Dois projetos de certa forma opostos orientam novos livros sobre dois dos maiores cantores do Brasil, os baianos João Gilberto e Maria Bethânia. O ensaio João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova – Outros Lados da História (L&PM), do jornalista e crítico musical veterano Tárik de Souza, se estende por 444 páginas e tenta abarcar não apenas a integralidade da história musical de João Gilberto, mas, aparentemente, toda a história da música popular brasileira. Em sentido contrário, as 206 páginas de Maria Bethânia, Primeiros Anos – Da Cena Cultural Baiana ao Teatro Musical Brasileiro (Letra e Voz), do jornalista Paulo Henrique de Moura, centram fogo no período curtíssimo da eclosão da artista, na transição entre a estreia em Salvador, em 1964, e a chegada triunfal ao Rio de Janeiro, em 1965, a bordo do musical de protesto Opinião, como substituta de Nara Leão.

Evidentemente, o trabalho de Tárik de Souza é bem mais complexo e complicado. Após não muitas páginas de leitura, percebe-se que não se trata realmente de um livro sobre João Gilberto, mas sim um projeto totalizante que tenta abarcar tudo que aconteceu durante o movimento bossanovista – e quase tudo que aconteceu antes dele, e depois dele, desde o final dos anos 1950 até os dias atuais. Nesse caso, 444 páginas são insuficientes para compreender o mundo e/ou para se aprofundar sobre qualquer um dos inúmeros artistas e subtemas tratados. Ávida por citar cada nome, cada canção, cada autor e cada intérprete de uma história colossal, a pesquisa obsessiva de Tárik resulta numa metralhadora citatória que dificilmente um leitor não-especializado assimilará como uma narrativa fluente e consequente.

