O filme Não Toque em Meu Companheiro retira seu título de um dos slogans usados pelos bancários em greve no início dos anos 1990, uma espécie de “ninguém segura a mão de ninguém” da época. Maria Augusta Ramos, diretora de Justiça (2004) e O Processo (2018), dedica-se em seu novo documentário a retratar aqueles episódios, mas em grande sintonia com o momento político atual.

O filme se ancora nos depoimentos de um grupo de trabalhadores demitidos da Caixa Econômica Federal durante aquela greve. “Os marajás éramos nós”, diz uma funcionária pública, em referência ao título “caçador de marajás”, que ajudou a eleger Fernando Collor em 1989. O breve presidente transformava as empresas públicas no “bicho-papão”, como avaliam os demitidos, para abrir caminho para privatizar a Caixa. Os trabalhadores (e a diretora) mostram semelhanças com os propósitos dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, que ocorrem silenciosamente, sem reação dos bancários.

Para mostrar a deterioração das relações trabalhistas ao longo das últimas décadas, Maria Augusta coloca os trabalhadores sindicalizados de 1991 em contato com bancários das novas gerações. O diálogo não se estabelece. Os veteranos explicam como a terceirização atual sucateia o atendimento e o transfere para o mundo digital. Os jovens se queixam da falta de representatividade do sindicato. 

“Aquela molecada pode ser nossos filhos hoje. A gente tem um desafio de comunicação”, afirma em entrevista Jair Pedro Ferreira, integrante daquele grupo e hoje diretor da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae). “Morei na roça até os 25 anos, comecei a militar com 25 anos. Quando vem o governo Lula, isso entra em choque. Essa geração de hoje, que entrou na Caixa nos anos 2000, encontrou outro ambiente. Não tinha confronto, todo mundo tinha emprego, todo mundo estudou. Quando tiver perdas agora, acredito que eles mudem suas posições. Hoje tem o movimento dos entregadores de aplicativos, eles é que estão fazendo os breques.”

Ferreira diz que a importância do documentário para o Brasil de 2020 é ele mostrar, em detalhes, como o momento atual é parecido. “O discurso que o Collor fazia era semelhante ao de agora: Estado mínimo, os servidores públicos são marajás, o Estado precisa se modernizar. Os dois momentos são semelhantes no desemprego. Desde o golpe na Dilma, os trabalhadores só perdem direitos. É reforma trabalhista, terceirização, reforma da previdência. Cada Medida Provisória retira mais direitos.”

Não Toque em Meu Companheiro. De Maria Augusta Ramos. Brasil, 2020, 75 min. Em streaming, nas plataformas digitais.

 

 

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