Nascido em 1925, em Curitiba. Advogado. Casado. Duas filhas.

Nada tem a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.

Adolescente, queria ser campeão de 110 metros com barreira. Jovem de bigodinho, o galã amado de todas as taxi-girls. Nem atleta nem bailarino de gravatinha borboleta, seu lugar é entre os últimos dos contistas menores.

Vampiro, sim, de almas. Espião dos corações solitários. Escorpião de bote armado, eis o contista.

Só inventa um vampiro que existe.

O escritor é irmão de Caim e primo distante de Abel.

Notícia policial, frase no ar, bula de remédio, pequeno anúncio, bilhete de suicida, o seu fantasma no sótão, confidência de amigo, a leitura dos clássicos, etc. O que não lhe contam, escuta atrás da porta. Adivinha o que não sabe – e com sorte você descobre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo.

Para escrever o menor dos contos, a vida inteira é curta. Nunca termina uma história, basta reler para começar de novo.

Há o preconceito de que depois do conto você deve escrever novela e afinal romance. Seu caminho será do conto para o soneto para o haicai.

Não escreve para mudar a vida, melhorar o mundo, salvar sua alma. O papel branco vale mais coberto de palavras? Toda a sua desculpa de escrever.

O bom escritor nunca se realiza: a obra é sempre inferior ao sonho. Ao fazer as contas, percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada.

Não sabe dar conselhos, aos novos diria duas palavras: Tenham talento.

Seu melhor conto? O que vai escrever amanhã.

Você pode contar nos dedos as pequenas delícias da vida: o azedinho da pitanga na língua do menino, a figurinha premiada da bala Zequinha, um e outro conto de Tchecov, o canto da corruíra bem cedo, o perfume da glicínia debaixo da janela, o êxtase do primeiro porrinho, o beijo com gosto de bolacha Maria e geléia de uva, um corpo nu de mulher.

Sustenta que os dois estilos da língua são Machado de Assis e o Padre João Ferreira d’Almeida, o tradutor da Bíblia. O único livro que a gente não pode deixar de ler. Nele você encontra Homero, Mil e Uma Noites, Fanny Hill, soneto de Camões, grito epilético de Dostoiévski, barata leprosa de Kafka, anúncio de 914, elegia de Rilke, etc.

Jesus é um dos seus heróis. Mais indefeso que Holden Caulfield, mais sedutor que Julien Sorel, mais durão que Philip Marlowe. Um grande tipo, contestador irado e brigante, expulso como indesejável de Nazaré, capaz de caminhar sobre as águas, usar o chicote, gostar de brilhantina no cabelo, praguejar figueira, fazer de cada mulher uma bailarina de inferninho e de você um Jó perdido, um Pedro arrependido, um Lázaro revivido.

Quem lhe dera o estilo do suicida no último bilhete.

(A orelha biográfica que Dalton Trevisan escreveu para a edição de 20 Contos Menores, da Record, em 1979)

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