.

GA: Eu era novinho, tinha 13 anos. Depois fui em vários programas Fino da Bossa. Tinha um irmão do meu pai, Ciro Lima Arantes, que era diretor da Record. Ele fazia os contratos com o Marcos Lázaro, então descolava ingressos. Fui muito na Jovem Guarda, Essa Noite Se Improvisa. O Fino da Bossa, eu vi uns 20.

PAS: Você frequentava todas as vertentes da música, então.

GA: Eu vi Chico Buarque surgir, estava na plateia, ele de camisa de manga, super-desenxabido, com aquele violão, tocando “Pedro Pedreiro”, “A Rita” (1966). Puxa, isso foi uma experiência, ver essa gente e depois a dinâmica do que aconteceu com eles e com o Brasil, os significados todos. Quando Chico chega no Construção (1971), meu Deus, aquilo é o máximo, o máximo! Uma música popular no primeiro lugar das rádios, “Construção”, “Deus Lhe Pague”. Sou vidrado pelo Chico, o trabalho dele é de uma competência, de uma beleza. No ano passado eu andei muito amargurado. Na internet tem tudo, você fica fuçando nas madrugadas e vai parar numas coisas. Quando olhei Chico cantando “Basta Um Dia” (1976), aquilo humilhou, humilhou lá longe, sabe? Humilhou. Falei: “Puta, nós somos uns bostas”, sabe? Conheci Clara Nunes pessoalmente no primeiro ano de carreira. Depois, com o passar dos anos, da carreira, pude conviver… Nunca pensei que eu, de tiete, fosse virar colega.

PAS: Eu ia perguntar isso, se com 13 anos você sonhava virar um deles.

GA: É demais isso. E quando Elis olha pra mim e fala, pô, “estou a fim de você”?

PAS: Isso romanticamente mesmo?

GA: É. Eu desabei. Desabei, porque conhecia ela de trás pra diante. Ela fazia parte da minha vida. Aquilo estar acontecendo era uma coisa inimaginável.

PAS: Mas você encarou, foi adiante?

GA: É, mais ou menos. Eu era meio despreparado pra uma mulher daquele porte. Era uma mulher já com todo um background. Ela queria na verdade que eu pegasse a banda e virasse um bandleader da banda dela. Eu falei: “Você está sem noção”. Imagina, Cesar Camargo Mariano é um mestre, estudou com Nadia Boulanger em Paris. O cara toca pra caralho. Eu falei: “Imagina, eu sou só um pianista pop”.

PAS: Que ano era isso exatamente?

GA: Era 1980.

cd-guilherme-arantes-1976-meu-mundo-e-nada-mais_MLB-O-183604528_7108PAS: Você já tinha feito “Cuide-Se Bem”, “Meu Mundo e Nada Mais” (1976), várias coisas.

GA: Já, já tinha, mas eu não era, nunca fui um pianista tarimbado pra, vamos dizer, ser âncora de uma banda de uma Elis Regina. Precisa se garantir muito, né?

PAS: Mas espera, ela queria um pianista, um namorado, ou as duas coisas?

GA: Queria tudo. Era o jeito dela. Mas eu saí por respeito também ao momento dela com o marido. Cesar foi muito importante pra mim, porque ele me indicou pra ela. Chegou pra ela e falou: “Esse menino é bom, vamos gravar”. Foram as primeiras pessoas que me enxergaram de uma maneira mais séria, me deram um crédito. Depois achei que era desleal ficar na área, querer alguma coisa. Pra mim, ter tido duas músicas cantadas por ela, “Aprendendo a Jogar” e “Só Deus É Quem Sabe” (ambas em Elis, de 1980), já era bastante, sabe? Eu não era um cara preparado. Ela era uma diva de porte internacional, eu era só um garoto, estava começando minha vida, era um cara de 27 anos. Eu não tinha lastro pra uma convivência assim. Também logo depois casei com Luíza, minha segunda mulher, tive meu primeiro filho e segui pra um outro rumo. Mas ali foi um divisor de águas pra mim, porque depois dela minha carreira decolou.

PAS: Um divisor de águas com “Planeta Água” (1981), que foi sua entrada no mundo dos festivais da canção, como protagonista.

GA: É, aí foi outra loucura, porque eu adorava Taiguara. Era minha paixão, meu deus, como é lindo o trabalho dele. Os festivais movimentavam muito a opinião, o FIC, Festival Internacional da Canção. Me lembro de momentos como Toni Tornado cantando “BR-3” (1970), do Antonio Adolfo, uma música linda, viajeira, de um pianista. Ivan Lins também marcou muito, eu gostava muito, ele era meu ídolo, também tocava piano. Quando me vi na situação lá, falei: nossa, como o mundo dá volta. Mas são coisas que você cultiva dentro de você. Você vai procurando, vai até conseguir. Não foi por acaso.

PAS: É curioso que logo depois da história com Elis você vira o cara ultrapop, um grande sucesso popular.

GA: Foi. Eu também dei muita sorte, porque era muito televisivo. Era um rapaz bonito na Globo, tive problemas com a Som Livre quando estavam à procura de um ator-cantor. Todo mundo achava que eu devia trabalhar numa novela, existia esse sonho da televisão de ter Fábio Jr., Lucinha Lins, os atores-cantores. A televisão queria isso, é recorrente, um modelo hollywoodiano. Mas eu era cansastrão.

PAS: Você tentou?

GA: Não, nem tentei. Nunca tive talento teatral, ou nunca desenvolvi. Mas falaram pra mim que eu tinha que desenvolver, porque eu era muito engraçado quando era moleque, palhaço na sala de aula. Mas não passou disso, precisava fazer curso. As pessoas têm que aprofundar. Não é ser ator que nem o Gusttavo Lima trabalhando na novela. Pelo amor de Deus, é um tapa na cara dos atores de carreira. É tão bonito ver a carreira de ator, o cara que encara um laboratório com Antunes Filho. Eu não tinha talento nenhum. Fábio Jr., por exemplo, eu acho um grande ator, fantástico. Não tenho crítica como cantor, mas como ator ele é muito carismático.

PAS: De qualquer maneira, a Globo adorava você.

GA: É, mas aí, quando chega o Fábio Jr., pra uma vaga que potencialmente devia ser pra mim, fiquei enciumado. Vi também que eu precisava procurar mais o pessoal da música mesmo. Aí migrei pro André Midani, fui procurar ele, que era uma paixão. Adoro André Midani, ele foi muito importante pra mim, já na Warner. Mas conheci ele ainda pela Philips (atual Universal). Foi um cara realmente motivador na história da música brasileira, que nunca deve ser esquecido. Tem gente que não gosta dele, ficou com pé atrás. Mas eu, não, fui muito amigo. Fiquei magoado que ele não me pôs no livro dele. Não existo no livro, imagina, fui um dos melhores interlocutores de Midani. Ficava tardes batendo papos sobre a música popular, ele é uma pessoa muito culta.

