"Para Lennon e McCartney", single de Elis Regina lançado hoje (10) - capa/ reprodução
"Para Lennon e McCartney", single de Elis Regina lançado hoje (10) - capa/ reprodução

Nos primórdios da popularização da internet no Brasil, na virada dos anos 1990 para os anos 2000, a Trama oxigenou o mercado da música brasileira, lançando álbuns de nomes consagrados a artistas que ajudou a revelar, de Baden Powell (1937-2000) a OttoSamba Pra Burro (1998), seu álbum solo de estreia, saiu pela gravadora –, para ficarmos em apenas dois exemplos.

Um dos sócios na empreitada é o músico, produtor e empresário João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina (1945-1982) e Ronaldo Bôscoli (1928-1994). Ele acaba de “refundar” a Trama, no que está chamando de sua terceira fase de operação – uma forma de homenagear sua mãe: o nome é herdado de uma companhia que a cantora fundou ainda nos anos 1970.

Misto de gravadora, estúdio e plataforma, a companhia fundada por João Marcello Bôscoli e André Szajman foi pioneira em transmissões ao vivo pela internet – algo que se tornaria bastante comum com o passar do tempo, e intensificado durante a pandemia de covid-19 –, com a TV Trama.

O início desta nova fase é marcado pelo lançamento de uma versão inédita de “Para Lennon e McCartney” (Lô Borges/ Márcio Borges/ Fernando Brant), na voz de Elis, com produção de João Marcello Bôscoli, restauração, gravação, mixagem e masterização de Ricardo Camara (nos Estúdios Trama Na Cena), supervisão de voz de Pedro Mariano e arranjos de Marcelo Maita. A cantora é acompanhada por Daniel de Paula (bateria), Robinho Tavares (baixo), Conrado Goys (guitarra), João Marcello Bôscoli (synth e percussão) e Marcelo Maita (piano e synth analógico). A versão chegou hoje (10) às plataformas de streaming.

Além do lançamento, semana passada aconteceu também a estreia de O Novo Sempre Vem, programa de rádio que será apresentado às quintas-feiras, às 22h, por João Marcello Bôscoli, na Nova Brasil FM, com a proposta de apresentar novos artistas fazendo um paralelo com nomes consagrados que exerceram influência sobre eles.

João Marcello Bôscoli conversou com exclusividade com FAROFAFÁ.

João Marcello Bôscoli - retrato: Sérgio Chagas/ divulgação
João Marcello Bôscoli – retrato: Sérgio Chagas/ divulgação

SETE PERGUNTAS PARA JOÃO MARCELLO BÔSCOLI

ZEMA RIBEIRO: O nome Trama foi herdado de uma companhia mantida por Elis Regina nos anos 1970; então a segunda fase foi a gravadora Trama que a gente conheceu na década de 1990, e agora esta terceira fase. É também uma forma de homenagear Elis?
JOÃO MARCELLO BÔSCOLI: A primeira fase da Trama é de 75, quando a Elis fundou, até 82, quando ela morreu. A segunda fase foi de novembro de 98 até o início de 2014, final do ano de 2013. São esses 15 anos de operação. A gente para de operar a mídia física, não tem mais uma equipe de vendas de mídias físicas e não tem mais um elenco fixo de artistas. Passamos a gerir o nosso catálogo e os nossos estúdios durante esse período. Essa terceira fase começa com um processo de digitalização do nosso acervo. O André ficou morando fora do Brasil, foi fazer outras coisas, a empresa continua funcionando, gerindo o catálogo, fazendo todos os pagamentos e sincronizações, mas eu fui fazer umas outras coisas da minha vida. O André, meu sócio, foi morar fora do Brasil. Quando voltou, seis, sete anos depois, a gente começou a desenhar a digitalização do nosso acervo, que são 23 mil mídias, aproximadamente. E veio a pandemia. Então, iniciei agora essa fase. Sim, é uma homenagem e, coincidentemente, no período de lançamento mesmo, surgiu a possibilidade de fazer essa faixa. Porque foi uma efeméride, aniversário da Elis, foi um pedido de uma rádio, que tocou em rede durante um mês. E agora vai subir no dia 10, [ante]véspera do Dia das Mães, nas plataformas digitais de música. Então, foi circunstancial, mas acaba sendo sempre uma homenagem. A gente sempre lançou coisas da Elis durante a fase dois da Trama. Elis e Tom (1974), Falso Brilhante (1976), o DVD Ensaio (1973), o DVD do [a série] Grandes Nomes da Globo, Elis Regina Carvalho Costa (2005), o último álbum de estúdio da Elis, que tem “O Trem Azul” (Lô Borges/ Ronaldo Bastos), que chama Elis (1982), também. Então é uma homenagem, acho que, permanente.

