Alceu Valença
Alceu Valença - foto Yanê Valença 2

Desde a estreia conjunta soberba e psicodélica em 1972, os pernambucanos Alceu Valença Geraldo Azevedo têm cumprido trajetórias sempre paralelas, mas distintas em pelo menos um aspecto: Alceu geralmente sobressalta a veia roqueira, enquanto Geraldo costuma expressar com destreza a herança bossanovista. Terceira parte da trilogia de quarentena aberta em março com Sem Pensar no Amanhã e continuada em julho com Saudade, o novo Senhora Estrada existe para contrariar a regra, exacerbando a delicadeza já presente nos dois álbuns anteriores num mergulho raro na tradição emepebista inaugurada em 1958 com a bossa nova.

O tom amoroso governa as releituras dirigidas a canções naturalmente mais delicadas da obra áspera de Alceu, como “Coração Bobo” (1980), “Cabelo no Pente” (1981), “Pelas Ruas Que Andei” (1982), “Vai Chover” (1999), “Pé de Rosa” (2001), “Flor de Tangerina” (2002) e “Depois do Amor” (2005). A grandeza de canções de maturidade do artista se consagra em “Xote Delicado”, que parece feito sob medida para a trilogia da delicadeza, mas é de 2001: “O nosso amor é transparente como o vidro/ comovente como a vida/ seguindo no seu destino/ apaixonado/ não tem juízo/ sou eu contigo/ e tu comigo”.

O formato de voz e violão aveluda ainda dois clássicos da música nordestina, “Pau de Arara” (1952), de Luiz Gonzaga Guio de Moraes, e “Numa Sala de Reboco” (1964), de Gonzagão e José Marcolino, ambos matadores em versões intimistas. O inventário de riquezas sertanejas se completa pela homenagem ao paraibano Jackson do Pandeiro em “Coração Bobo” e pela citação ao maranhense João do Vale em “Cabelo no Pente”.

A trilogia termina com a agreste canção-título “Senhora Estrada”, composta para a trilha sonora do filme A Luneta do Tempo (2016), mas mantida inédita até agora. “Onde é que tu vai, senhora estrada/ companheira fiel do meu destino/ e do tempo que corre em disparada/ sobre ti e teu solo agrestino/ onde é que vamos fazer parada/ pois o sol está quente, quase a pino/ me lembrei do meu tempo de menino/ e agora estou voltando para casa”, canta Alceu, amparado por rimas e aridez musical que a bossa nova não teria lhe permitido praticar.

"Senhora Estrada" (2021), de Alceu Valença

Senhora EstradaDe Alceu Valença. Deck.

 

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