
O carro da polícia parou, o policial viu as duas mulheres assentando tijolos de barro na Avenida Faria Lima e perguntou:
– Vocês vão construir uma casa aí?
O policial esteve bem perto de acertar. A artista visual baiana Rose Afefé, de 35 anos, já construiu bem mais do que uma casa na Chapada Diamantina, na Bahia. Construiu uma cidade inteira, a Terra Afefé, uma comunidade alternativa cuja proposta de vida coletiva começa já no primeiro tijolo.
Mas agora é uma edificação somente simbólica que ela está construindo no território dominado pelos célebres farialimers, entre bancos monumentais e bancos falimentares. A estrutura, feita com tijolos adobe ali mesmo no canteiro central da avenida, em um local que representa condignamente a voracidade imobiliária paulistana – a um km dali, por exemplo, ergue-se em aço e concreto em um terreno de 3,5 mil m2, onde três vilas foram demolidas, uma profusão de “studios” de claustrofóbicos 25 ou 49 m2, na melhor das hipóteses. Não pode haver um contraponto maior: o tijolo adobe é feito artesanalmente, com terra crua, água e palha ou esterco, moldado e seco ao sol, sem queimar.
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QUERO APOIARRose Afefé nasceu no interior da Bahia, em Varzedo, uma cidade de 10 mil pessoas. Inspirada na ideia de harmonia que experimentou na infância, ela começou a projetar uma vila que recuperasse aquela sensação de vida, ao mesmo tempo em que iniciou uma pesquisa de materiais, de recursos sustentáveis. Ela citou o poeta Manoel de Barros para materializar a ideia que moveu na construção da Terra Afefé: “Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre as pedras: liberdade caça jeito”.
Agachada no vão da Faria Lima na tarde de segunda-feira, entre o trânsito voraz da pauliceia, fazendo a massa, amassando barro e secando tijolos (ao lado da amiga Thamú Pèrégùn), ela diz que a ideia ali é mais simbólica, para despertar talvez a reflexão sobre os fundamentos da ideia de habitação, do morar, do viver em sintonia com os recursos que o mundo oferece. “Houve um tempo em que as casas de São Paulo também eram feitas assim”, ela disse.
Rose Afefé transformou o próprio ato de morar em arte. “Enquanto obra viva, ela (a Terra Afefé) transforma o dia a dia em espaço de elaboração de práticas e reflexões sobre a arte e tudo o que atravessa o território”, ela explicou. “Desde o plantio e a autogestão dos afazeres cotidianos até a relação com a produção, não apenas de obras, mas também de conversas e brincadeiras entre espaço e gente, tudo faz parte de um mesmo campo de criação”.
A Terra Afefé fica no município de Ibicoara (sudoeste da Chapada Diamantina), refúgio de ecoturismo a cerca de 470 km de Salvador.
Mas como é que a artista que fez uma cidade com as próprias mãos veio amassar o barro aqui nessa féerie maluca no coração de São Paulo? Enquanto alguns financistas do pedaço amassam as regras da economia, Rose ergue ali paredes sólidas, “tijolo com tijolo num desenho mágico”.
Rose Afefé é uma/um do(a)s 50 artistas convidada(os) para participar da mostra coletiva ABERTO, que está em sua quinta edição e retorna a São Paulo entre os dias 8 de março e 31 de maio para promover a abertura da mítica e psicodélica Casa Bola, residência em forma de bola projetada e construída pelo arquiteto Eduardo Longo entre 1974 e 1979, em busca de um futuro que virou saudade. A Casa Bola (Rua Amauri, 352; esquina com a Rua Peruíbe), que tem cerca de mil metros quadrados e três pavimentos, será aberta ao público pela primeira vez. A exposição reúne aproximadamente 60 obras de arte e design de mais de 50 artistas. A curadoria é de Assis, Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli.
Em edições anteriores, a mostra ocupou imóveis projetados por expoentes da arquitetura e das artes, como Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira. Longo é homenageado em vida. Em paralelo à mostra que será instalada dentro da Casa Bola, a ideia é avançar para além do espaço privado com a mostra ABERTO Rua, para a qual Rose foi convidada. São 15 intervenções artísticas que o público vai encontrar na região da Avenida Faria Lima, distribuídas no trecho entre a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e a Rua Adolfo Tabacow.