PAS: Quem tem pé atrás com ele, como você disse, é por quais razões?

Moto_Perp_tuo_1974_Moto_Perp_tuoGA: Ah, por exemplo, Lulu Santos, que fez até música pro Midani. Acho que Rita Lee também não gosta que fale do André Midani. Entrou no campo pessoal. Ele foi uma pessoa carismática, que entrou na vida, namorou as cantoras, era um cara muito charmoso e culto. Fiz um depoimento sobre a Rita, para uma homenagem que estão fazendo, e me lembro de um momento da Rita em que ela cantou “José” (1970), que era do Georges Moustaki, um egípcio-francês, parceido com Midani. Pra mim Moustaki e Midani se confundem. E Moustaki é uma paixão minha, adoro as músicas dele. Essa música foi versão da Nara Leão, cantada por Rita Lee, com produção do Midani, e na bateria tinha o Diógenes Burani, que veio a fazer o grupo Moto Perpétuo (que lançou um disco homônimo em 1974) comigo. Mas as pessoas falaram, “não, acho que ela não vai gostar de você lembrar desse período”. Besteira, sabe? Acabei indicando outra música que eu acho bonita deles, “Atlântida” (1981), bonita demais. Mas não tenho mágoas, não, do meio artístico. Passei por tudo isso, pela Warner, pela Som Livre, depois migrei pra CBS.

PAS: Falei da Globo gostar de você porque suas músicas são recordistas de entrar em trilhas sonoras de novelas.

GA: Olha, teve altos e baixos. Mas eu, me olhando, acho que era uma figura televisiva incrível. Eu me sentia lindo na época, entendeu? Mas acho que consegui ter uma personalidade. Depois que uma Elis grava você, você nunca mais volta pra trás. Ela bota num patamar. E depois peguei especiais infantis com Maria Bethânia (em 1983, a cantora gravou sua “Brincar de Viver” para o especial infantil global Plunct Plact Zuuum), o Caetano Veloso regravou “Amanhã”. Eu dei muita sorte. Dancin’ Days (1978)  foi por acaso, porque gostaram da música “Amanhã” (do disco Ronda Noturna, de 1977). Eu estava até brigado com a Som Livre, nunca entendi o que aconteceu. Estava queimado na Globo, o Boni não podia nem ouvir falar de mim, porque saí numa matéria da Folha de São Paulo falando mal, dizendo que eles eram muito autoritários. Tudo bobagem, sabe?

PAS: É o que você classificou como ser “briguento”?

GA: É, a idade dá pra você mais malícia de negociação, de negociar com a vida. Baixa um pouco a bola, a crista. Você fica um pouco mais pé no chão. Eu era muito… muito metido. Mas deu tudo certo pra mim. Peguei uma sequência maravilhosa de novelas. Peguei personagens muito feliz, por exemplo o de Raul Cortez na novela Partido Alto (1984). Fiz uma música chamada “Fio da Navalha”, que era demais, uma música que hoje até os manos, o pessoal do rap, cultuam como clássica. É um cult pra eles, tem um arranjo black Rio, tem aquela metaleira da Banda Black Rio. Os caras pagam o maior pau.

PAS: É legal que eles rejeitam a Globo, mas certamente conhecem essa música por causa da Globo.

GA: Conhecem, e também porque a música era transgressora, falava que bandido e mocinho era tudo farinha do mesmo saco, descrevia a periferia. Foi tudo coisa do Guto Graça Mello, um cara muito importante pra minha geração toda. Eu até já conversei com a Sandra de Sá pra gente fazer uma homenagem ao Guto. Ele foi fundamental, ele trouxe os Novos Baianos pra Som Livre. Logo no começo da Som Livre ela lança os Novos Baianos, pô, não é brincadeira. Foi um cara que lançou Rita Lee, fez aquele festival Abertura (1975) onde surgiram Djavan, Alceu Valença, Luiz Melodia, eu. O começo do Djavan também foi na Som Livre. A gente deu muita sorte, porque tinha o produtor de verdade, aquele cara que é apaixonado pela música popular. Essa é uma frase boa do Midani: ele abandona o mundo do disco quando a música deixa de estar na mão dos que amavam a música e passa pra uma gente que está pouco se lixando.

PAS: O pessoal da Coca-Cola.

GA: Exato, gente corporativa. Fica distante. Mas acho que na era atual a música está voltando pra quem a ama. Os aventureiros da grana saíram fora porque já não dava mais tanto lucro, então a música ficou pra nós que amamos a música. Isso é uma coisa bonita que está acontecendo agora.

PAS: Não sei se é certo chamar seu novo disco de “volta”, mas isso ajudaria a explicar sua volta?

GA: Tem a ver. Mas o meu caso agora, com esse momento, há uma série de coincidências, que vim notando a partir do surgimento dessa nova geração, do Marcelo Jeneci. Ele, principalmente, é um cara muito importante, que classifico quase como meu filho, não só musical, mas espiritual. O pai dele é muito parecido comigo, é um Gepeto que mexe em instrumento. Que coisa. Um dia Jeneci abriu a sanfona, mostrou o circuito que o pai dele instala nas sanfonas e falou (se emociona)… Fico até emocionado, ele falou: “É com isso que meu pai alimentou a família”. Meu Deus do céu. A gente tem uma empatia, uma raiz, porque eu sou totalmente fuçador de instrumento, de ficar consertando.

PAS: E a sanfona e o piano são primos distantes, talvez meio brigados, não?

GA: É, isso. E eu fui lá na casa dele ouvir o disco (Feito pra Acabar, de 2010). Chorei demais, porque eu me enxerguei. Me enxerguei no começo de carreira, com toda a inocência, a pureza de quem está fazendo o que ama fazer (a voz embarga). Nossa, igualzinho. Eu não queria ficar milionário. A gente queria ficar famoso, sim, queria marcar a vida das pessoas. Isso é que é o ouro maior do artista, entrar na vida das pessoas, ter um significado na vida delas. Dinheiro, pô, tem tanta coisa que dá muito mais dinheiro, muito mais rápido. Mas a música é uma paixão. Às vezes uma música que não estourou, não aconteceu nada, com o passaer dos anos ela vai entrando, entrando, entrando, parece uma infiltração de água. Quando vê, ela já se instalou na vida das pessoas. Eu tive música assim. “Êxtase” ( 1979), por exemplo, não foi um sucesso. Esse disco fracassou, não foi bem de vendas. A gente tinha um desafio, que era fazer vender quantidade de plástico. A gente tinha que transformar a música num produto industrial de replicação em quantidade.

PAS: A CBS foi a líder nisso, não foi? Era a que mais queria e conseguia vender, tinha Roberto Carlos.

