BRASÍLIA/DF — Já se vão mais de 10 anos que entrevisto Tatá Aeroplano e escrevo sobre seus discos. É um dos artistas mais interessantes de sua geração e da música brasileira em atividade hoje. Ontem (5) foi dia de vê-lo ao vivo no Infinu, em Brasília/DF, acompanhado apenas de seu violão, no show “Andarilho urbano”, demonstração inequívoca de sua versatilidade: o artista pode viajar e se apresentar com banda, no formato voz e violão ou como dj. Foi assim, aliás, que costurou esta viagem ao Planalto Central: o dj havia tocado duas noites antes no Sesi Lab, na capital federal, e na véspera, em Goiânia/GO.
Tatá começou pelo Cérebro Eletrônico, banda do começo da carreira. “Pareço moderno”, maior hit do grupo, foi o abre alas, seguida de “O fabuloso destino do chapeleiro louco” (Tatá Aeroplano, Fernando Maranho e Gustavo Souza), com sua “inspiração às avessas” de “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, filme de Jean-Pierre Jeunet, que seria lançado no Brasil seis meses após a canção ser composta, inspirada em um duende que circulou pela casa de vários amigos (“até hoje está na casa de um”), inclusive a de Tatá — “vou pedir que ele volte para mais uma temporada”.
Um pequeno ajuste no pedestal fez com que o microfone parasse de descer e garantiu conforto para o artista continuar sua apresentação, entre as músicas que cantou e as histórias que contou, de contextos e processos criativos. O público era pequeno, mas atento: ria de algumas histórias, interagia, aplaudia e cantava junto em alguns momentos.
Tatá lembrou-se de sua amizade com o gaúcho Flávio Basso (1968-2015), mais conhecido como Júpiter Maçã (ou Júpiter Apple), artista referencial para ele, com quem chegou a dividir o palco — tem um show inteiramente dedicado a seu repertório. “Eu compus essa música em 2001 e levei 20 anos para gravar. Foi ele quem achou que o arranjo da banda poderia não traduzir bem o que eu estava querendo dizer e me aconselhou a deixar a canção amadurecer”, comentou antes de cantar “Trinta anos essa noite”. De Júpiter cantou “Beatle George”. Além desta, “Ressurreições” (Jorge Mautner), “Balada da arrasada” (Angela Ro Ro) e “Eu quero é botar meu bloco na rua” (Sérgio Sampaio) foram as únicas não autorais do roteiro, que teve ainda “Eu Inezito” (em que emulou a participação especial de Frito Sampler, seu alter-ego artístico), “Step psicodélico”, “Cama” (do tempo do Cérebro Eletrônico, regravada por ele na carreira solo) e “Night purpurina”, inspirada em uma garota que queria ser Amy Winehouse (1983-2011), citada na letra, e nunca conseguia ver o show principal de uma balada que Tatá abria com sua discotecagem porque sempre bebia demais.
Tatá já havia anunciado que ia fazer as saideiras e o show se encerraria com a marcha rancho do capixaba, que ele havia acabado de cantar. Entre os gritos de “mais um!”, cerca de meia dúzia de pessoas pediu “Deusa de 67”, inclusive minha companheira (e este resenhista, admito). “Essa eu não consigo, eu me emociono toda vez que canto e começo a chorar”, revelou. “Eu vou cantar uma que eu cantei no começo do show, quem estava aqui ouviu e vai ouvir de novo, que cita o Sérgio Sampaio”, anunciou, antes de bisar “Pareço moderno”.
Um conceito de Tatá Aeroplano de que gosto bastante é o de pequeno agricultor familiar da música brasileira, que ele usa para se referir ao próprio trabalho e à cena independente de modo geral: uma produção (musical) quase artesanal, em pequena escala, mas realizada de modo orgânico. À direita do palco uma banquinha exibia seus trabalhos mais recentes, em vinil e cd, e perucas do Frito Sampler. Tatá autografou três cds para Zema e Diana e completamos nossa coleção, para muito além de souvenires de mais um belo show que vimos juntos para a memorável galeria dos afetos.

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