
A fundação francesa de São Luís continua sendo celebrada a cada 8 de setembro no calendário oficial da cidade, apesar de contestada por intelectuais como a professora, escritora e historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, autora de “A fundação francesa de São Luís e seus mitos” (2002).
Uma refundação estética foi a proposta do ótimo show do saxofonista francês (atualmente radicado na capital maranhense) Benoît Crauste, à frente do Upaon Jazz Quinteto — grupo que se completa com Pedro Henrique (trompete), Carlos Ernane (guitarra), Joares Miranda (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria).
Benoît abriu sua apresentação tocando um ferro. Brinquei com o colega Marcus Saldanha, que assistia o show a meu lado: “mal chegou a São Luís e já é macumbeiro”, comentei, a la Luiz Antonio Simas, longe de qualquer preconceito contra terreiros e religiões de matriz africana, preciso dizer, num tempo em que, infelizmente, o óbvio precisa ser dito.
Para o ótimo público presente ao Convento das Mercês na última quinta-feira (29), na segunda noite do circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, um passeio elegante e competente por obras de nomes como João Donato (1934-2023), Tom Jobim (1927-1994), Toninho Horta e Filó Machado, entre outros.
“Eu sou francês de passaporte, mas meu voto é pelo Brasil”, afirmou o bandleader em meio aos aplausos da plateia, ainda fazendo alusão à recente reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato presidencial no Brasil, ao tempo em que sua França natal enfrenta protestos contra as reduções de direitos sociais.
“Vocês têm sorte de ter uma cultura tão rica, tão profunda, tão plural. Foi Isaías Alves quem me recomendou beber na fonte do Boi da Floresta”, elogiou o baterista maranhense que cruzou o Atlântico no sentido inverso e hoje está radicado na terra de Benoît, que após a afirmação, trocou momentaneamente seu saxofone por um par de matracas (o trompetista fez o mesmo com um pandeirão), erigindo a ponte entre o jazz e o bumba meu boi — ambos expressões negras e da cultura popular em seus locais de origem —, ampliando o diálogo musical proposto desde o nome com que escolheram batizar o grupo, formado há cerca de um ano, e desde então se apresentando na noite ludovicense. “Há mais ecologia na Floresta que numa COP-30, por exemplo”, comentou ainda Benoît.
O músico é discípulo de nomes como Hermeto Pascoal (1936-2025) e já tocou com nomes como Itiberê Zwarg, o lendário contrabaixista que foi sideman do Campeão por cinco décadas, tendo deles herdado a liberdade absoluta no palco e a enorme capacidade de improvisação.
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Veja um trecho de “Beijo partido” (Toninho Horta), com o Upaon Jazz Quinteto, durante sua apresentação no Lençóis Jazz e Blues Festival 2026:
Serviço: A programação do Lençóis Jazz e Blues Festival (acesse completa aqui) continua hoje (31) e amanhã (1º. de novembro), no Circuito Barreirinhas do evento, na Avenida Beira-Rio, com apresentações gratuitas.
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