Nos 75 anos de sua atuação, o Sesc São Paulo tem passado 53 desses anos pilotados por um gestor cultural reverenciado não só no Brasil, mas também em todo o mundo. A cada vez que se vislumbra uma eleição presidencial no retrovisor, os olhos dos partidos políticos de todas as esferas voltam-se novamente para o nome do fluminense de Campos de Goytacazes Danilo dos Santos Miranda, de 78 anos, cortejado incessantemente pela volúpia política nas últimas décadas.

Sua ação nas 45 unidades operacionais do Sesc SP (20 somente na capital paulista, que deve ganhar outras três: Pirituba, Casa Verde e São Miguel Paulista) é exemplar, atendendo 30 milhões de pessoas a cada ano e “exportando”  know-how – aproximadamente 50 organizações nacionais e internacionais nas áreas de artes, esportes, cultura, saúde, meio ambiente, turismo, serviço social e direitos humanos contam com representantes do Sesc São Paulo em suas instâncias consultivas e deliberativas. O segredo do Sesc é conjugar uma atuação de ponta na programação cultural em consonância com lazer e entretenimento, além de ações no meio ambiente, cuidados com saúde, atendimento odontológico, turismo social, alimentação e segurança alimentar, inclusão, diversidade e cidadania.

Ainda assim, Danilo reporta, em entrevista exclusiva a Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches, editores de FAROFAFÁ, que não passou nem sequer um dos 53 anos de sua condução no Sesc sem que aparecesse uma ameaça de extinção desse sistema que é uma ilha de excelência na cultura. Nem por isso ele deixa de reconhecer que o Serviço Social do Comércio ocupa um espaço peculiar no cenário cultural local. A confusão brasileira entre público e privado está na essência da existência do Sesc, como o próprio dirigente reconhece: “Esta instituição é controversa. É dinheiro que vem das empresas administrado pelos empresários e pelos representantes de empresários, com controle público e benefício para a comunidade e para aos trabalhadores. É peculiar, uma coisa bem jabuticaba, bem brasileira. É, porque isso não existe em outras partes do mundo. Para alguns causa inveja, para outros causa um certo desejo de aniquilar, de acabar com isso: isso não existe, não é possível. É Estado ou não é Estado?”.

Fazendo um balanço do período de pandemia, o gestor avalia que o acirramento político deve se manter e aumentar: “Tem um clima muito acentuado de desconsideração pelo outro. Por outro lado, a pandemia promove um clima de aproximação das pessoas, por incrível que pareça”. Para ele, a corrente negacionista em relação à covid-19 tem como principal objetivo manter elevada a violência política. Leia abaixo a entrevista.

Jotabê Medeiros: Completaremos dois anos de pandemia em breve. O Sesc SP foi uma das instituições que se destacaram nessa circunstância difícil, com uma programação ativa. O que muda na filosofia do Sesc de agora em diante?

Danilo Santos de Miranda: O desenvolvimento da nossa capacidade de utilização da tecnologia no bojo da imagem digital, das ações virtuais etc. é um grande ensinamento. Também deve ser considerada a nossa convivência com as pessoas no dia a dia aqui dentro, esse foi um dado muito importante, necessário, e que agora a gente está descobrindo que foi muito útil. Não substitui plenamente o presencial, claro, nós sabemos perfeitamente que é importante que o presencial retorne, nós queremos que volte, mas hoje sabemos usar melhor também o virtual, à distância. A gente está desenvolvendo muitas ações para ter o retorno do presencial. É o que a gente deseja fazer, o contato direto é indispensável. O espetáculo musical ainda passa um pouco, mas o teatro é indiscutível, não é a mesma coisa, é indispensável que seja feito de maneira presencial. Então nós abrimos totalmente, fomos muito cuidadosos e continuamos sendo. Exigimos dupla vacinação para todos que entram no Sesc, com máscara o tempo todo lá dentro.

JM: Tem um embate grande agora no país sobre a necessidade do atestado de vacinação. A Bienal de São Paulo, por exemplo, foi obrigada a abolir o atestado, agora não está mais pedindo.

DSM: Obrigada por quem?

JM: Pelo governo, por uma portaria do Mário Frias.

DSM: Ah, sim, porque havia recursos do ministério, não?

JM: Exatamente. Todos os eventos grandes que têm recursos do governo federal.