ZR: Se a gente for classificar a Trama hoje, nesta fase 3, a gente pode dizer que é gravadora, produtora e o quê mais?
JMB: Uma coisa em comum nas três fases da Trama é ter o estúdio. Elis tinha um estúdio de ensaio na fase 1, a gente começou a fase 2 comprando uma mesa de som, porque a música é o centro de tudo pra gente aqui na nossa vida, e na fase 3 continua o estúdio sendo o lugar onde quase tudo que fazemos é produzido. Então é um estúdio, isso é um fato, Trama Na Cena, é o nosso estúdio, uma fusão do estúdio da Trama com o estúdio Na Cena, isso aconteceu em 2018, um pouco antes da pandemia. A gente é um selo de música, tem o nosso catálogo e as coisas que lançamos agora e as coisas que vamos digitalizar e lançar a partir do nosso acervo, e acaba sendo uma produtora, como sempre foi, fazendo as coisas lá atrás da fase 1 da Elis, os shows e tal. Na fase 2, os projetos, Trama Universitário, Música Na Rua, enfim, os programas de TV com outros shows, com outras coisas. Então, desde o início da nossa trajetória na fase 2, a gente fala que a gente é uma empresa de música, é um grupo musical, em última instância, porque a música é sempre o tema principal. A gente não entra em nada que a música não seja o assunto principal, sabe? Se é um documentário, é de música, se é uma entrevista, é de música, e por aí vai.

ZR: A inauguração desta chamada terceira fase tem como marco o lançamento do single “Para Lennon e McCartney”, na voz de Elis Regina, uma gravação antiga, em que a inteligência artificial foi usada para limpar a voz da cantora eliminando chiados e à qual foram acrescentados instrumentos, mantendo a sonoridade da época, com instrumentos usados na época. Quero te ouvir sobre este trabalho e a emoção que este trabalho causa.
JMB: Olha, a emoção mais profunda que sentimos aqui durante o processo, que você citou bem, são instrumentos todos e equipamentos de 76 para trás, isso eu falo na sequência, mas o momento mais emocionante foi aquele que você está no estúdio, cada músico na sua posição, no seu instrumento, de fone, e aí entra no fone a voz da Elis, e parece que ela está ali, parece que ela está na sala ao lado, mas por razões musicais mesmo, porque você está tocando junto ali e ela está, a qualidade da voz, da gravação, é muito presente ainda com a restauração, que é feita por um ser humano utilizando inteligência artificial. Só um parênteses, não dá para comprar mais nenhum software de nada em um estúdio que não venha com inteligência artificial, mas aqui sempre sob o comando humano, alguém ouve e vê. Mas é muito emocionante, porque acontece uma ligação através da música, as pessoas de olho fechado tocando, você está ali tocando, ouvindo uma banda tocando ao vivo com a Elis Regina ali. Uma gravação que tem sempre a tinta fresca, porque é a fonte direta. E os equipamentos que a Elis usou em 76, no estúdio Vice-Versa, a gente tem aqui. Por quê? Porque a Trama, no ano 2000, comprou os estúdios da Vice-Versa. Então os equipamentos que a Elis usou na época, os microfones, tudo, a gente tem aqui. E a gente usou na faixa. Além do próprio contrabaixo do Luizão Maia (1949-2005), que foi adquirido pra faixa, pro Robinho tocar, o baixo agora é dele. O Robson Tavares, o Robinho, gravou com o primeiro contrabaixo do Luizão, né? Ele gravou também com o Cartola (1908-1980), com o Djavan, com a Gal [Costa, 1945-2022], com a [Maria] Bethânia, é muito emocionante mesmo.

