A Praça dos Catraieiros, na Praia Grande, com a Casa do Maranhão à direita, vista do barco
A Praça dos Catraieiros, na Praia Grande, com a Casa do Maranhão à direita, vista do barco

FOTOS: GUTA AMABILE

Que São Luís é considerada a capital brasileira do reggae, a Jamaica brasileira, não é novidade para ninguém, nem mesmo para os detratores da alcunha. O Tropical Reggae Cruise, passeio de barco de cerca de três horas, com discotecagem de Ademar Danilo, é mais uma prova.

Antes de o sol se por, o dj Ademar Danilo prepara a recepção dos passageiros-regueiros
Antes de o sol se por, o dj Ademar Danilo prepara a recepção dos passageiros-regueiros

O jornalista e dj é um dos personagens centrais na cena reggae da ilha, tendo, desde pelo menos a década de 1980, apresentado programas de rádio, escrito em jornais e animado festas com um repertório que não se restringe à Jamaica, mas passeia por sonoridades de África, Brasil e Caribe, para quase citar o nome de um dos programas que apresentou. Não à toa, hoje, ele dirige o Museu do Reggae Maranhão, primeiro equipamento cultural do mundo dedicado ao gênero musical fora da Jamaica.

No Tropical Reggae Cruise, que já singra as águas da Baía de São Marcos e do Rio Anil, até a Barragem do Bacanga há mais de cinco anos, há toda uma ambiência favorável. Se o reggae por si só já é uma música que impele o ouvinte ao balanço, com o corpo atravessado pelas frequências, sobretudo do contrabaixo, imagine a experiência em um barco. Tudo parece ser potencializado.

Há tempos queria sentir o balanço do reggae no balanço das águas – sem risco de enjoos, aviso, a quem porventura temer se arriscar – e ontem (17), finalmente deu certo. É uma experiência sui generis. Nada do que o repórter escreva aqui substitui vivê-la. Aliás, se este texto despertar no leitor a vontade de embarcar, já terá valido a pena escrevê-lo.

Logo ao adentrar o Califa I, enquanto o anfitrião dava as boas vindas aos passageiros-regueiros, uma revoada de andorinhas animou a paisagem. “Louvação a São Luís”, hino da cidade, música do poeta Bandeira Tribuzi, uma das pontes sob as quais passamos ao longo do roteiro, tocada em ritmo de reggae, tem o poema declamado por Ademar Danilo, que gaba-se de a pérola ser sua exclusividade: “essa tu só ouves aqui, por que só tem aqui, eu paguei para fazer esse arranjo”, revela.

O Palácio dos Leões
O Palácio dos Leões

Saímos da Ponta d’Areia, o barco segue margeando o espigão costeiro, até dar meia volta. Logo a noite cai e Ademar é um misto de dj e guia turístico – esqueci de dizer, lá em cima, que ele, depois de iniciar Direito e concluir Comunicação Social, voltou à faculdade e hoje cursa Turismo, na Universidade Federal do Maranhão –, com vasto conhecimento sobre São Luís, particularmente as paisagens que avistamos de dentro do barco, e a cultura reggae.

No capítulo “melô”, por exemplo, ele comenta o mistério, até hoje indecifrado, de como o reggae penetrou de tal maneira na cultura maranhense, há cerca de 50 anos, pelo menos. Uns falam em frequências de rádios caribenhas sendo ouvidas por aqui, outros creem que marinheiros deixavam discos trazidos em viagens em troca de um pouco de prazer na zona do baixo meretrício.

O fato é que, num estado, à época, com elevados índices de analfabetismo, onde parcela muito pequena da população fala/va outra língua, os djs e donos de radiolas começaram a apelidar músicas gringas com expressões em português que pareciam com as cantadas em inglês, mas com significado completamente distinto.

Bons exemplos disto são duas pérolas do repertório da noite – que foi de melôs a reggae francês, africano, brasileiro, afoxé, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, merengue e algo que talvez me escape à memória: o “Melô do caranguejo”, cujo refrão aportuguesado vira “olha o caranguejo!”, quando o original diz “white witch gonna get ya”, ou seja, “a bruxa branca vai te pegar”; e o próprio “Melô do Ademar”: a letra original diz que “some of them are wolves” (“alguns deles são lobos”) e o maranhense “traduziu” como “chama Ademar, uh!”. Talvez Lloyd Parks tenha noção do sucesso que faz por aqui; já a americana Andrea True (1943-2011), falecida em Kingston, certamente não: atriz pornô e cantora de disco music, “White witch” é um ponto fora da curva em sua carreira.

Por falar em curvas, entre algumas que o barco faz, triste ver o volume de lixo no Rio Anil: embalagens plásticas de todos os tamanhos e produtos: garrafas pet, embalagens de iogurte e água sanitária e toda sorte de resíduo plástico – foi o único momento baixo astral ao longo da rota, embora não me surpreenda.

O barco margeia as avenidas Ferreira Gullar e Quarto Centenário, além do Estaleiro Escola Luiz Phelipe Andrès e é muito interessante e emocionante ver uma São Luís do avesso, de um ângulo a que não estamos acostumados.

Há uma série de fatores que precisam ser conjugados para a realização do passeio, entre os quais noite de lua e maré cheias. Interessados/as podem seguir o perfil do Reggae Cruise ou do dj que comanda o baile, no instagram; uma experiência enriquecedora para o currículo afetivo-histórico-musical. Se Ademar Danilo não tivesse dado nenhuma contribuição à cena reggae maranhense, a invenção deste salão de reggae sobre as águas estaria de bom tamanho.

*A reportagem embarcou a convite da produção do evento.

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