A segunda coluna na revista “Cult”, edição 138, de agosto de 2009.

Caminhando contra o vento, like a rolling stone

A história não costuma ser gentil com os artistas
que optam por fazer da música uma ferramenta de engajamento

Pedro Alexandre Sanches

Em 1965, o norte-americano Bob Dylan apresentou-se ao público do festival de folk de Newport munido de guitarra e eletricidade. Se um ano antes fora recebido no mesmo festival como porta-voz e consciência de uma geração politizada, agora as vaias se abatiam sobre ele enquanto cantava, elétrico, que não queria mais trabalhar na fazenda (“Meggie’s farm”) e se sentia sem casa, ao desabrigo (“Like a rolling stone”). Para o público que acompanhara a ascensão do jovem cantor, parecia estar em curso uma traição ao folk de protesto que o fizera florescer.

Em 1968, as vaias derrotaram o brasileiro Caetano Veloso no 3º Festival Internacional da Canção Popular (FIC). Como já acontecera no ano anterior com “Alegria alegria”, guitarras roqueiras lhe faziam cama, desta vez aos gritos de “eu digo não ao não” (“É proibido proibir”). A hostilidade abafou a canção e culminou num longo diálogo surdo entre as vaias da plateia e o indignado discurso de reação do artista. Nervosíssimo, ele comparou o público estudantil, supostamente de esquerda, aos direitistas espancadores do Comando de Caça aos Comunistas.

Cada um à sua maneira, Dylan e Veloso cresciam artisticamente num curioso estado de guerra contra grande parcela de seus admiradores e/ou consumidores. Jovens saíam das apresentações de Bob aos gritos de “idiota”, “falso” e “neurótico” – mas continuavam lotando seus shows.

Em Newport 1965, Dylan teve como inusitado antagonista um de seus antecessores musicais, o cantor e compositor de folk Pete Seeger. Versões desencontradas são unânimes em testemunhar a fúria de Seeger contra Dylan nos bastidores; segundo uma delas, o autor do folk de protesto “If I had a hammer” (1949) tentara eliminar a distorção do som do pupilo com o auxílio de um machado. Na turnê que deu prosseguimento à ruptura de Newport, Dylan conviveu diuturnamente com os apupos da plateia e a animosidade cobradora da imprensa.

No Brasil, a guerra contra as guitarras esquentara um ano antes do episódio de “É proibido proibir”. A TV Record preparava um novo programa dedicado à música popular brasileira – ou MPB – que se chamaria Frente única e tinha como principais entusiastas Geraldo Vandré e Elis Regina. Sob a “ameaça” da inconsequência roqueira da jovem guarda, forjou-se um ato público em defesa da MPB, a até hoje célebre “passeata contra as guitarras”. Marcharam Elis, Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Jair Rodrigues e um Gilberto Gil pré-tropicalista. Caetano e Nara Leão recusaram-se a participar e assistiram a distância.

Uma comparação entre a MPB norte-americana e a folk music brasileira poderia apontar para a constatação de que, embora o antiamericanismo fosse questão de honra para os puristas brasileiros, os embates ideológicos e os ânimos exaltados daqui não significaram muito mais que a reprodução de batalhas já travadas ao norte da América. Mas não é exatamente disso que este texto quer tratar. Façamos mais um paralelo.

A herança de Dylan e Caetano

O folk nunca mais foi o mesmo depois de Bob Dylan. Representantes da esquerda na música popular de lá, artistas como Joan Baez (sua parceira e/ou namorada à época), Odetta e Pete Seeger mantiveram-se politicamente ativos, mas encolheram consideravelmente suas presenças no cenário musical. Há pouco, Seeger reapareceu diante de uma gigantesca plateia, trazido pelas mãos do discípulo roqueiro Bruce Springsteen. Juntos, cantaram folks de protesto na cerimônia de posse do democrata Barack Obama.

No Brasil, ao menos três ícones identificados naquele momento com a canção de protesto seguiram adiante a todo vapor: Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia. Em tempos próprios e por atalhos diversos, todos aplacaram a veia do protesto, como também fez Nara Leão a partir da adesão transitória à tropicália. Milton Nascimento manteve-se à parte, embora flertasse e continuasse flertando com o protesto e com o folk à brasileira.

Entre os mais afetados pela convulsão tropicalista, há todo um elenco de artistas engajados da era dos festivais: Vandré, Edu Lobo, Marília Medalha, Sidney Miller, MPB 4, Sérgio Ricardo, Taiguara, Tuca, Gonzaguinha, Grupo Manifesto, Maranhão, Cesar Costa Filho… O bravo Sérgio Ricardo, pertencente à linha purista (e acústica), desestruturou-se pelas vaias antes de Caetano: desistiu de seu “Beto bom de bola”, chamou os espectadores de “animais” e quebrou o violão no palco, no festival de 1967.

É forçoso reconhecer que a história brasileira não foi gentil com seus cantores mais politizados e ortodoxos (de esquerda): após a síntese tropicalista, sua arte se converteu em antiquada e passou a ser compreendida como fora de moda à luz das novas convenções. Autor do hino “Pra não dizer que não falei de flores” (1968), Vandré renunciou à música, e longe dela se conserva até este momento (ao menos diante do olho público). A morte precoce foi o destino de uma quantidade desconcertante de artistas que passaram pelo protesto: Elis, Nara, Sidney Miller, Taiguara, Tuca, Gonzaguinha, Maranhão…

Se nos Estados Unidos o rolo compressor dos mercados despolitizou a música e deixou à míngua polarizações direita/esquerda, aqui a mensagem foi mais cruel. Por décadas aprendemos a entender que arte engajada era não só “chata”, como passível de punição, por vezes à pena capital (com ou sem trocadilho, a gosto do freguês). Sob a rotulação de “panfletários”, foram anulados (e se autoanularam) artistas como Sérgio Ricardo, num processo ironicamente semelhante ao que segregou a tal MPB, num centro de poder e prestígio, de sambistas, “cafonas”, “alienados”, Wilson Simonal & outros marginalizados.

Conclusões erráticas e sujeitas ao erro podem se tirar de tais fábulas. Uma possível é que, da arena sangrenta, saíram vitoriosos homens como Bob Dylan e Caetano Veloso, situados nalgum lugar indeterminado entre os clássicos polos ideológicos, conquistadores da sobrevivência artística e mercadológica, em muitos momentos à custa do enfrentamento frontal com público, crítica e quem mais chegasse. A vaia, no caso deles, foi nutriente crucial para a permanência.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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