ZR: A Trama revelou um catálogo bastante interessante no fim dos anos 1990, com o lançamento dos álbuns de estreia de nomes como Otto e Max de Castro, a recolocação de Tom Zé no radar, após a redescoberta pela Luaka Bop de David Byrne, além do lançamento de nomes como Gal Costa e Baden Powell, entre muitos outros. Nesta terceira fase, a Trama continuará se equilibrando entre novidades e nomes consagrados?
JMB: Bom, essa combinação de apresentar o novo e cuidar do acervo, de apresentar as coisas que já estão aí há algum tempo, e remixar, restaurar, reembalar e apresentar para as novas plateias, é uma combinação que gosto muito. Desde criança, por exemplo, a Elis regravar, sei lá, “É Com Esse Que Eu Vou” (Pedro Caetano [1911-1992]), que é uma música de carnaval dos anos 40, e ela regrava numa outra levada, mais intimista. Então, através das gravações dos cantores e cantoras, o repertório vai permanecendo, vai se renovando, a canção vai caminhando. E acho que é a mesma coisa com relação a gravar artistas já consagrados ou restaurar o acervo. No começo da Trama, a gente distribuiu mais de 40 selos internacionais, talvez seja isso que você esteja citando, o Luaka Bop, mais 40 e poucos selos, e mais de 500 selos nacionais com a nossa distribuidora independente. Então, a gente percebe essa composição toda de possibilidades do consagrado, alguns selos que distribuímos com música africana, com jazz dos anos 30, 40, 50, Sarah [Vaughan, 1924-1990], Frank Sinatra (1915-1998), que a gente lançou álbuns inéditos dele, negociando direto com a família, mas ao mesmo tempo, o próprio Tom Zé, que o Kid Vinil (1955-2017) encontrou no farol, “vamos lá, patrão!”. Uma experiência magnífica, um momento muito bonito, saudade do Kid, mas enfim, naquele momento era importante ter mais catálogos internacionais para poder sustentar uma equipe de vendas, não apenas com os nossos lançamentos, e hoje em dia não, a gente parte do nosso próprio acervo, o que é interessante.

ZR: A gente sabe que a inequação no mercado da música, hoje, é justamente a possibilidade de qualquer um ter música à mão através das plataformas digitais, mas ao mesmo tempo o artista não é remunerado justamente em se tratando de direitos autorais. A Trama pensa em algo neste sentido?
JMB: Eu creio que essa questão da remuneração faz parte de uma negociação permanente. São as pressões que os setores fazem para chegar a um valor. Eu acho que tem que continuar permanentemente na mesa de negociação, com civilidade, pressionando, pedindo cada vez que esses valores melhorem e que a compreensão dos valores seja mais clara, que a gente entenda mais claramente como é todo o processo de tomada de decisão, de valoração das coisas, mas eu acho que foi montado um sistema que está funcionando, os micropagamentos acontecem, as pessoas sobem. Hoje tem um trânsito muito grande, só na nossa distribuidora, que usamos, a OneRPM, sobem 20 mil novas músicas por dia, só no Brasil; no mundo que eles atendem, acho que 40 países, não sei ao certo, mas são 20 mil músicas só lá. Então o grande desafio é conseguir sair dessa situação. Essa multidão, se botar a cabeça para fora dessa multidão, se conectar com as pessoas, achar a sua plateia, as pessoas que gostam de te ouvir e que elas tenham tempo, os desafios são complexos e a parte financeira é uma delas, mas parece que está sendo, a qualquer momento nas próximas semanas vão anunciar um aumento nos valores, não sei se vai ser um aumento pequeno, mas é um setor da área de música que não é musical, é o papo do business, então é uma pressão dos selos, das gravadoras, das distribuidoras, das editoras, aí uma grande artista como a Taylor Swift vai lá e tira o catálogo e aí vai e bota de volta, tira das lojas, põe nas lojas, atenda aquele veículo, fala com aquele veículo, esse balé negocial e de percepção pública é uma coisa que vai permanecer. Mas eu acho que a gente está num momento onde foi espalhado um modelo, as pessoas compraram um modelo, toda a música está a um clique de distância, estão pagando ali e tal, pode melhorar o valor, mas eu tenho que olhar isso com otimismo, porque organizaram, o negócio de música se dissolveu em determinado momento, com as majors lá atrás, não tem mais ninguém hoje atuando que estava lá na época, mas demonizando a internet, então isso atrapalhou muito o negócio, foram anos de prejuízo, até eles perceberem que a internet pode ser um bom lugar para você trabalhar sua música, um bom lugar, não o único, e que não é uma inimiga, mas demorou muito tempo, e aí as consequências foram duríssimas.