GA: Sim, a CBS tinha uma máquina que as outras não tinham. A CBS tinha já uma rede de distribuição do disco que era toda orquestrada. Eles tinham também uma coragem de fazer a chamada “endiscada”. Quando acreditavam no produto, já prensavam logo 100 mil e saía já com disco de ouro. Esse tipo de coragem, ou de aporte financeiro, foi inédito. Quando vi isso acontecer eu me assustei.

PAS: Seus discos mais vendidos são os da CBS (entre 1985 e 1990)?

GA: São. O meu mais vendido vendeu 200 mil, eu não fui grande vendedor. Nunca fui. Isso sempre foi um mistério. Segundo Tomaz Muñoz (espanhol que presidia a CBS brasileira à época), era porque eu tinha um trambolho chamado piano. Por isso que ele falava (faz sotaque espanhol): “Afasta Guijerme de lo piano”. Eu achava isso um absurdo, pô, o piano era tudo pra mim, era meu Ray Charles, meu Elton John, meu John Lennon tocando piano. Sem piano eu faço o quê com a mão? Mas eu tinha um defensor na gravadora, que era o Marcos Maynard. Ele foi um defensor, porque foi pianista. Até hoje é completamente apaixonado pela minha música, pelo meu talento na música. Esse tipo de pessoa ajuda muito, quando tem convicção. Apesar de às vezes ter um ou outro equívoco numa escolha de produtor ou nos caminhos de produção, nós fizemos coisas belíssimas. “Coisas do Brasil” (1986) é demais. “Um Dia um Adeus” foi impressionante, muito lindo, marcou golaço. Não falo que eu marquei. Foi a gente, juntos.

PAS: Maynard unia as duas características, de ainda amar a música, mas ser também muito marqueteiro?

GA: Truculento também, e pragmático. Às vezes precisa. O mercado é fechado, difícil, burro. Às vezes o mercado não responde. Aí é bom ter esse tipo de pessoa firme pra implantar um artista, um produto.

PAS: A música popular paulistana, como a própria São Paulo, não parece ter muito orgulho de si. Mas nela existem Mutantes, Guilherme Arantes, Racionais e Marcelo Jeneci.

GA: É verdade. É o sotaque, o sotaque italianado. Acho que o sotaque incomoda muito. O carioca não suporta o sotaque italianado.

PAS: Você considera que tem esse sotaque, nas músicas?

GA: Ah, que que eu vou fazer? Eu nunca tentei acariocar. A Rita Lee deu uma acariocada, pra ficar mais palatável.

PAS: Não tem uma contradição aí? Foi a Globo, que é o próprio Rio de Janeiro, que se interessou pela sua obra e a divulgou.

GA: É, eu fui mais feliz ainda no Rio. Quando caio no Rio, sou recebido de uma tal forma… O Rio é uma cidade muito difícil, mas quando o carioca embarca, ele não larga mais. O carioca é muito caloroso. E eu me consagrei no Maracanãzinho, no festival. Em 1984, mudei pro Rio, e me dei bem, casei com uma carioca, tive filhos no Rio. Virei meio carioca, morando na praia, vizinho do Nelson Motta. Fizemos juntos “Coisas do Brasil”, “Marina no Ar” (1987), aí ficou uma coisa totalmente bossanovística. Poxa, dei um crossover na minha vida que é inacreditável. Realmente não dá pra acreditar que a gente conseguiu fazer tanta coisa. A Gang 90, “Perdidos na Selva”, no mesmo festival de “Planeta Água”, os amigos do Rio. Ezequiel Neves foi um grande amigo, quase um preceptor, como foi com Cazuza. Ele tinha esse talento, de estar sempre junto. Esses amigos fizeram um momento importante pra mim, Nelsinho, Leonardo Netto, querido pra caramba. No retiro em que estou agora na Bahia, morro de saudade do Rio, dos amigos do Rio, talvez de uma época.

PAS: Por que a Bahia?

GA: Por causa do meu selo e do meu estúdio. Primeiro porque a Bahia tem um chamado espiritual pra mim, que precede tudo. Teve um pai de santo que falou que eu ia morar lá, isso logo no começo da minha carreira, e que sou filho de mamãe Oxum. Na Bahia sempre fui recebido quase como uma divindade. Mas fui pra lá pra fazer o estúdio, que é uma ideia que se projeta pra Europa, pro mundo. Penso numa estratégia, já que amo tanto a música e ela está voltando pro berço de quem a ama como deu. Quero muito produzir pessoas também. Tenho uma ideia já antiga, de fazer um disco só de pianistas, chamar Marcos Valle, João Donato, Ed Motta. Talvez fazer uma reportagem, um curta-metragem, sobre o piano brasileiro, uma coisa que não é muito lembrada mais hoje. Nós temos uma tradição de piano brasileiro, que é Tamba Trio, Tom Jobim. Penso no estúdio como um lugar que pode ser viável pra músicos de fora, da Europa. Teve uma equipe do Senegal que foi visitar, prospectar, pra talvez vir Youssou N’Dour gravar com a gente. Se isso acontecer, é uma sorte grande da música, porque a gente vai poder trabalhar com essa gente da Europa e somar com o pessoal daqui. A gente precisa sair um pouco do nosso gueto brasileiro, a gente é muito isolado pela língua. Por isso fui pra Bahia, lá tem esse enclave baiano, africano, que é um enclave negro na América. A Bahia tem esse appeal muito forte, quando perguntam lá fora onde é o estúdio, “oooooh, Bahia”. Estou lá por isso, por causa do chamado africano.

PAS: Eu queria retomar a sua relação com São Paulo, sua terra. Você tem orgulho de ser paulista, ou é meio brigado também?

GA: Não, nossa, São Paulo é uma paixão. Sou um bastião da paulistanidade fincado no litoral norte da Bahia. A minha paixão é tão grande que este disco novo é todo ambientado no centrão de São Paulo. Tenho ficado muito ali no hotel Marabá, que é bem na praça da República, e vivenciar aquele centrão, aquele tipo  de massa, o Mercadão Municipal, a Santa Ifigênia… Nós gravamos o clipe de “Olhar Estrangeiro” no viaduto Santa Ifigênia. É um folk, remete aos Rolling Stones, “Sitting on a Fence” (1967), da fase ainda com Brian Jones (cantarola). É o cara olhando o mundo com um olhar transgressor, de quem não pertence muito. Eu identifico muito com São Paulo dos roqueiros, dos nigerianos, dos angolanos, dos japoneses. É demais, um caos, mas não consigo não ser apaixonado por São Paulo. Só consigo manter a estrutura lá do estúdio vindo pra São Paulo toda semana, porque é um tal de quebrar e consertar peça e equipamentos…

PAS: Você diria que “Olhar Estrangeiro” é uma música sobre São Paulo? Quem é de São Paulo é quem se sente estrangeiro?

