Abordando as crises éticas do jornalismo (o sucateamento e aviltamento profissional dos veículos de comunicação e a substituição de empregos por IAs) e da moda (a decadência e o fim do poder fashionista, as denúncias de trabalho escravo), O Diabo Veste Prada 2, que estreou essa semana nos cinemas, é uma rara sequência, 20 anos após o primeiro filme, que chega a se equiparar ao original. E, muito possivelmente, superá-lo. E isso se dá, basicamente, pelo trabalho de atuação, pelas interpretações magistrais dos mesmos atores de 20 anos atrás: Meryl Streep (Miranda Priestly), Anne Hathaway (Andy Sachs), Emily Blunt (Emily) e Stanley Tucci (Nigel).

Parecia impossível fazer uma sequência de O Diabo Veste Prada. Isso porque o cerne da ação de duas décadas atrás era a personalidade assediadora de Miranda, que manipulava e humilhava subordinados, além de submetê-los a condições escorchantes de trabalho – e fazia isso com estilo, o que lhe dava atenuantes. Mas isso, hoje em dia, dá cadeia. Como reciclar o personagem sem torná-lo objeto de cancelamento imediato? Outro problema é que o glamour está em baixa. Não há mais Giseles, quase não há mais revistas de moda, árbitros divinais do bom gosto entraram em declínio e o dinheiro migrou para a indústria de influencers e conteúdos patrocinados.

O mesmo diretor do primeiro filme, David Frankel, resolveu incorporar não apenas as críticas que a posteridade trouxe ao filme, mas também investe numa certa humanização de Miranda. Pode parecer traição aos antigos espectadores, mas não é: ela persiste resistindo ao politicamente correto, tem de ser educada meio na marra. O que antes era resistência, em Andy, se transmuta agora em idolatria. A antiga estagiária até se aflije ao ver Miranda sendo aconselhada, em uma reunião, a evitar gordofobia ao se referir a modelos (e ter de dizer “overweight”) ou xenofobia ao falar de asiáticos. Andy se angustia ao presenciar a grande rainha da moda tendo de se acomodar na classe econômica de uma aeronave após uma blitz de enxugamento de gastos da sua revista. Andy vira, no novo glossário das redes, um tipo de “pobre de direita”. Mas suas motivações vêm e vão. Há muitos insights interessantes. Um especulador da construção civil pode causar mais dano à sociedade do que o aviltamento do jornalismo? É o que pergunta Andy ao seu novo namorado, o empreiteiro Peter (Patrick Brammall). O filme também resvala na noção de relevância (em oposição à massificação), quando a poderosa Sasha Barnes (Lucy Liu) revela que os únicos artigos que realmente lia na revista Runway eram os que tinham os menores índices de audiência.

Os “cameos”, ou aparições especiais de personalidades, fazem a festa nas salas de exibição, de jogadores de basquete da NBA a golfistas, de ex-modelos a estilistas. Fazendo o papel de si mesmas, destacam-se Lady Gaga e Donatella Versace. O filme recoloca em evidência as grandes festas fashion, o luxo dos bastidores, as locações mirabolantes. E mesmo essas festas não são alheias ao roteiro: o ponto alto da trama é ambientado no convento dominicado de Santa Maria delle Grazie, em Milão, Itália, com os convidados tendo logo acima de suas cabeças a tela A Última Ceia (Il Cenacolo ou Cenacolo Vinciano), de Leonardo da Vinci, de 1495. É o momento em que Miranda descobre que seu império, após uma intervenção desastrada de suas discípulas, vai ruir, e a tela de Da Vinci mostra a reação dos apóstolos ao anúncio de Jesus sobre a traição. “Um de vós me trairá”, previu Jesus.

O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!

QUERO APOIAR

A cena inicial de Prada 2 é familiar a qualquer jornalista em atividade há, pelo menos, uma década. Andy, que percorreu uma carreira de retidão ética e apego à paixão da notícia, está recebendo prêmios de excelência jornalística em uma cerimônia. Por mensagem, ela e toda sua equipe são informados que acabam de ser demitidos, o jornal em que trabalham alega enxugamento de custos. As opções que restam são poucas e não pagam as contas, como salienta Andy. Ao final, há uma mensagem conformista, a de que somente um bom (ou boa) milionário (a) poderá nos redimir das ações dos bilionários abilolados que constroem foguetes para fazer turismo espacial. Mas, afinal, é Hollywood, é entretenimento, e eles de fato acreditam em bons bilionários. O fim do mundo segue firme no retrovisor, mas ao menos as noções “congênitas” de glamour, luxo, bom-gosto e arrogância ainda podem render um bom filme.

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome