Após cerca de 70 anos de atividade, foi anunciado essa semana o fechamento da Rádio Eldorado de São Paulo (107,3 FM), pertencente ao Grupo Estado. Serão cerca de 60 funcionários demitidos, além de colaboradores, e a última transmissão está prevista para o dia 15 de maio. Em geral, não tenho grande interesse nas notícias de gestão corporativa de empresas de comunicação, considero que gravitam em uma esfera de jogos de influência, blefes e sazonalidade política.
Mas me chamou a atenção o caso da Eldorado porque, além de ser um caso de êxito inequívoco, é uma emissora que funciona como um anteparo de simpatia para um grupo de mídia arrogante, ideologizado e desvinculado da realidade. Pela via da Eldorado, todo mundo sempre pensou: até que tem alguma coisa boa daquele lado de lá da Marginal. Não era só impressão: uma pesquisa recente mostrou que a marca Eldorado era mais lembrada do que a de O Estado de S.Paulo. O que me deixou curioso é que, em nota, o Grupo Estado afirmou que o fechamento da Eldorado “se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão” (sic), e atribuiu a decisão a “mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio” e cita o “crescimento acelerado das plataformas de streaming musical”. O “reposicionamento estratégico” do velho paquiderme da Marginal Tietê é uma falácia recorrente há, pelo menos, 30 anos.
Mas por que devemos considerar que pode ser mentira essa argumentação? Bom, apenas analisando os dados disponíveis. Segundo informe do Painel Cenp Meios, divulgado em março, o rádio cresceu expressivamente no ano passado no Brasil. O investimento em mídia no rádio cresceu 5,86% em 2025 em relação a 2024, valor 38% superior ao IPCA, o indicador da inflação nacional. O ganho foi de 61,4 milhões de reais. As emissoras de rádio FM e AM cresceram quase 14 vezes mais do que o áudio digital, que teve um aumento de 4,4 milhões de reais.
O meio rádio cresceu mais no Sul (alta de 30 milhões de reais), Sudeste (alta de 15 milhões de reais) e no mercado nacional (publicidade em rede, que cresceu 18 milhões). Desde 2020, a publicidade no meio rádio pulou de 603 milhões de reais para 1,1 bilhão, alta de 83,5%, segundo artigo de Fernando Morgado no MediaCom. Morgado lembra que aquilo que chamam de “meio internet é, na verdade, o somatório de cinco mídias com formas, funções e indicadores absolutamente diferentes (áudio, busca, display e outros, social e vídeo). O rádio também está na web, salienta o articulista.
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QUERO APOIARDe todos os penduricalhos que os velhos jornais de papel criaram nas últimas décadas para tentar segurar sua influência (mais do que seus ganhos, que vêm de outras fontes), os audiovisuais foram os que se saíram melhor. E, quanto mais jornalísticos, melhor se saem. De todos, a Rádio Eldorado era a que tinha conquistado um lugar entre ouvintes refinados, de pensamento autônomo. A emissora tinha um hibridismo interessante: em política, andava meio a reboque da empresa-mãe; mas, em cultura, podia se dar ao luxo de contrariar a lógica do mainstream musical, da moda passageira, do jabá. Seus colaboradores, por conseguinte, nunca foram do tipo vulgares. Adoniran Barbosa tirava sonecas no sofazinho da entrada da Eldorado. Zé Nogueira fechava os programas vespertinos e saía correndo do estúdio para jogar bola contra o time do Chico Buarque.
Pode-se argumentar que a Eldorado não acompanhava o ritmo de captação de recursos de suas concorrentes. Mas isso sugere competência de quem se arvora continuamente a habilidade de “reposicionamento estratégico”? Emissoras e jornais surgem e desaparecem, como foi o caso do Jornal da Tarde, do Notícias Populares. Quase sempre, é resultado da própria dinâmica dos avanços tecnológicos. Mas o rádio não está nesse alvo: segundo pesquisa da Kantar, 79% dos brasileiros têm hábito de ouvir rádio com frequência, dedicando 3 horas e 47 minutos diários à programação. Você tem uma emissora-chave em mãos, tem reputação, audiência extremamente refinada, e ignora isso? Talvez isso se dê então por outro motivo, talvez seja pelo fato de que essa emissora, por seu perfil inato de integridade, não possa ter utilidade imediata na guerra pelo poder que se avizinha, a disputa pelos corações e mentes da Nação.