GA: É, completamente. É sobre o centrão. Esse olhar estrangeiro é o olhar do estranhamento de todos nós, daquela multidão. É completamente ambientado ali naquele centrão. O clipe é um cult movie todo em preto-e-branco, bem carregado,  bem denso, sobre esse lado… Tem várias São Paulo, né?, a da Berrini, do Morumbi, do Higienópolis. Mas nenhuma dessas é a minha São Paulo. A minha São Paulo é ali da avenida Ipiranga, aquela muvuca.

PAS: Por falar nisso, em que bairro você nasceu?

GA: Nasci na Bela Vista.

PAS: Você é do centro mesmo.

GA: É. Fui criado também em Santo Amaro, mas depois minha mãe mudou pra alameda Campinas, perto da avenida Paulista. Vivi ali. Minha identidade é totalmente paulistana, me sinto totalmente em casa em São Paulo. O Bar da Dona Onça só pode ser em São Paulo, não pode ser em outro lugar. O distrito GLS de São Paulo é uma das coisas mais lindas, mais importantes, que uma metrópole pode ter. É uma cidade que tem uma variedade de comportamento e núcleos diversos. Tem os Baixo Augusta, Vila Madalena… Não tem cidade parecida no Brasil, nem mesmo lá fora. Nada é parecido com São Paulo. É um orgulho da gente mesmo.

PAS: Eu queria falar um pouco sobre a música “Onde Estava Você”, que tem no coro essa outra turma que também adora você, os chamados “indies” de São Paulo. Ouço e fico tentando imaginar com quem você está falando, com quem essa música está conversando.

GA: Eu me senti, no ano passado, abandonado. Por mim mesmo, sei lá, pelo mundo, jogado no mato lá da Bahia. Na verdade a letra surgiu quando começaram a surgir novos Guilherme Arantes na praça, todo mundo falando que o Jeneci ou o Silva é o Guilherme Arantes da nova geração, do século XXI. Falei: puxa vida, será que eu estou morto e ninguém me avisou?

PAS: Está dizendo que, como da vez do Fábio Jr., você ficou enciumado de novo?

GA: Lógico! Aí vem o lado Elis, né? Botei logo na letra, “onde estava você quando o mundo me esqueceu?” Mas também é uma música baseada nos meus filhos, nas amizades que vão passando de um ano pra outro. A Paola, minha filha mais nova, está com 15 anos. Tenho cinco filhos. A Marieta é a mais nova, com 32. Essa é mais contemporânea dessa galera toda, estudou com a Tulipa Ruiz, conhece toda essa gente. Eles todos estudaram em colégios aí, Oswald de Andrade, os colégios da zona oeste de São Paulo. Então é uma turma meio homogênea, são todos amigos, Curumin, o pessoal do El Rocha, Daniel Ganjaman, o pessoal do dub. A Marieta, que é a mais velha, é mais ligada nessa gente, e vejo ela perdendo os amigos. Os amigos que eram já não são mais, uns viajaram, outro casou, outro seguiu outro rumo. Comecei a me lembrar das minhas amizades da faculdade, do colégio, as que ficaram pra trás. Por que ficaram pra trás, se a gente era unha e carne? Então resolvi fazer uma música principalmente sobre a amizade, sobre a perda da amizade com o tempo. Isso vale pros amores também, pros lugares. Poxa, eu poderia cantar essa música para a minha FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP).

PAS: Você concluiu o curso?

GA: Não, não me formei.

PAS: Você tem isso em comum com Chico Buarque então.

GA: Ah, eu fui só por causa do Chico Buarque (risos).

PAS: E sua filha se chama Marieta por causa da Marieta Severo?

GA: Não, a bisavó dela se chamava Marieta. Lógico que adorei a ideia quando a mãe sugeriu, porque Marieta Severo é o máximo. Mas começo a fazer esse balanço na minha vida, já perto dos 60 anos. Quando a gente é jovem tantos sonhos são pra durar, mas aí você olha o álbum de retratos e fica aquela memória pra guardar ali numa gaveta, e o significado se perdeu. Resolvi juntar tudo, e acabou ficando um desabafo, dá impressão que é pra alguém, alguém que me esqueceu, o mercado.

PAS: Eu tinha pensado mais por esse lado, a fase de maior sucesso comercial, que depois acaba.

GA: Não é, não. “Quando o mundo me esqueceu”, isso aí pegou pesado, né?

PAS: É meio paulista no sentido dramático, trágico, italiano…

GA: É, “o mundo me esqueceu”… Mas quando foi saindo isso resolvi não mexer. Deixa assim, poxa.

PAS: Mas então aquele sentimento ruim do ano passado culminou num disco?

GA: Foi. Eu só tinha uma música guardada, que há três anos eu tinha feito pra Bethânia e seria um “Brincar de Viver” número dois. Foi tão bonito, deu tão certo pra ela e pra mim, que a gente se encontrou no avião, falei, poxa, a gente tem a obrigação de tentar de novo. Voltei pra casa e fiz “Você em Mim”, mas ela fechou o disco e acabou não entrando. Era a única música que eu tinha, o resto foi tudo feito no segundo semestre do ano passado. Tinha alguns começos de melodia, mas era tudo meio esparso.

PAS: O que o disco fez com o sentimento de abandono? Mudou? Continuou o mesmo?

imagesGA: Fiz uma operação de catarata em agosto do ano passado, que já foi decisiva, porque eu não estava enxergando nada. Isso até é uma metáfora, eu não estava enxergando nada também a respeito do mundo, de mim, eu com a carreira, eu com a música. Tinha urgência de fazer, porque a idade vai passando e você tem que ter urgência. Os artistas têm que ter mais urgência, não podem ficar descansados. Aí, na operação, o cara me aplicou aquele propofol do Michael Jackson. É uma sensação estranhíssima você ver o cara operando seu olho, mexendo no olho, cortando o olho. Me senti tão frágil, tão abandonado lá no meu interior, o fiozinho de luz da esperança, sabe?, que quando saí dessa enxergando, rapidamente reorganizei meu mundo e passei a enxergar a minha situação com a música. Eu tinha tudo pra fazer um discão bacana logo, não deixar pra depois. A vida pode não durar uma eternidade. Não é que pode não durar, ela não vai durar. Cheguei no empresário do escritório de shows em que eu estava e falei: “Olha, não quero mais fazer show. Quero parar e voltar a ser um criador. Chega de show, parem de vender, eu não aguento mais fazer show, show, show, fabricando dinheiro”. Isso é loucura, os artistas de hoje vivem no aeroporto. Aquela gritaria, aquele empurra-empurra, isso não é arte mais, isso virou um bando de viajores, de representantes comerciais. A gente tem que voltar pro estúdio.