ZR: Também nesta nova fase, a Trama estreou um programa de rádio na Nova Brasil FM. Fale um pouco dessa proposta, de mais um espaço de difusão da música feita por novos nomes e que nomes já têm presença confirmada para breve.
JMB: É histórica a relação do rádio com a música, é óbvio, desde os anos 20, quando realmente foram lançadas as rádios nos Estados Unidos, no Brasil, enfim, no mundo, começa essa relação. Desde o momento de ter orquestras e apresentar novos artistas, composições e, poxa, formação de plateia, tantas coisas. Então assim, ter uma rádio hoje, no Brasil, que é especializada em música popular brasileira, em rede, abrindo espaço para música nova, artistas novos, né? Artistas novos, artistas que de repente já estão aí há algum tempo, mas não são tão conhecidos, a gente fica partindo da premissa que as pessoas conhecem, como talvez você que trabalhe com isso, eu que trabalho com isso, mas de maneira geral é muita gente, tem que relembrar as pessoas, apresentar, então também tem isso. E um quadro apenas, mas assim, os primeiros trabalhos desses artistas que conhecemos e olhamos já de um jeito diferente, os grandes, né? Como é que era, por maior que seja, sei lá, o Djavan, como foi o primeiro disco dele e uma faixa dessa fase, desse álbum? Como foi a primeira gravação da Bethânia? Como foi a primeira gravação, porque todo mundo começa a carreira, né? Então, uma música para demonstrar isso, para demonstrar, colocar em igualdade ali, a primeira música dessas figuras consagradas. E também, por favor, não há nenhum preconceito, há uma música com o Arthur Verocai, a junção de lá e cá, tem o Xande de Pilares, que é consagradíssimo, mas aí tem o Xande de Pilares com o Rubel, tem Os Garotin com o Caetano [Veloso], porque também esse trabalho de ter alguém apresentando, alguém já consagrado apresentando uma novidade é muito bacana, né? Eu gosto dessa mistura. Mas essencialmente, 80% do programa é só gente nova. Em rede. Quinta-feira, 10 da noite. E são 12 praças, a ideia é a partir do terceiro mês fazer as apresentações do programa ao vivo. Uma house band, uma banda fixa acompanhando vários artistas que a gente vai apresentar pras plateias. É isso.

ZR: E para além: com que nomes vocês já estão em tratativas para lançamentos em breve nesta nova fase da Trama?
JMB: Olha, nessa nova fase, a gente separou, do ponto de vista da música pura e simples, porque tem os projetos, quando a gente fala do programa de rádio, é uma coisa que não entra nisso que eu vou te falar. A gente organiza em três frentes, três grupos de trabalho. A gente tem o acervo, e as primeiras coisas que a gente tem aqui já previstas são Elza Soares (1930-2022) e Hermeto Pascoal, só se encontraram essa vez. Jair Rodrigues (1939-2014), com o Dominguinhos (1941-2013), o Baden Powell, o toque dele, o último álbum do Baden Powell, entrevistas aí com muita gente, a gente tem dezenas de entrevistas mesmo, e a gente vai soltando aos poucos, mas tem com Sérgio Dias, com Milton Nascimento, com Belchior (1946-2017), com Gal, Lenine, enfim, muita gente. E a gente vai digitalizar e relançar um doc de drum’n’bass. Desse mundo da música eletrônica a gente trabalhou com vários, esse é o primeiro. Remasterizações, a gente remasteriza os álbuns da Trama pela primeira vez e com cada álbum que a gente vai relançando vem o material de vídeo da época, os docs todos, tem o Otto, tem o [Cláudio] Zoli, tem a Luciana Mello, tem o Paulinho Nogueira (1927-2003), enfim, muito Tom Zé, essas remasterizações dos 50 álbuns, os primeiros 50 álbuns que a gente vai remasterizar e vamos lançar etapa a etapa. E os novos artistas, a gente tem o Djedah, que é o violonista lá de Manaus, você deve conhecer, canhoto, fez 18 anos agora, o Djedah, tem até um perfil na Piauí, dele, a gente tem a Marlene Souza Lima, você pode encontrá-la, é uma guitarrista de Brasília, toca uma guitarra meio Wes Montgomery (1923-1968), toca Chiquinha Gonzaga (1847-1935), interessante. A gente tem a Ina, que é uma nova cantora e compositora, uma voz feminina. A gente tem organizado uma música com o Will Santt, que a gente conhece o Will Santt há muito tempo, eu lancei lá no meu programinha de rádio o nome dele, no início ele veio aqui e ele gravou aqui no estúdio, a gente viu o talento dele, ele queria gravar um violão e voz, ele gravou aqui no estúdio e foi mixar em outro lugar, a gente estabeleceu que a gente ia fazer uma música juntos, então o Will Santt também está nessa. E aí tem uma lista grande de novos artistas que a gente vai aos poucos convivendo, conhecendo e apresentando, como o João Sabiá, que a gente já trabalhou há um tempo, e ele fez um álbum de violão e voz, sem fone de ouvido, dois microfones posicionados, um direcionado pra boca e outro pro violão, em Dolby Atmos, com o repertório dele, das coisas que ele já fez. Ele aproveitou e gravou duas músicas que eu pedi pra ele do meu pai, uma do [Roberto] Menescal e Bôscoli e outra do Carlos Lyra (1933-2023) e Bôscoli, que eu queria mostrar pros meus filhos, enfim. É isso, são essas três frentes.

*

Ouça o single “Para Lennon e McCartney”:

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome