Jovens com cara de velho e velhos com olhos de meninos.

Na fronteira entre mundos que surgem e mundos em desaparição, o quadrinista, roteirista de cinema e ilustrador italiano Davide Reviati produziu um dos mais portentosos romances gráficos já publicados: Cuspa três vezes (lançamento da editora Veneta). O álbum de quase 600 páginas foi comparado, quando de sua publicação na Itália, a trabalhos de Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini. Parece, entretanto, manter um parentesco mais sanguíneo com Mark Twain e As Aventuras de Huckleberry Finn, com a abordagem dos ritos de passagens de crianças e adolescentes crescendo em ambientes áridos da Itália do pós-guerra, sob a sombra de heróis da ficção e desvalidos da realidade, do preconceito e do racismo.

Pragas, simpatias, maledicências, juras de vingança, um crânio humano encontrado entre ossos de coelho num terreno baldio, noites de sinuca, mergulhos noturnos num velho píer, pactos silenciosos, moleques virando homens, homens virando moleques: Cuspa três vezes é um maravilhoso épico em que a aventura maior consiste em aprender a compreender a grandeza humana.

Como ilustrador, Reviati parece ter como referência menos os mestres de sua terra, como Hugo Pratt ou Paolo Eleuteri Serpieri, e atentar mais para as lições do pai da matéria, Will Eisner (há muitas passagens que lembram clássicos de Eisner, como O Cortiço e New York – A Grande Cidade).  Sua ilustração sugere ter como intenção deliberada não chamar mais atenção do que a história, e por vezes ela quase não se faz notar, descendo tranquila como um Chianti de boa cepa. Mas isso é habilidade.

Os personagens centrais, Guido e Grisú, são de famílias modestas e conhecem-se desde crianças. Sua vida transcorre entre pequenos gestos de delinquência juvenil e os desafios postos pela maturidade, pela consciência do mundo. O elemento quase invisível é a família de ciganos, os Stancic, que transpassa seus dias, e é por meio dela que Reviati centra a narrativa de crescimento (ou atrofia) – social, sexual, existencial, cultural, humanístico – de sua gangue de rebarbas.

Não é uma história feita de façanhas e situações extraordinárias, mas da pequena atividade da rotina, dos dias circunscritos à província e suas regras estritas. Só se aborda a circunstância (a época, o lugar, o mundo lá fora) por meio de algumas marcas de chicletes, de cigarros, de bebidas, um carro, a fórmula didática das aulas no colégio e os professores.

A obra de Reviati surpreende também pela contramão: é uma história que ignora solenemente a corrida tecnológica, as facilidades da ação contínua, o ritmo alucinante dos quadrinhos de resultados, e volta-se para a tradição clássica da literatura.  Nisso, é felliniana como Os Boas Vidas, com quem foi comparada. Mas há referências até a Julio Cortázar e ao realismo fantástico. E não é saga depositária de um arsenal nostálgico. Pelo contrário: rever o passado, em Cuspa três vezes, é uma forma de recolocar em questão o presente, a dívida pesada da civilização que cresce em cima de argamassa de sangue, fome, desprezo e negação. Encravada no coração da narrativa, está a figura nunca compreendida da mulher, a errática Loretta, convenientemente isolada do masculino para que este possa triunfar sem questionamentos, sem remorsos.

Ganhador de diversos prêmios (Micheluzzi, Boscarato, Lo Straniero) e finalista do grande festival de Angoulême, na França, o álbum é uma coleção de pequenas emboscadas. Das propriedades gastronômicas do ouriço à fórmula para espantar mau olhado de criaturas pestilentas, emerge uma história paralela, a da estratégia de higiene racial dos nazistas em relação aos povos nômades, que quase dizimaram. Em tributo a esses personagens, o livro tem um apêndice com uma pequena história em quadrinhos biográfica da poeta nômade polonesa Bronislawa Waj (1908-1987), conhecida como Papusza, cujos poemas foram rejeitados por seu próprio povo:

Irei às montanhas

Dançarina com uma preciosa saia

Feita de pétalas de flores

SERVIÇO:

Cuspa três vezes. De Davide Reviati (Veneta Editora, 2022). Tradução de Rogério de Campos. 568 páginas, 120 reais

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