PAS: Como você avalia sua passagem da explosão pop para a acomodação depois?

GA: Ah, eu tive muito alto e baixo, fui muito irregular. Me lancei, fui fulminante. No terceiro ano já estavam dizendo que eu estava acabado, “esse cara já era”. Nossa, tinha tanta coisa pela frente. Aí a vida vai dando presentes, como a Elis, tanta coisa que aconteceu. Fui muito irregular, a carreira de artista é muito difícil, muito instável. Um ano você está bem, no outro não está. Tem circunstâncias do mercado também, de estar mais ou menos favorável.

PAS: O que em algum momento é moda depois deixa de ser.

GA: Acho que sou sobrevivente de várias vidas, sabe? Tive várias encarnações diferentes numa só. Outro dia eu estava no Google marcando os lugares que marcaram a minha vida. Isso é legal, marcar onde nasceu, pra onde mudou, onde estudava, foi pro Rio de Janeiro, na Barra. Marquei todos os lugares e falei: nossa, que vida maluca. Eu fiz muita coisa, tive uma mobilidade grande. Foram períodos, o período do vinil, do rádio AM, depois o FM. O FM foi um desafio, a Elis também não tocava no FM, e nem a Bethânia. Esses artistas ficaram pra trás, ficaram no AM. Quem era forte no AM não conseguiu muito migrar pro FM, demorou.

PAS: Aconteceu com você também?

GA: Aconteceu comigo, eu não tocava na FM. Entrei na FM com a Elis. Nós entramos juntos no FM, porque Elis também não tocava. Ela tinha feito Falso Brilhante (1976), depois foi pra Warner, tocou em Montreux com Hermeto Pascoal, uma carreira muito acidentada, tentando achar um caminho. De repente ela chega pra mim e fala: “Pô, vamos juntos furar esse negócio do FM? Você não toca e nem eu, vamos meter a cara, fazer um hit pra arrebentar na FM?”.

PAS: Ela falou isso literalmente, tinha isso claro?

GA: Tinha, era muito sábia, muito esperta. Fiz “Aprendendo a Jogar” e a gente entrou junto. A partir daí eu comecei a tocar bem também no FM, e ela entrou. Bethânia também, no FM adulto contemporâneo toca muito “Brincar de Viver”, que a gente emplacou junto. Depois chega o CD, acaba o vinil, com uma quantidade de replicação sem precedentes. Em vez de uma máquina fazer 10 mil cópias num dia, ela fazia 100 mil. Então eles tinham que procurar artistas pra vender milhões, e aí começa É o Tchan, Só pra Contrariar, o axé, e a gente ficou pra trás na escala. Nem sei como deu pra sobreviver com tudo isso, porque as pessoas vão ficando pra trás nas mídias. Quando chega a MTV, por exemplo, eu não me estabeleço no mundo dos videoclipes. Passo a assistir Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Titãs, mais tarde Marisa Monte. Realmente, a linguagem do clipe não foi uma boa invenção pro Guilherme Arantes.

PAS: Mas talvez por nada além de você ter chegado um pouco antes? Você mesmo disse que tinha apelo visual.

GA: E também porque o mercado é preguiçoso. Vai vender sem fazer clipe? Então não vai ter clipe, pronto. As gravadoras eram uma bosta nesse sentido. Às vezes merecia. Lógico que tive alguns clipes, “Fio da Navalha” foi um clipe lindo, feito com Sílvia Pfeifer, muito bem rodado e dirigido. Mas foram poucos. Com a chegada da MTV, houve uma retração da grande mídia. Nos anos 1990 a MTV leva pra dentro da programação dela toda a parte musical, e aí você vê uma retração das grandes emissoras. O espaço musical vai se tornando praticamente zero.

PAS: Você falou que sua relação com o rock não era muito pacífica, como assim?

GA: Acho que eu também provoquei situações. Teve uma matéria da Folha de São Paulo em que falei de todo mundo. Era muito falastrão. A verdade é a seguinte: ultimamente estão saindo umas matéria em que vou criticando o sertanejo, o pagode. Tudo que é muito hegemônico é chato. Eu também, quando me tornei hegemônico em grande gravadora, ficou chato. Ficou todo ano aquele gol de placa. Hoje olho aquele Globo de Ouro que passa no canal Viva, tem um dia só de CBS. Então é Angélica, Dominó, Radio Taxi, Guilherme Arantes, Baby Consuelo. No outro dia, é só RCA, Sandra de Sá, Trem da Alegria… Isso fez com que a gente ficasse sem credibilidade.

PAS: O espectador comum não detectava, não sabia enxergar isso.Você está falando de jabaculê? A gravadora comprava aquele dia no Globo de Ouro?

GA: Os programas eram negociados em bloco, então o artista fica vulnerável criticamente. Ele está dentro de um pacote que pode ser duvidoso. No nosso caso na CBS, tinha o Djavan, que é um mestre maravilhoso, e eu estava lá. Tinha coisas boas, mas o pacotão fazia entrar na mesma negociação a Rosana, Dr. Silvana & Cia., coisas de gravadora da época. Isso eu acho que foi nocivo, e a gente ficou chato. Eu sei que torciam muito o nariz pra mim.

PAS: Você era pop demais para o rock que estava surgindo?

GA: É, o rock era muito masculino também. Tinha uma linguagem muito de caserna. Me lembro que morava no Posto 6, em Copacabana, e os soldados treinavam cantando música dos Paralamas (cantarola), “entrei de gaiato no navio/ entrei, ôôôô”. Aí saí falando, por exemplo, que Paralamas era rock de reco. Isso é chato, não se deve fazer. Hoje olho pra trás e falo, pô, uma banda tão boa.

PAS: É o lado Lobão do Guilherme Arantes?

GA: Não é legal esse ferrão pronto pra ferroar. É chato. Com o tempo, hoje, tenho mais humildade de ver que, poxa, somos uma geração bacana. Procurei muita encrenca de bobeira.

PAS: Mas aqui a gente entra também na relação com a imprensa. Minha classe, de jornalistas, críticos, não era muito generosa com você. Ao mesmo tempo, você era falastrão, e esse momento em que o Guilherme Arantes falava mal de todo mundo era bom para o jornal.

GA: Hoje enxergo que era uma paixão mal resolvida. Os jornalistas no fundo gostavam de mim, mas talvez eu não gostasse dos jornalistas. Hoje eu aprendi a gostar, a entender a dinâmica, como o jornalista vê. Hoje tenho mais idade pra olhar a coisa de uma forma mais ampla. Eu era muito limitado. A Rita também.

PAS: Por que você não gostava deles – de nós?

GA: Ah, porque tinha a voz da opinião, né? A opinião nem sempre nos é favorável.