Na contramão, Paulo Henrique de Moura adota procedimento parecido ao das cineastas Dandara Ferreira e Lô Politi, que no filme ficcionalizado Meu Nome É Gal (2023) abordaram outra grande cantora baiana fixando-se especificamente no intervalo 1965-1971, e não na longa trajetória cumprida pela cantora por 77 anos até sua morte em 2022. O livro de Moura radicaliza essa opção e aplica lupa sobre meros dois anos na vida e na carreira de Bethânia, que abrange três shows em Salvador (os coletivos Nós, por Exemplo, de agosto de 1964, e Velha Bossa Nova, Nova Bossa Velha, de novembro do mesmo ano, e o individual Mora na Filosofia, de dezembro do mesmo ano) e três espetáculos no Rio (os coletivos Opinião, em abril de 1965, e Arena Canta Bahia, em setembro do mesmo ano, e o individual Tempo de Guerra, em outubro), além do LP de estreia, Maria Bethânia, também de 1965. Em vez de um catatau narrativo sobre nascimento, infância e seis décadas de profissão, o autor opta por esmiuçar tintim por tintim os acontecimentos de pouco mais de um ano na disparada inicial da biografada, aqueles que criaram condições para todo o resto.
Por vezes circular, voltando repetidamente a mesmas histórias, mesmas canções e mesmos autores, João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova não raro dá a sensação de não progredir narrativa e cronologicamente nem ter começo, meio e fim (o que é falso, pois Tárik foi testemunha ocular e participante de grande parte das histórias que conta). Pela repetição, sua escrita engenhosa e elegante acaba por entregar truques e cacoetes obstinados, abusando de termos modernosos como “retrofitar” (usado para exprimir o que João Gilberto fazia com o repertório histórico que reinterpretava), “customizar”, “icônico”…, ou tecnicistas como “terçar cordas com”, “modernista” (para caracterizar todo e qualquer artista minimamente afinado com os princípios da bossa), “estilista” etc.
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QUERO APOIARNa fúria totalizadora, Tárik espreme a laranja da música brasileira até o bagaço e, de quebra, metralha listas intermináveis de nomes do jazz internacional do passado e do presente que influenciaram e foram influenciados pela bossa, por João e por Tom Jobim, mais estabelecendo listas que esmiuçando os significados por trás de discos e shows da bossa e derivados. O livro brilha mais quando faz jus ao subtítulo Outros Lados da História e se debruça com zelo sobre figuras esquecidas ou subestimadas, como Custódio Mesquita, Valzinho, Garoto e o Trio Surdina, K-Ximbinho, Jonas Silva (ex-companheiro de João Gilberto no conjunto vocal Garotos da Lua), Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Thelma Soares etc. Brilha igualmente quando expõe entrevista que fez com João em 1971 para a revista Veja, classificando-a com justeza como “a única que concedeu oficialmente a um órgão de imprensa no país”.
Noutro diapasão, põe-se a tarefa espinhosa de reescrever alguns pontos da história oficial, por exemplo esforçando-se por negar a pecha, crescente nos últimos anos, de que preconceitos e recortes raciais, de classe e de gênero limitaram os horizontes dos bossanovistas de Ipanema, em sua maioria oriundos dos estratos mais “altos” da sociedade local (Tárik chega a cunhar como revide o termo “bossafóbicos”, um papo na linha reacionária de “heterofobia”, “racismo às avessas”, “orgulho macho” etc.). Nesse afã, hipertrofia o papel e/ou o valor reconhecido de artistas negros como Moacir Santos, Johnny Alf, Jorge Ben Jor (!) e Wilson Simonal (mas não tanto de Alaíde Costa, Leny Andrade ou Tania Maria) como alicerces da bossa nova. Em especial, o autor se esforça por provar que não houve racismo e classismo no edifício bossanovista – mas como, se todo mundo sabe que houve (e há) racismo e classismo em todo canto?
Novamente, as intenções de Tárik se traem em camuflagens e vícios comuns no Brasil de décadas atrás, mas hoje amplamente reprimidos/vigiados pelo senso comum politicamente correto. Em duas páginas consecutivas, por exemplo, refere-se ao trabalho de Miles Davis como “assalto à mão armada” à obra de Hermeto Pascoal e ao “molho equivocado brasileiro da cantora Carmen Costa”, espezinhada por ele sucessivas vezes apenas porque, negra, se atreveu a participar do show coletivo da bossa no Carnegie Hall de Nova York, em 1962. Ou seja, o próprio autor se encarrega de desmentir a tese de pureza que carrega ao longo do livro todo. Nesse embalo, João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova vale e pesa mais pelo que nega do que pelo que afirma e reafirma (e é sabido até por pedras e plantas).
Noutra direção, o livro de Paulo Henrique de Moura sobre Bethânia remonta quebra-cabeças intrincados sem procurar escamotear conflitos (por vezes guerras civis) que ajudaram a compor a história da música nacional. Ainda que entre conclusões por vezes ingênuas sobre a “ditadura militar” ou o nacional-popular, Moura aborda sem fazer contornos episódios de abalo e/ou ruptura, como os atritos entre o dramaturgo Augusto Boal (de Arena Canta Bahia) e o jovem Caetano Veloso, que ajudariam a desaguar em 1967 na famigerada passeata contra a guitarra elétrica e, consequentemente, na tropicália; as batalhas campais entre esquerda, centro e direita no seio da cultura pós-1964; denúncias do cantor gay baiano Edy Star sobre homofobia no seio de formação da futura tropicália; e assim por diante.
Maria Bethânia, Primeiros Anos permite vislumbrar, ainda. o papel de figuras que estiveram no teatro de guerra, mas foram posteriormente esmaecidas ou mesmo apagadas da história, como Carlos Coqueijo, Alcyvando Luz, Piti, Fernando Lona, Perna Fróes, Djalma Corrêa, Roberto Nascimento ou os hoje mais notórios Tom Zé e Jards Macalé, entre outros. Numa frase de Bethânia recuperada pelo autor, condensam-se tensões que pesavam o ar de 1964-65, mesmo no próprio interior das ditas esquerdas: “O teatro Opinião me mandou alisar o cabelo”. Para bons entendedores, nem são necessárias frases inteiras.
Também nas palavras da própria artista, ressurgem verdades bem menos difundidas que aquelas sempre portadas por Caetano, Gilberto Gil ou Chico Buarque, mas de essencial impacto para a compreensão do passado, do presente e do futuro brasileiros: “Período terrível! Eu fui presa! Eu fui presa no Rio de Janeiro. Eu estava na minha casa, às duas horas da manhã, eles invadiram. Mais de 20 homens entraram e me levaram, depois de rodar por muitas horas, para um quartel aqui na zona norte. Eu fui interrogada até de manhã. Eles queriam saber do Geraldo Vandré. Eles haviam pego Caetano e Gilberto em São Paulo e achavam que eu sabia do Vandré e que eu tinha a ver…”. Bethânia aqui se refere aos dias de decretação do Ato Institucional Nº 5, mas podem se ouvir nas dobradiças o uivo dos ventos de 1989, 2013, 2016, 2018…, de Ainda Estou Aqui e de O Agente Secreto.
À parte a drástica distinção entre o canto de protesto trovejante de Bethânia e o sopro vocal ideológico dos barquinhos e patinhos de João Gilberto, Primeiros Anos evidencia que a cantora, desde o início, desempenhou função parecida à do mestre surgido poucos anos antes, impondo, desde os primeiros shows coletivos ancorados na bossa, releituras (ou retrofitagens, diria Tárik) particulares dos mais antigos Noel Rosa, Sinhô, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Batatinha etc. Como a própria Bethânia cantava naqueles anos de formação, a música popular brasileira foi, é e será campo e tempo de guerra.
(Texto publicado originalmente no site Opera Mundi.)




Erasmo também disse que ele e Roberto não foram aceitos no grupo bossanovista – Não rolou a famosa química,até hoje é assim,como se diz no popular,cada macaco no seu galho.