DSM: Tem essa restrição porque eles são negacionistas totais. Nós não temos essa obrigação. Nós não temos financiamento da Lei Rouanet e mantemos as regras rigorosamente. Nosso conselho da direção regional é rigoroso nisso, não tem nenhuma chance. Quando começamos a reabrir nós exigíamos, lá atrás, uma dose pelo menos, no primeiro momento, quando não havia segunda dose para todo mundo ainda. Mário Frias, pelo que me consta, obrigou, mas se não me engano foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, não tenho certeza. Como não nos afetava, não entrei no mérito. Acho que isso não prosperou, não. Ficou uma coisa meio capenga, meio complicada, meio ambígua; no mesmo lugar, como o Theatro Municipal, tem hora que sim (exigência) e tem hora que não, dependendo se está ou não vinculado à Rouanet. Nós não temos diretamente, nem podemos ter, então esse problema não nos afetou. Continuamos mantendo a exigência da comprovação. Aprendemos esse cuidado muito grande com toda nossa clientela e com nossos funcionários, álcool gel para todo lado. Houve casos raríssimos de alguém não querer usar máscara, que somos obrigados a retirar, numa boa. Em relação à vacinação, são raríssimos casos de pessoas que vêm sem a segunda dose, nós até temos um esquema em uma UBS perto para a pessoa ir tomar a segunda dose, e eles vão, e voltam. Isso tem acontecido. O problema é absolutamente residual. Com funcionários a mesma coisa, problemas residuais estão sendo resolvidos caso a caso, tentando convencê-los, e em casos extremíssimos vamos ter que dispensar a pessoa.

JM: Há casos de negacionismo então no Sesc?

DSM: Há, há, somos 8 mil funcionários, sempre vai ter um caso aqui e ali. Mas não chegam a dez.

JM: Há quantos anos você está no Sesc, Danilo?

DSM: Entrei no Sesc como funcionário em 1968, portanto há 53 anos. Entrei no dia 1º de novembro de 1968, fui trabalhar no interior de São Paulo, um trabalho ligado à cultura, às relações humanas, vinculado às empresas. Era um trabalho itinerante, comecei em Bebedouro, depois fui parar em Barretos, Santa Fé do Sul, São José do Rio Preto, São Carlos, São José dos Campos, sempre passando 30, 40, 60 dias em cada lugar, fazendo trabalho local, dando cursos. Era o trabalho das unidades móveis que o Sesc tinha, um trabalho que formou muita gente. Entrei muito jovem, com 20 e poucos anos. Era muito tranquilo, foi uma coisa muito forte. Depois, em 1973, um diretor do Sesc assumiu a direção geral do Senac – são órgãos próximos, o presidente é o mesmo. Como diretor geral do Senac, ele convidou alguns do Sesc, e eu fui um deles. Fiquei durante um período no Senac, mas o conglomerado e o presidente eram os mesmos. Não saí do meu emprego praticamente, a minha carreira se manteve, era como se fosse uma continuidade. Não é nada, não é nada, fiquei no Senac durante 11 anos, de 1973 até 1984. Em 1984 mudou o presidente, e ele me convidou, no Senac, para ser o diretor-geral do Sesc. Lá fui eu voltando para o Sesc, já como diretor-geral.

Pedro Alexandre Sanches: O que você encontrou? Como era o Sesc que você pegou?

DSM: Olha, o Sesc já tinha, por exemplo, relações importantes que permanecem até hoje e que foram exemplares. Uma delas é o Sesc Pompeia, que é de 1983. Quando voltei já havia uma parte do Sesc Pompeia.

JM: Já nasceu com aquele conceito da Lina Bo Bardi?

DSM: Já nasceu, um conceito muito rigoroso, para ser algo para deixar marca. A gente não apenas herdou aquilo naquele momento como ampliou ao máximo, levou ao extremo, desenvolvendo a ideia do Sesc Pompeia enquanto novidade, elemento de ação cultural na cidade de São Paulo. Era o principal centro cultural, depois outros vieram, mas naquele momento era muito importante. Eu frequentava bastante como funcionário do Senac, e quando assumi só tinha praticamente duas grandes unidades, o Sesc Consolação, que na época era Sesc Dr. Vila Nova, com o Teatro Anchieta etc., e o Sesc Pompeia. Nós construímos na capital mais de 20 unidades. A diferença foi a valorização de determinadas linhas de trabalho, principalmente no campo da cultura, como se fosse uma marca efetiva da instituição. O Sesc São Paulo é muito reconhecido como tal no sistema todo, no Brasil inteiro, porque a partir dessa ação no Sesc Pompeia, do que foi desenvolvido ali, ganhou uma dimensão nacional e eu diria, sem nenhuma pretensão, até internacional.