PAS: Aí eu digo que não era generosa com você, porque seu trabalho era muito pop, e jornalista muitas vezes age como se o que é pop necessariamente não prestasse, não servisse.

GA: Mas eu tinha um lado Serge Gainsbourg, tinha que ter aprendido a ter uma visão mais gauche das coisas. Isso não combinava muito com as gravadoras, eles não gostavam da visão gauche. Por isso que desagradava, e também porque a gente fez discos digestivos muitas vezes. Hoje vejo que eu produzindo surtiu um efeito melhor, porque vai com uma verdade mais evidente. A gente, sendo trabalhado por uma major, dentro de um pacote, não é a mesma coisa. Então a gente tomava muito pau. É por isso que falo que a coisa hegemônica é chata. Hoje tem o negócio do sertanejo. Não é tudo do sertanejo que é ruim. Tem tanta coisa bacana nessa área. Só que esse termo, o sertanejo, se transformou num agronegócio, uma coisa hegemônica. É chato. Falei no UOL que a monocultura nos emburreceu. Isso é um fato, a monocultura da soja, da cana, do boi, da laranja. Você vai pro interior, não existe mais a jabuticaba, o marmelo. Só existe cana, cana, cana. Isso é tão chato quanto a  música que isso propicia, do agronegócio, as feiras de boi. Quando é muito hegemônico fica chato. Mas acho que as pessoas estão despertando, notei que existe uma grita geral por variedade no Brasil. Ficou muito monótono. Não sou só eu.

PAS: O que você ia falar da Rita Lee?

GA: A Rita também comprou muita briga, comprou até com você.

PAS: Infelizmente, porque eu não gostaria de modo algum.

GA: Mas tem uma coista também: a gente está no alto de uma posição hegemônica. Um jornalista cumpre o  papel dele de questionar, e o artista, no ego, fica bicado. Todo mundo acha do caralho, por que o jornalista não acha? Por que ele tem que fazer isso? Hoje olho com um olhar bem mais amplo, bem mais perdoado. A opinião tem que existir. Sei que estou falando num momento favorável, em que todo mundo está falando bem do meu disco, então fica suave, gostoso.

PAS: Talvez você tenha provocado essa mudança, mudando?

GA: O artista também tem que dar um tempo, pra renovar. Às vezes faz parte da estratégia você sumir. Marisa Monte tem o dom do sumiço, isso é importante. As duplas sertanejas ficam chatas, insistindo todo ano em querer o primeiro lugar da parada, na tora. Isso é o que chamo de hegemônico. Quando Rita se tornou muito hegemônica, provocou também muita reação. Isso acontece com os pops internacionais também, deveria fazer parte da estratégia o sumiço. Mas todo ano ninguém aguenta. A gente assinava contrato de quatro anos com um disco anual. Boa coisa não vai acontecer, né? Em um ano você não tem carga de vida pra despejar num disco e agradar. Começa a diluir. Jogador de futebol é assim também.

PAS: Durante a entrevista inteira, você citou dezenas de colegas seus. É raro, fiquei surpreso. Os artistas não costumam gostar de falar uns dos outros.

GA: É uma visão já da maturidade. Você se enxerga dentro de um conjunto, não isolado. Acho que é da idade mesmo. Com 60 anos, os crimes já prescreveram, as brigas. A gente era muito sem noção. Por exemplo, no envolvimento amoroso, você não se conter e ir metendo a cara. Com o tempo você fica mais maduro e não tem tanto ímpeto de conquista. Ele tem que ser moderado pela maturidade.

PAS: Eu estava pensando pelo outro lado, uma competição entre artistas que faz uns não citarem os outros, e é algo que você não demonstra nesta entrevista.

GA: É porque talvez eu não esteja mais preocupado com essa competição. Já não faz muito sentido. Também não tenho veleidades de vender, de ser isso ou aquilo. Já ficou pra trás essa ânsia de poder. O poder é a verdade da música. Com o tempo você vê que o que fez com amor… Me surpreeendi muito, a gente jogou no Soundcloud, eu tenho 400 e tantas músicas. Olhando numa panorâmica, tenho que ter muita gratidão, e já uma alegria – ficar mais alegre, mais leve. O que consegui fazer é muita coisa, e tem joias. As pessoas não sabem, por exemplo, que gravei uma música do Stevie Wonder com Gilberto Gil, “The Secret Life of Plants” (em 1993). Como é que isso passou batido? Que assessoria de imprensa estava me trabalhando na época? Essa era uma parte que as gravadoras tinham uma lacuna forte, eles não tinham assessoria, fora em alguns casos, como a Warner teve um bom assessoramento de imprensa. Existia uma visão, por exemplo, na CBS, de que a imprensa não conta nada, é perfumaria. O que interessa é execução no rádio e vendas de discos. Isso gera um ranço.

PAS: Gerava as críticas negativas, talvez, de alguma maneira? O ser humano é vaidoso, inclusive jornalistas…

GA: É verdade. Não é nem vaidade, hoje a gente vê que a imprensa é um bastião fundamental pra você ter um parâmetro, pras pessoas ouvirem falar do seu trabalho. Não, a gravadora saía comprando pacote de rádio, e deixava a imprensa pra lá. Isso não dá certo, tudo tem que ser bem-feito.

PAS: Não sei se entendo completamente quando você diz que o rock era muito masculino.

GA: A linguagem do rock sempre foi coisa de homem, mesmo lá fora. Eu me identificava muito com a alma feminina, com a visão feminina do mundo, que é uma visão de uma transgressão muito mais sutil e cortante, mas que pro rock parecia uma coisa distante. Eu era um cara palatável pra mulherada, falando muito da alma feminina, de sentimentos.

PAS: O piano seria um elemento feminino?

GA: Ajuda. Então eu não podia ser rock’n’roll.

PAS: Só que você era também…

111737831SZGA: Recentemente eu vi uma apresentaçãoo do Frejat cantando com o Plebe Rude, uma música minha, “Coração Paulista” (1980). Nossa, que legal, olha aí, eu era ouvido e não sabia. É que o rock é muito engessador.

PAS: Como toda tribo, talvez.

GA: Não pode um monte de coisa, né? Por exemplo, abrir muito sentimento. Não tem muito lugar pra sentimento. Você repara que, para o homem cantar o sentimento, ele tem que estar ou com chapéu de boiadeiro, ou com brinquinho de pagode, ou numa banda de axé. Tem que estar abrigado dentro de algum comportamento no qual o sentimento é admitido. Você entende que é pesado isso aí?

PAS: Sim. E o rap é igual ao rock nisso, não?  Durão, quase sempre. Será que Mano Brown se aproximar de você significa que ele está trabalhando isso nele?

