O cantor e compositor Juliano Gauche - foto: Haroldo Saboia/ divulgação
O cantor e compositor Juliano Gauche - foto: Haroldo Saboia/ divulgação

Depois de integrar a banda Solana e um projeto com o Duo Zebedeu (os violonistas Fábio do Carmo e Julio Santos) dedicado ao repertório de Sérgio Sampaio (1947-1994), o mineiro-capixaba Juliano Gauche teve sua estreia solo com um álbum homônimo em 2013. De lá para cá vem se firmando como um dos artistas mais interessantes de sua geração.

"A balada do bicho de luz" - capa/ reprodução
“A balada do bicho de luz” – capa/ reprodução

Disponibilizado hoje nas plataformas de streaming, “A balada do bicho de luz” é permeado de dualidades — vida e morte, bem e mal, Jesus e belzebu, lucidez e loucura etc. — com sonoridade que alia rock, pós-punk, grunge, folk e psicodelia (evocada para além do som, em sua imagem colorida e fragmentada na capa do álbum), entre outros.

O ofício de cantar (com ou sem autoironia) permeia todo o novo trabalho. “Terça-feira eu vou voltar a ser outro cantor/ muito mais bonito/ desses de TV/ mas todo mundo sabe que eu sou quente”, canta em “Como o vulcão que forja o anel que dá o poder de toda luz”, faixa que abre o disco.

Em “Quem já comeu o Nietzsche sabe”, a faixa seguinte, diz: “que deus/ eu já saquei/ fica todo dourado/ quando alguém acerta o alvo/ e o alvo reza/ pro deus dourado/ cantando enquanto morre de amor”. Ou “eu gosto mesmo é de ver o silêncio indo embora” (em “Vermelha de coragem”). E ainda “vai morrer quem não cantar” (em “O mal de quem quer muito andar”).

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Juliano Gauche (composições, voz, guitarra, violão e programação) é escoltado por Victor Bluhm (bateria) e Klaus Sena (baixo, guitarra e violão), que divide a produção do álbum com Gauche. “A balada do bicho de luz” conta ainda com participações especiais de Julia Valiengo (da Trupe Chá de Boldo) em “Vermelha de coragem”, Fernando Catatau (Cidadão Instigado) em “O mal de quem quer muito andar”, e Tatá Aeroplano em “Quarenta dias no deserto”.

Quem ler (sem ouvir) títulos como “Jesus Cristo x belzebu” ou a citada “Quarenta dias no deserto” pode pensar em uma guinada gospel de Gauche, como um Bob Dylan oitentista. Ledo engano: o artista subverte e provoca. Na primeira, o filho de Deus aparece literalmente açoitando belzebu, num recado explícito a quem se vale da fé alheia nesse mercado milionário (em mais uma faixa em que “cantar parece com não morrer”): “e todo mundo cantava pra esquecer/ a tal tristeza que nunca passava/ e só mandava derrubar todos os filhos de deus/ com o cão no coração”. Oscar Wilde (1854-1900) dizia que a única maneira de se livrar de uma tentação é rendendo-se a ela e este é o convite da segunda: “dentro do seu coração/ havia um jardim/ mas acabou/ amém/ no deserto/ a ouvir/ tentações/ é só querer”.

Todas as composições são assinadas solitariamente por Juliano Gauche. Onírica e de letra quilométrica, a faixa-título encerra o repertório do álbum, entre imagens hilariantes, etílicas, autorreferentes (o músico enquanto cronista, sem qualquer pedantismo), “a arte transcendental do tai chi chuan”, alienígenas, a impossibilidade de “olhar pro céu/ toda noite/ sem me/ emocionar”, a necessidade “de um pouco mais de rock’n roll” e em meio a tudo isso sua bonita mensagem de amor.

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Ouça “A balada do bicho de luz”:

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