JM: É interessante que os diferentes Sescs parecem ter vocações, o Sesc Consolação com o teatro, com Antunes Filho e teatro infantil, o Pompeia com uma provocação mais musical, o Belenzinho com mais entretenimento, entendendo mais um anseio da população dali talvez…

DSM: Você tem razão. A observação de fora às vezes é mais acurada, mas na realidade tenho sempre tenho uma ideia de um certo ecletismo nas unidades todas, e isso aparece. Nós temos as nossas unidades que chamo de campestres, unidades fora do centro, que são parques, onde a contemplação do verde e o bem-estar das pessoas para passar uma tarde ou um dia são muito frequentes. É muito diferente das unidades urbanas, ninguém pensa em fazer piquenique no Sesc 24 de Maio, não tem nem espaço para isso. É diferente de como é o Sesc Itaquera e poderão ser talvez o Sesc Pirituba e o Sesc Casa Verde, um bairro denso, populoso e popular, com três ou quatro escolas de samba, com população negra forte também. Pirituba vai ter uma área verde grande, na Casa Verde também, São Miguel Paulista nem tanto, a área que temos é um terreno bom, mas para ser ocupado inteiro. O verde lá vai ser menor, não vai ter um parque. Isso tudo ainda está em estudo. Então depende do lugar, mas, veja bem, a presença da cultura, onde um espaço de teatro e de show musical estão presentes, todas têm – Santana, Santo Amaro, Belenzinho, Pompeia. É importante para o próprio artista, já tive casos de artista que quer fazer show em tal lugar, na Pompeia, e às vezes ele só vai poder fazer daqui a quatro ou cinco anos, vai ter que esperar muito. Mas, se quiser fazer já, vai ter que fazer em Pinheiros, Belenzinho, Ipiranga, Santo Amaro, Bom Retiro, que são espaços maravilhosos. Os artistas vão e ficam encantados. Claro que é uma clientela diferente, com a qual o artista às vezes não está muito acostumado. Mas a gente procura quebrar um pouco esse paradigma, não procuramos valorizar em demasia uma só unidade, porque todas precisam de atenção e cuidado. A programação tem de ser igualitária a melhor possível em todo lugar. É uma questão delicada e permanente.

JM: De uns tempos para cá, não só no Brasil, há um recrudescimento de situações de intolerância, como o caso emblemático da palestra da Judith Butler. Primeiro ela foi hostilizada por um grupo de extremistas na frente do Sesc Pompeia e depois foi praticamente agredida no aeroporto de Congonhas. Como lidar com isso?

DSM: É delicado, né? Nós apoiamos uma ação para uma universidade ligada a discussões sobre democracia, não era uma coisa do Sesc. Judith Butler não veio falar de questões de gênero, veio falar de democracia. Ia ser na USP, mas o Sesc Pompeia era um lugar mais adequado. Claro, nós também tínhamos todo interesse em fazer. Creio que não foi a primeira vez que ela veio ao Brasil, um debate anterior sobre questões de gênero deu muita celeuma, tenho impressão até que houve uma reunião no Sesc Vila Mariana, promovida pela revista Cult, sobre questões ligadas a gênero e imprensa, se não me engano, e teve manifestação daquela entidade TFP (Tradição, Família e Propriedade) no tempo em que ainda existia, não sei se existe mais. Faziam algum barulho lá na porta, mas dessa vez a coisa foi mais organizada, não foi só ela que foi hostilizada, o presidente e eu também fomos. Queimaram um boneco, feito como um judas, como se fosse ela. Tinha cartazes pedindo minha deposição, um monte de coisa. Aquilo foi considerado realmente um ato dessa direita que não quer reconhecer a importância do debate sobre a questão de gênero. Trata-se de uma questão importante para a sociedade, que tem que ser discutida, mas ela não veio para isso, o assunto era democracia. Mas esse pessoal não queria saber, nessa hora a ignorância e o estranhamento são terríveis, e rapidamente juntaram algumas pessoas, uma coisa sem pé nem cabeça, não tinha o menor sentido. No Sesc tivemos algumas questões por outras razões, por causa das posições políticas de Judith. Ela é uma scholar, uma professora emérita nos Estados Unidos, judia, mas não muito reconhecida pela comunidade judaica por causa de posições suas com relação à questão judaica. Isso parece que causou algum estremecimento também por parte da comunidade judaica, julgando coisas que ela também não discutiu naquela ocasião. Ela já teve mais contato com o Brasil depois disso, também com alguma hostilização, mas naquela ocasião a gente deu toda segurança para ela, tinha gente cuidando o tempo que ela fosse bem recebida.