GA: É! Está querendo uma alma mais doce, né? Mas isso é novo, viu? Acho que no futuro a gente vai ter um rock menos misógino. Mas acho que a linguagem do rock está por baixo, ela não está em alta no mundo. Ela ficou muito uma coisa de pessoas duronas. E eu tinha essa feminilidade, devido ao Chico, ao Vinicius de Moraes, ao Roberto Carlos.

PAS: Você tem uma voz doce, inclusive conversando.

GA: Sim, é diferente de um Frejat, todo posturado, uma coisa mais do rock, do blues, masculina. Mas acho que a força da música hoje é a mulher. E eu passo a ser bem visto, porque as cantoras me gravam, Isabela Taviani, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhotto. Essas pessoas me ajudaram muito a me resgatar, a buscar as músicas que fiz. Isso é uma coisa dos últimos anos. A primeira pessoa que me levantou a bandeira, fora Elis e Bethânia no passado, foi a Leila Pinheiro. Foi muito importante pra mim, ela gravou várias músicas minhas, “Coisas do Brasil”, “Bom Humor”,  “Canção de Amor”, que é minha e do Costa Netto, “Um Dia um Adeus”. Joanna também. E com o passar do tempo fui sendo uma das referencias das cantoras. Isso me ajudou muito.

PAS: Quando ouvi Jeneci, me chamou a atenção de cara o quanto ele falava de água nas músicas, e aí voltei pra você por essa via. Você falava muito de água, “Planeta Água”, “Deixa Chover”… Antes você citou Oxum – é meio como se a água fosse feminina?

GA: Sim. Esse clima chuvoso das minhas letras vem do Jorge Mautner, do livro Narciso em Tarde Cinza (1965), que foi muito marcante pra mim. Aliás, o Jorge foi um cara fundamental, porque o primeiro emprego musical que tive foi na banda dele. Toquei com ele no tempo do “Maracatu Atômico” (1974), eu era da banda do Jorge Mautner. Depois é que montei o Moto Perpétuo e comecei a minha carreira. Mas então esse clima chuvoso vem de uma poética mautneriana. Agora, acho que Jeneci veio pra esse clima de uma forma proposital. O Kassin me falou que todo mundo tinha fascínio por isso de eu falar desses elementos, neblina, chuvas. São estados da alma, de reflexão.

PAS: Falar de água não é um jeito de dizer que você tem emoção, que você chora?, coisas que muitas vezes os homens do rock, do rap, não podem demonstrar?

GA: Exato, é por aí. Tanto é que a profissão de cantor homem se atrofiou no Brasil. Fora o Emílio Santiago, que se foi, a gente tem poucos cantores na música brasileira. A gente tem mais é cantoras, talvez a mulher flua mais sentimentos. A música brasileira é muito sentimental.

PAS: Você é um bom cantor?

GA: Não sei, acho que não. Acho que sou um compositor que canta. Como, sei lá, Lucio Dalla, Zucchero, Charly Garcia, Fito Paez. Não é muito a nossa especialidade ter uma vocalização dedicada. Mas neste disco novo tentei ao máximo me esmerar em cantar melhor. Não tive um coach vocal nas gravações do passado. Não tinha essa figura dizendo “não, não escande a voz”, “diminui os esses”, “você está muito áspero”, “sua voz está ardida”.  Minha voz já é ardida por natureza. Eu tenho um tom de voz ardido. E muita gente não gostava. O próprio Nelsinho Motta me falava pra eu me esmerar mais nos vocais. Às vezes eu fazia o canto em meia hora, e a música demorou meses pra ficar pronta. Não podia, tinha que ser mais depurado. Tentei melhorar, acho que melhorei. Tem uma canção do disco, “O Castelo do Reino”, que acho que está muito bem cantada, na minha opinião. É especial, uma canção de gesta, uma coisa da cultura renascentista, e eu tinha que cantar de uma forma mais suave. Tendo o estúdio, fui procurar microfone melhor, posição de microfone. Em toda essa práxis da gravação da voz eu sempre fui muito negligente. Nesse disco tentei superar minhas dificuldades, mas reconheço que canto com um certo esforço. Não fluo com facilidade, como por exemplo uma Roberta Sá. Não tenho aquele dom do sabiá. Não é muito a minha praia. Phil Collins, por exemplo, tem uma voz um pouco parecida com a minha, uma voz um pouco ardida de vez em quando. Fica chato. Então tive que ter crítica: por que as pessoas acham que a minha voz é insuportável?

PAS: Falam isso?

GA: Ah, falam, falam, ainda hoje. Mas é normal também. Não é minha especialidade a coisa canora.

PAS: Não estamos falando de uma coisa maior, social, talvez um preconceito coletivo, de que os homens não possam ser bons cantores? Não está envolvido isso de eles fugirem das emoções?

GA: É, por exemplo, o rapper tem que fazer uma voz assim (imita, em tom grave e entrecortado) pra poder passar aquela mensagem da brutalidade. Ele tem que fazer aquele vozeirão monocórdio, pra ter o mínimo de emoção.

PAS: É uma prisão, não?

GA: É, uma coisa engessada. O mundo masculino é engessado. É coisa do homem. A mulher não tem esse problema.

PAS: Por isso foi legal o momento do surgimento do Jeneci. É muito nítido que ele está tentando superar essa dualidade, demonstrar emoção nas canções. E isso faz a gente lembrar do Guilherme Arantes e lembrar que o Guilherme Arantes também fazia isso duas, três décadas antes.

GA: É, da gente abrir o sentimento. O homem sentimental é um espécime novo no mundo, né? Ele é novo.

PAS: Mas você era? Dá pra dizer que você era, nos seus maiores sucessos?

GA: Eu era, completamente. Completamente feminino, imagina. A alma feminina vem da bossa nova, do Chico, do Vinicius, muito do Roberto Carlos. Roberto é um mestre do sentimento. Mas essas classificações são besteira. Uma coisa que percebi com os anos é que o povo é muito difícil de você enganar. A elite é fácil de enganar, com um bom marketing.

PAS: Essa é uma ideia revolucionária…

GA: Tendo um bom marketing, você vende pra elite. O povo é arisco. Essa identificação com o povão é uma coisa que todo mundo gostaria de ter, mas é um privilégio de poucos.

PAS: Seu inclusive?

GA: Eu tenho essa coisa da popularidade, que nem o Mano Brown falou pra mim: “Você sempre agradou muito lá no Capão Redondo. As minhas tias, minhas irmãs, todo mundo adora você”.

PAS: As mulheres da família?

GA: “Minha mãe soube que estou com você, minhas irmãs, elas te adoram.” É interessante um rapper dar valor pra isso, né?, talvez por ele já estar mais velho, ter família, filhos. Hoje a rebeldia não é mais tão importante quanto marcar a vida, ter emoções, marcar sua vida pelas emoções. Agora, um Chico Buarque é um mestre, e nunca foi chamado de brega. Chamar Chico de brega seria uma heresia. Mas um Guilherme Arantes, num auditório, fica fácil de classificar dessa forma. Quem soltou essa que eu sou brega foi o Herbert Vianna.

