Wagner Moura wins the Golden Globe for Best Performance by a Male Actor in a Motion Picture Drama for "The Secret Agent" at the 83rd Annual Golden Globes held at The Beverly Hilton on January 11, 2026 in Beverly Hills, California. (Photo by Tommaso Boddi/2026GG/Penske Media via Getty Images)

“A ditadura ainda é uma cicatriz aberta no Brasil”, disse Wagner Moura em seu discurso, ao ganhar na noite deste domingo, 11, o prêmio Globo de Ouro de melhor ator de drama. Parece exagero retórico, mas é possível demonstrar aqui, passo a passo, como é precisa a frase de Moura e como essa chaga voltou a se abrir ainda durante a interinidade golpista de Michel Temer e, a partir daí, da metástase do golpismo paramilitar, a envolver o cinema nacional.

Foi no cinema brasileiro que o atual clima de macartismo político começou a mostrar sua cara, durante o governo de Jair Bolsonaro. A guerra aberta a Kleber Mendonça foi declarada já há uma década. Começou com o governo ordenando censura a Aquarius, um filme celebrado de 2016. A blitz de intolerância cultural e política se iniciou a partir do momento em que os atores de Aquarius subiram ao tapete vermelho de Cannes, em jornada consagradora, com faixas de protesto contra a situação política no Brasil.

Na Ancine, constituída como braço de apoio da protoditadura, a censura passou a ser esboçada em diferentes frentes. A perseguição se deu com um tratamento de exceção e escorada na criminalização ideológica, no plano público, e na burocracia de contas, morosidade administrativa, atraso em prazos fundamentais de editais, desqualificação de recursos, entre outros artifícios. Kleber Mendonça teve as contas de sua produtora devassadas pelos agentes do regime sombrio. O último suspiro dessa malfadada gestão “vichyniana” do cinema aconteceu na vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar, no ano passado, quando a Ancine demorou dois dias para comemorar a façanha inédita de um filme brasileiro.

Os atos de perseguição mais espalhafatosos foram dirigidos ao filme mais explicitamente político de Wagner Moura, Marighella. “Achou que ia pegar verba comigo para esse lixo panfletário?”, afirmou o então secretário Especial de Cultura de Bolsonaro, Mario Frias, endereçando a Moura, que definiu como “terrorista abominável”, sua fala. Curioso que, em 2025, um filme laudatório abraçado por Frias, uma co-produção Brasil-Estados Unidos sobre o ex-presidente Bolsonaro (cumprindo pena após condenação a 27 anos de prisão) acabou “pegando verba” de diferentes órgãos públicos para se realizar, e é pouco provável que tenha qualidade artística sequer para se apresentar em um festival de cinema.

Dessa vez, já parcialmente redemocratizada, a Ancine foi rápida em congratular Kleber e Wagner. “A Ancine parabeniza Kleber Mendonça Filho, o ator Wagner Moura e a equipe do filme O Agente Secreto pelo Globo de Ouro 2026 nas categorias de Melhor Filme em língua não-inglesa e Melhor ator em filme de drama”, diz o comunicado postado ainda nessa manhã de segunda-feira, 12. “Só falta essa gestão vergonhosa da Ancine apoiar verdadeiramente o cinema brasileiro autoral e independente, né? Bater palma é fácil”, diz um comentário no post da Ancine. A pertinência deste (e de outros comentários) foi reforçada pelo próprio Wagner Moura, quando divulgou um vídeo com sua avaliação do retrocesso que a regulamentação do streaming está sofrendo no Brasil. E sobrevieram reações iradas.

O Agente Secreto foi realizado já num contexto democrático de políticas públicas de cultura, mas o cinema vitorioso de Kleber Mendonça Filho teve que atravessar um inferno de ódio e colaboracionismos diversos para vingar como fato cultural do mundo.



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