PAS: O Sesc tem uma ligação muito forte com a classe artística. Como os artistas se comportaram durante essa pandemia?

DSM: Num primeiro momento foi aquele pânico geral que se espalhou em todo mundo, e na classe artística em particular por muitas razões, pela falta de trabalho, de oportunidade, que ameaçou todo mundo, todas as linguagens. E, mais que os artistas diretamente, os que dão suporte à ação dos artistas: contra-regras, porteiros, vigilantes, a turma da limpeza, da organização, camareiros, todo o pessoal voltado para a infraestrutura do mundo artístico. A Lei Aldir Blanc, posteriormente, trouxe certo alívio, foi importante, usando recursos que estavam previstos na própria lei da área cultural e que não estavam sendo utilizados. Não entrou dinheiro novo, foi uma coisa que simplesmente não estava sendo utilizada e acabou sendo. Nós iniciamos imediatamente um processo forte de chamamento dos artistas de todas as áreas, até o teatro virtual, que era uma coisa nova. Tínhamos claro que era uma coisa nova, utilizando material dos artistas através do mecanismo de se apresentarem diretamente de suas residências. Isso foi muito bom, valeu para teatro e dança – para música já estavam ocorrendo as lives. Claro que não podia cobrir todo mundo o tempo todo, mas São Paulo foi uma tábua de salvação para muita gente. Tínhamos uma audiência razoável e uma interlocução muito grande com muita gente. Era um momento em que todo mundo estava muito agradecido pelas oportunidades dos artistas se apresentarem em casa. Imagina uma Elza Soares se apresentando junto com um rapper e conversando com as pessoas. Quando tínhamos condições, fomos buscar muita gente no Rio de Janeiro, na Bahia, em Minas Gerais, onde tinha condições para isso. Mas não fomos muito pelo Brasil todo, porque nem em todo lugar podíamos oferecer aquilo em condições razoáveis de mesa de luz, som, cuidados. Não era muito fácil e tranquilo chegar na casa levando equipamento para o artista se apresentar. Ainda era um momento de pânico muito forte, então essa convivência foi muito importante. Aí apareceram muitas outras entidades culturais, as mais variadas de São Paulo, fazendo atividades parecidas. Eu diria que essa lição foi mais que propriamente artística e estética, tem aí a questão da ligação com o público, a questão de criar um espírito adequado para enfrentar e dar condições às pessoas de manter níveis de saúde mental, coisa que não foi muito fácil. Cá entre nós, muitos enfrentaram muita dificuldade, situações as mais variadas, com mil exemplos. Muita gente sofreu muito nesse período. E esse é um trabalho nosso, a perspectiva da felicidade, de buscar o melhor possível para todos, é a essência da nossa proposta institucional. Cumprimos bem? Eu diria que em parte sim.

PAS: Você acredita que o pior já passou, seja em relação à pandemia ou ao extremismo político que se estabeleceu no Brasil?

DSM: Para a questão da pandemia, sim. O extremismo político ainda vai se acirrar, e muito, por uma razão muito simples: cada vez mais vão aparecer com clareza as posições das pessoas. A expectativa de mudança é que vai reger tudo isso, a expectativa de mudança para aqueles que precisam de mudança e a expectativa de não-mudança para aqueles que desejam manter as coisas. Vai se acirrar muito, do ponto de vista da chamada polarização, sabe Deus como, porque a gente já está vendo um acirramento, de uma maneira às vezes meio grosseira, direta e às vezes sutil. A maneira grosseira e direta são as palavras das pessoas que estão no poder falando o que falam, o que desejam falar, da maneira mais exacerbada e violenta. De maneira sutil, não é tão sutil, mas, enfim, em outras áreas a violência campeia, os direitos das pessoas acharem que está tudo liberado, que se pode invadir terra de índio, destruir o meio ambiente. Tem um clima muito acentuado de desconsideração pelo outro. Por outro lado, a pandemia promove um clima de aproximação das pessoas, por incrível que pareça. Por que esses que promulgam a violência combatem tanto os remédios contra a pandemia? Porque tudo isso significa de alguma forma um acirramento ainda maior da violência. Combater o negacionismo tem compromisso contra violência que está acontecendo neste país. Do meu ponto de vista de observador, tende a se acirrar e tudo isso só vai mudar quando houver uma mudança radical, que está aí na frente. Não prego necessariamente fulano ou sicrano assumir o poder, mas que tem que mudar, tem, porque continuar do jeito que está é uma ameaça grande para o país inteiro. Isso vai cair de podre, naturalmente, vai desaparecer. Mas vai demorar ainda até chegar a esse ponto. Minha visão, a curto prazo, não é otimista. Em médio e longo prazo começa a ficar um pouco mais otimista.