PAS: Você dizia que ele era rock de reco e ele dizia que você era brega?

GA: Lógico, o que você quer (risos)?

PAS: Quem começou?

GA: Eu, né (risos)? Se eu tivesse um pouco mais de sabedoria, tinha feito parceria com Renato Russo, que sempre amei e que tem essa alma feminina muito forte.

PAS: Ele poderia ser chamado de brega, tranquilamente.

GA: Né? Mas a postura toda da banda, e as letras… Eu me isolei de bobeira nesses anos todos em que estava no Rio e podia ter cruzado mais. Renato, por exemplo, gostava muito de mim. Cazuza foi muito meu amigo. Dentro do rock, ele foi uma pessoa que abriu o coração e falava de sentimentos.

PAS: Eram dois caras gays dentro do rock, o que não devia ser fácil.

GA: Exatamente, aí pode. É engraçado, né?

PAS: Eles eram transgressores no sentido de conseguir ser ao mesmo tempo as duas coisas, no clube do bolinha.

GA: O Cazuza, por exemplo, em que pesem as letras maravilhosas, o discurso transgressor dele foi em “Codinome Beija-Flor” (1985), “Faz Parte do Meu Show” (1988), que são músicas completamente femininas, né? Foi aí que eu saquei, alguns anos atrás, que o que é cortante mesmo é o sentimento. Esse aí é que é foda. É muito mais cortante que o discurso racional.

PAS: E o pessoal que você chama de povo é aquele que ou sente ou não sente, ou te acolhe ou não te acolhe?

GA: Às vezes você pode fazer uma charge, como tinha a Banda Vexame, da Marisa Orth, por exemplo. Eu tinha implicância, porque era uma forma de os aculturados ridicularizarem os simplórios. Eu não gostava disso, porque o povo ama o Gilliard, o Amado Batista, os sertanejos. Não por acaso o sertanejo pega um público feminino, porque você bota um chapéu de boiadeiro e aí já é permitido rasgar o coração, porque é um boiadeiro que está ali na posição masculina indubitável, e pode então rasgar o coração à vontade, música de corno e tudo mais, sem despertar a vaia do público masculino.

PAS: Concordo com você quando à Banda Vexame, mas não foi uma fase que precisou ser atravessada pra que hoje exista gente que gosta do Odair José sem achar ridículo ou engraçado?

GA: Mas ainda tem bandas que tentam emular essa singeleza do popular, como por exemplo Cidadão Instigado. É uma banda que tenta de certa forma visitar esse universo popular. Mas o povo mesmo prefere o Gilliard.

PAS: Você está dizendo que não soa verdadeiro?

GA: Tem alguma coisa. Não estou aqui pra criticar o Cidadão Instigado. Acho legal, porque eles têm o fascínio pelo popular. Mas não basta o fascínio, precisa ter uma vontade de estar lá, no povão, mesmo. Mas acho que hoje a nova geração já resolveu bem isso. Minha filha Marieta, por exemplo, adora pagode. Gosta de Péricles. O Belo, por exemplo, tem uma verdade muito grande na figura, no que ele canta e na relação dele com o  público. É um mistério que os aculturados talvez gostariam de desvendar. Como é que chega lá?

PAS: Os chamados aculturados têm muito preconceito, não?

GA: Mas acho que, como disse o Mano Brown, ser popular é pra quem pode, não é pra quem quer. Você pode querer, mas o povo é arisco e estranho. Você tem que estar ali com muita verdade. PQuando cantava as músicas românticas, “Cheia de Charme” (1985), eu estava inteiro ali. Eu gostava do povão, eu gosto do povão. Gosto da mulher-povão, do sentimento do povão, de estar no auditório. Achava do caralho ir no Bolinha, no Chacrinha. Depois o rock veio a descobrir. Legião, Titãs, essa gente a princípio não queria ir no auditório. Quando descobriram que o povo gostava deles, viraram grandes sucessos populares. E aí passaram a ir, o Chacrinha virou o templo do pop-rock brasileiro. Mas o que o Mano Brown falou pra mim é que eu era um outsider dessa patota Ipanema-Leblon: “Você estava fora”. Era uma geração que tudo que queria era não ser brega. Eles estavam muito preocupados com isso. Até hoje, quando digo “não me importo em ser brega”, não é que eu não me importo. Não me importo em ser considerado. Porque acho que tive um pouco de tudo que uma pessoa pode querer, música com Elis, Roberto, Caetano, com todo mundo. Então eu não me acho brega. Não me acho. Mas a minha alma está muito lá na jovem guarda, naquela idolatria que havia. Roberto Carlos foi muito importante pra mim. Conhecê-lo pessoalmente, poder ter uma música na voz dele (“Toda Vã Filosofia”, gravada em 1988), uma pessoa profundamente ligada com a alma feminina e popular. Por isso ele é o que ele é.

PAS: O que a gente convencionou a chamar de brega estaria num meio-termo entre o simplório e o emocionado?

GA: Talvez seja por aí…

PAS: E talvez seja malvisto pelo lado simplório, mas no fundo pelo emocionado também. Quem não tem vergonha de mostrar emoção?

GA: Esses conceitos já ficaram pra trás. As festas de rico, por exemplo, tocam “Ai se Eu Te Pego”, “eu quero tchu, eu quero tchá”. O mundo na verdade é brega. O Japão, a Inglaterra, a Alemanha. Quer país mais brega que a Itália? É brega pra caramba. E são nobres, ao mesmo tempo têm as coisas mais chiques do mundo e as coisas mais cafonas do mundo. Por isso acho que essa música sertaneja de festa agrada muito a todo mundo, porque não tem muito tempo a perder com discussões. Se entrega. A entrega é muito importante, sabe?

PAS: E por que não poderia ser chamado de brega se vestir de determinada maneira para ir ver um concerto na Sala São Paulo, no seu clubinho?

GA: E você quer coisa mais brega que uma dupla sertaneja vestindo Armani, Versace? Né? É muito brega. Um Almir Sater, por exemplo, não é nada brega. É muito nobre, muito fino, e não usa Armani. Talvez os simplórios queiram ser aculturados, importantes, considerados articulados e cultos, e aí não depende da vontade, depende de ler mais. Acho esquisito o mundo hoje. Na boa, tenho um pé atrás, é um mundo que caminha pra um colapso dos recursos naturais.

PAS: Eu ousaria discordar de você e dizer que um mundo que une Guilherme Arantes e Mano Brown tem algo de muito interessante.

GA: É, é verdade. É verdade.

PAS: Devemos ficar de olho nessa afinidade, porque é muito significativa.

GA: Você tem razão, é verdade.

 

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