Virginie Efira em "Benedetta" (2020)

Vai longe o tempo em que o cineasta holandês Paul Verhoeven, hoje com 83 anos, causava furor em blockbusters fantasiosos tipo RoboCop, o Policial do Futuro (1987) e O Vingador do Futuro (1990). O novo Benedetta, que entra em cartaz no Brasil em 40 salas neste final de semana, causa espécie por motivos infinitamente mais profundos: conta a história real da freira Benedetta Carlini (interpretada pela atriz belga Virginie Efira), nascida na Itália da Contrarreforma, em 1590, cujo calvário inclui incorporar o espírito de Jesus Cristo, se relacionar amorosa e sexualmente com a noviça Bartolomea (Daphné Patakia) e desafiar (não sem também incorporá-los) os dogmas e a hipocrisia das Igreja Católica.

"Benedetta"
Bartolomea (Daphné Patakia) e Benedetta (Virginie Efira)

Com atuações brilhantes de Charlotte Rampling como a abadessa antagonista (igualmente envolvida em relações lésbicas) e Lambert Wilson como o núncio que move uma cruzada contra Benedetta (e, aparentemente, engravida uma de suas fiéis), o filme patina em toscos efeitos especiais nas cenas de alucinação da protagonista com santos, homens e cobras. Mas, de resto, traça um retrato desolador do tríptico tradição-família-propriedade no século XVII, mas também num tempo em que mais uma vez os excessos religiosos tiram o planeta do eixo. A devastação causada pela “peste” e o negacionismo atroz de parte dos personagens ajudam a dar contundência e atualidade ao enredo.

A ironia à beira do deboche corteja frases proferidas pelas religiosas, como “seu corpo é seu maior inimigo”, “milagres costumam causar mais mal do que bem” ou “Deus quer que soframos”. Benedetta transita do fervor completo e da culpa católica extrema até a assunção igualmente exacerbada da própria identidade. Nas cenas em que recebe Jesus, surge um Jesus hipermasculino, raivoso e vociferante de dentro da religiosa “abusada pelo demônio”. As cenas ao pé da fogueira vêm lembrar quem eram as mulheres consideradas bruxas em séculos passados e que tipos de liberdade reivindicada por elas eram pretexto para atirá-las ao fogo. Mais uma vez, a volta a um passado longínquo se presta a erguer metáforas desconcertantes sobre o mundo de hoje.

Cena de "Benedetta"

Benedetta. De Paul Verhoeven. França/Bélgica/Holanda, 2020, 131 min, nos cinemas.

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