PAS: Nos seus 53 anos de Sesc, você diria que este é o momento mais violento?

DSM: Ah, é, não tenha dúvida. Com relação ao que nós fazemos é. Esta instituição é controversa. É dinheiro que vem das empresas administrado pelos empresários e pelos representantes de empresários, com controle público e benefício para a comunidade e para aos trabalhadores. É peculiar, uma coisa bem jabuticaba, bem brasileira. É, porque isso não existe em outras partes do mundo. Para alguns causa inveja, para outros causa um certo desejo de aniquilar, de acabar com isso: isso não existe, não é possível. É Estado ou não é Estado? O pensamento da organização mundial do neoliberalismo é bem maniqueísta, ou você é Estado ou você não é Estado. Você é Estado ou você é privado e acabou, essa coisa mista é uma invenção brasileira. Os recursos são obrigatórios, mas não são propriamente públicos, nesse sentido de que entra no erário, entra no recurso público. É um dinheiro recolhido, mas recolhido para uma finalidade, e é administrado por empresários que, neste nosso país, têm formação, digamos, eclética. Existem empresários e empresários e empresários e empresários, de todo tipo. Então isso causa um certo arrepio na cabeça das pessoas. É bem usado o dinheiro? Depende de como as coisas são feitas, o centro de governança é federativo, em cada estado é um. Nós não sabemos como é usado no Brasil todo, cada um não faz o mesmo. É delicado, e tem toda essa discussão em torno, causa arrepio. Para outros não causa arrepio. As empresas recolhem uma parte do que pagam para os funcionários para funcionar. Amplia esse valor, sobre o cálculo do valor a ser pago fora desse valor, portanto, para manter uma instituição em benefício dos trabalhadores. Essa é a essência. E, como os trabalhadores estão inseridos na comunidade, não é somente uma carteirinha do trabalhador para entrar no Sesc. Ele tem benefícios, vantagens, preferências, muitas vezes o associado entra na frente na fila. Nesses 53 anos que estou nesta instituição, em praticamente todos os anos havia ou há ameaças. Uma lei nova, querem auditar, dar determinadas atenções para tirar recursos daqui ou dali, aumentar formação profissional, botar dinheiro na área da saúde, criar outra entidade, tirar a tirania do Sesc, ampliar o serviço social. É tudo bem-intencionado, entre aspas, mas geralmente são jogadas de gente voltada para seu próprio interesse.

JM: Para melhorar o Posto Ipiranga, fazer uma loja de conveniência nova…

DSM: Ou senão vêm dar ideia daquilo que você já faz, vender ideia que você não precisa comprar. “Olha, estou pensando aqui, que tal criar um centro cultural, que tenha atividades esportivas, culturais?”. Eu digo: muito obrigado!

JM: A gente que trabalha nos interstícios dessas duas coisas, como jornalistas da área de cultura, tem notado que há uma demanda saindo da pandemia, uma coisa gigantesca, muitos discos, shows, peças, experiências novas. Ao mesmo tempo, a cobertura minguou, os jornais estão sendo extintos…

DSM: Esse é um problema grave, o jornalismo cultural praticamente está desparecendo. Eu sinto falta de um comentário, de um artigo bem escrito, competente. Realmente, a atividade cultural está vindo com muita força, sim. E houve uma demanda reprimida imensa. Gente com potencial enorme que não se apresentou, não teve condições de fazer. Nós temos um pouco como dar vazão, mas não somos os únicos, nem podemos ser. Eu tenho a impressão que nós vamos viver um momento mais eufórico num determinado momento à frente, se liberar de fato, se essa tal ameaça não se repetir, se continuar progredindo nesse esquema de uma liberação segura. Nesse aspecto, não no político-institucional, na discussão do que virá pela frente com a eleição. Aí já é outra coisa. Falo do ponto de vista do comportamento, da convivência, do dia a dia, das festas, das oportunidades. Acho que os artistas vão ganhar uma presença mais significativa. Vocês conhecem a tal história do Carnaval de 1919? Dizem que, em 1919, depois da gripe espanhola, o Carnaval foi o mais forte, mais expressivo, o mais espetacular que houve no Rio de Janeiro. No pós-pandemia, a euforia foi tão grande que o Carnaval foi aquela esbórnia total. Dá para comparar com hoje, Ruy Castro já foi um pouco nessa linha. Neste ano ainda não tem tanta perspectiva, porque já estão cortando aqui e ali, né? Mas há um pouco essa euforia no pós-pandemia. Não sabemos ainda como vai ser, se vai ser já ou mais para frente, se não vai ter outra cepa chegando aí. Pelo amor de Deus, espero que não! Mas a gente imagina que os artistas vão ganhar uma nova exposição. Tem muitos espetáculos já anunciados. Nós teremos, entre as coisas já em andamento, as comemorações da Semana de 1922, que para nós vai ser um marco na cidade de São Paulo, e para o país. Vai se discutir o modernismo e todas essas questões de prós e contras.

JM: De que foi um evento branco, burguês, paulistano… Tendo em conta que Mário de Andrade não se considerava preto…

DSM: Mesmo considerando tudo isso, o assunto vem para a mesa. Mário de Andrade foi importante pelo que fez e pelo que eventualmente não tenha feito, não tenha reconhecido. A discussão é apaixonante, e São Paulo é rica em instituições que podem promover esse debate. Tem a reinauguração, a retomada do Museu do Ipiranga, que também é outra questão polêmica, mas é importante. O governo federal aprovou um monte de Lei Rouanet para a reconstrução do museu e quer mandar, e o governo de São Paulo diz: não, quem manda aqui sou eu. Mas o mais importante: está sendo feita a obra. No dia 7 de setembro do ano que vem provavelmente vai dar para inaugurar, e se o João Doria não inaugurar, perde as condições de ser candidato.

JM: E os recursos da Lei Rouanet não são nem de um nem de outro governo, são do povo brasileiro.

DSM: Hoje em dia, a lógica e a gestão passam por essas considerações, é tudo na base da pressão política. E aí vem a perseguição aos artistas. Mas a perspectiva é que os artistas vão ter mais importância do que tinham antes. Os artistas têm esse viés ético. Não são todos, mas é muito comum no meio artístico, esse impulso de querer fazer o melhor, de querer o melhor para todo mundo. Nesse sentido, são pessoas que se colocam em posição permanente contra o status quo. Aliás, a tendência do artista a ser oposição é a coisa mais frequente do mundo, independentemente de quem está lá em cima. E, se quem está lá em cima é claramente alguém que está contra o interesse público, aí é que o artista tem que definir a sua posição. Por isso essa perseguição, essa escolha de pessoas que não têm nada a ver, esse desmonte no que diz respeito às instituições. A Lei Rouanet foi criada no governo…

JM: No governo Collor.

DSM: Sim. A lei tinha um princípio. Eu participei da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, a CNIC, em dois ou três mandatos, nomeado como representante do Sesc e pelo ministro da Cultura à época, Francisco Weffort. Por seu secretário, José Álvaro Moisés. Eu tinha reuniões com ele. A CNIC tinha um poder de aprovar e não admitir vetos. Isso até foi mudado depois, no governo do PT. O que era aprovado estava aprovado e acabou. E havia representantes de todos os segmentos: música, teatro, dança, patrimônio, do governo também. Não dava dinheiro, apenas abria a porta e dizia: está aprovado, agora vai buscar o dinheiro. Esse era o princípio inicial. Depois, deram o poder de veto dos projetos ao ministro da Cultura. Agora, recentemente, o governo (Bolsonaro) praticamente fechou, acabou com a CNIC. É o secretário e o seu representante de outra área lá, que não lembro, que tomam a decisão sozinhos, pura e simplesmente. Ele afronta a essência da legislação. Na Fundação Palmares é um absurdo, não tem cabimento. A pessoa está ali para combater a questão da luta antirracial. Diz que os negros reclamam muito, que é só mimimi, diz que a escravidão foi um benefício, que os negros saíram da miséria na África e estão aí vivendo maravilhosamente bem. Sem falar no descuido com toda a infraestrutura cultural. O Estado, independentemente de sua posição, tem duas lições básicas na questão cultural: fomento e infraestrutura. A infraestrutura, que eu digo, é dar condições para que as coisas possam funcionar, e o fomento serve para facilitar a vida dos artistas, lançar circuitos, editais. Não se trata de dar dinheiro. Fomento é uma coisa, dar dinheiro é outra.

 

 

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