Eliete Negreiros
Eliete Negreiros - foto Marcos Santos/USP Imagens

Que a música brasileira é uma das mais fertéis e sofisticadas do planeta, não resta dúvidas. Por vezes, a música popular brasileira — e a sigla que dela adveio a partir da explosão dos festivais em voga principalmente nas décadas de 1960 e 70, mas não só — tangencia a música erudita, a demonstrar que é no atrito que ela permanentemente se enriquece, para além dos discursos saudosistas e pessimistas de alguns.

Por outro lado, o P do meio da sigla MPB há tempos parece não se traduzir na prática, como se a música popular brasileira fosse coisa para uma elite de iniciados e/ou aficionados, e o que é realmente popular, que arrasta multidões e toca ad nauseam no rádio e na televisão, fosse outra coisa, em sua grande maioria jingles estendidos querendo vender algum produto, de bebidas a carros, não raro se valendo de um discurso misógino, entre outros, em letras que já não exigem sequer a perspicácia do ouvinte para perceber e entender um duplo sentido, como era voga principalmente na década de 1980.

Mas tergiverso e soo saudosista. Além de fértil e sofisticada, como eu ia dizendo, a música brasileira também se encontra numa encruzilhada: é alegre ou triste? — e estar na primeira categoria parece ser condição sine qua non para fazer sucesso hoje. Referindo-se ao povo brasileiro — que afinal de contas faz sua música e é, em certa medida sua extensão — e ao próprio país, o antropólogo Hermano Vianna se pergunta sobre essa dubiedade, no texto de quarta capa e orelhas em que nos introduz à leitura de “Nelson Cavaquinho & Cartola & Carlos Caçhaça: caminho da existência” (Edições Sesc São Paulo, 2025, 212 p.), novo livro de Eliete Eça Negreiros, nome fundamental para a música brasileira e sua compreensão.

Cantora com formação em filosofia, Eliete é autora de discos e livros imprescindíveis para quem quer se aprofundar nos temas. Sim, no plural: estamos diante de uma das mais competentes autoras quando o assunto é relacionar música e filosofia, tratando essa relação como uma extensão de si própria, cantora e pesquisadora que afinal de contas vive os meios musical/boêmio e acadêmico, sem que um exclua o outro, pelo contrário, garantindo interseções interessantes, sem preocupações com o tal distanciamento do objeto de estudo.

Diante de três dos melhores compositores/sambistas brasileiros em todos os tempos — Nelson Cavaquinho (1911-1986), Cartola (1908-1980) e Carlos Cachaça (1902-1999) — e a profundidade de temas por ele abordados em suas criações (existenciais) — o amor, a morte, o luto, o envelhecimento, a esperança e a desesperança, além do próprio ofício —, Eliete aborda a obra de cada um sob as luzes da filosofia, de autores que vão de Santo Agostinho (354-430) a Marilena Chauí, passando por Hannah Arendt (1906-1975), Simone de Beauvoir (1908-1986), Walter Benjamin (1892-1940), Sigmund Freud (1856-1939), Epicuro (341 a.C.-27 0a.C.) e Michel de Montaigne (1533-1592), entre outros.

Não é, necessariamente, ao contrário do que se possa imaginar, obra para iniciados — em filosofia ou música, particularmente samba, ou mesmo na obra dos autores —, podendo funcionar como bom cartão de visitas ao cancioneiro do trio, para os que vão ouvi-los pela primeira vez, e uma espécie de guia, a aguçar a percepção de quem já conhece.

Eliete ancora-se não apenas nos filósofos, mas também em sua própria experiência/trânsito e a delícia de seu texto, lindamente ilustrado por Cássio Loredano, é que ela não esconde a emoção ao abordar o assunto e costura o rigor da pesquisa com histórias deliciosas, entre bastidores e a criação de algumas das canções analisadas ao longo deste seu novo acerto.

Poema escrito em 1930 por Carlos Cachaça, “Caminho da existência” foi musicado por Délcio Carvalho (1939-2013) apenas muitas décadas depois, e foi o ponto de partida para Eliete Negreiros escrever seu ensaio.

A permanência da obra de Nelson Cavaquinho, Cartola e Carlos Cachaça se dá pela profundidade dos temas abordados pelos mangueirenses. Ao estudá-los, Eliete Negreiros dá importante contribuição para a preservação de seu legado. E dedica o livro a três nomes fundamentais para a cultura brasileira, também in memoriam: Danilo Santos de Miranda (1943-2023), ex-diretor regional do Sesc/SP, Maria Luiza Kfouri (1954-2023), que manteve o site Discos do Brasil, e João Carlos Botezelli, o Pelão (1942-2021), responsável pela gravação de discos de Cartola e Nelson Cavaquinho, preservando-lhes a autenticidade.

"Nelson Cavaquinho & Cartola & Carlos Cachaça: Caminho da existência" - capa/ reprodução
“Nelson Cavaquinho & Cartola & Carlos Cachaça: Caminho da existência” – capa/ reprodução
PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome