Quando os bombeiros arrombaram a porta, quatro anos após o Butantã ter anunciado o fim da pandemia, viram que ele tinha pregado a entrada com tábuas por dentro e que eram praticamente três portas que tinham estraçalhado com seus machados. Ele aparentava estar tranquilo, sentado no sofá folheando uma Veja de março de 2016 que dizia na capa: “O plano secreto de Lula para evitar a prisão: pedir asilo à Itália e deixar o Brasil”.
A sacada do apartamento tinha sido modificada para abrigar uma imensa estufa na qual ele tinha montado o cultivo hidropônico das hortaliças que consumiu durante aqueles anos de isolamento. Havia na parede um gigantesco pôster do ator sino-japonês Toshiro Mifune.
A assistente social sentou ao lado dele no sofá para conversar, afastando prudentemente um punhado de bonés com a inscrição KEEP AMERICA GREAT AGAIN:
– Há quanto tempo você está aqui?
– Desde que o Gabigol rompeu contrato com o Flamengo para ser reserva no PSG.
– Deus do céu!, exclamou a assistente. – Do que você se escondia?
– Do covid-19, claro. Mas principalmente do Calça Apertada. Eu não suporto ele. Ainda está lá?
– Não, saiu tem uns 2 anos.
– Como você pagava as contas de luz e água?, ela perguntou.
– Débito automático, claro. Se bem que foi justamente a falta de saldo que os levou a cortar tudo há duas semanas…
– E o lixo?
O sujeito levantou e a levou até o que algum dia tinha sido uma despensa. Havia uma prensa hidráulica gigante e milhares de tabletes do que algum dia fora lixo, e que agora se transformara em tijolinhos minúsculos fedorentos. O homem os empilhava como brinquedos de Lego para ganhar espaço.
– Qual a última coisa da qual você se lembra lá de fora?, ela perguntou ao confinado.
– Lembro do Capitão invadindo o STF com 60 motoqueiros antes de ser preso pela Guarda Civil Metropolitana e levado para a Papuda.
– Você não pensou em se juntar a ele?
– Até pensei, mas a gasolina estava a 18 reais e eu não conseguiria chegar até Brasília daquele jeito.
– Você não tem ninguém fora daqui?
– Não. Minha família me abandonou em 2021, quando defendi no grupo de Zap que a mansão de 14 milhões do Flávio era quase uma edícula perto do triplex do Guarujá. Acharam que eu estava ido longe demais…
– Você é negacionista?
– Nego desde criancinha. Tenho até uma coleção de camisetas da bandeira da Paraíba só porque está escrito NEGO nelas. Embora eu não goste muito de nordestino…
– Mas, se é negacionista, porque tinha medo da covid-19?
– Não tenho medo, é que o condomínio começou a me multar por não usar máscara no elevador e eu resolvi não receber mais multas…
Nisso, os bombeiros vieram de um quarto ao lado da sala carregando armamentos de toda espécie.
– Isso aqui é seu?, perguntou um oficial.
– É. Eu pensei inicialmente em estocar feijão aí nesse quarto, mas aí o Capitão disse que fuzil era melhor. Comprei pelo Mercado Livre, tem umas raridades aí. O Talibã fez uma liquidação daquelas armas que os americanos largaram na saída.
A assistente social, agora levemente aterrorizada, continuou:
– Você não pensou em manter ligadas pelo menos a TV e a internet?
– Não. A TV está coalhada de comunista, tipo aquele velho da Globo, o Merval, e aquele ator, o Thiago Gagliasso. Na internet, minhas contas foram suspensas pelo Twitter, Facebook, Tik Tok, Instagram… O que eu iria fazer ali?
– Como passava os seus dias?
– No primeiro ano, li e reli as obras completas do Olavão. Altíssima qualidade. Mas como eu não tenho uma biblioteca assim tão grande, tive que ir baixando o nível aos poucos… Depois do Olavão, comecei a ler os livros do Pondé… É tipo uma espiral sem fim…
Então, subitamente, o homem pela primeira vez se mostrou curioso de alguma coisa do mundo exterior.
– Sabe me dizer se o Luciano Huck é candidato?
– Olha, ele hoje é assistente de palco num programa chamado A Buzina do Negacionista, na Rede TV.
O homem pareceu incrédulo, ficou pensando nisso uns minutos e caminhou até a estante para arrumar um bonequinho de chumbo do Steve Bannon que mantinha perto dos livros do Olavo.
– E música? Você não ouviu música esses anos todos?, continuou a assistente.
– No começo, até ouvi. Mas não aguentei o Ultraje nem 15 minutos. Tentei o Lobão, mas daí lembrei que ele tinha mudado de lado, o traíra… E nunca gostei muito do Sérgio Reis…
– Pretendia sair daqui um dia?
– Sim, quando o Capitão saísse da Papuda. Tem alguma notícia disso?
A assistente meio que desanimou:
– Olha, rapaz: se você tem mesmo paciência, pode tranquilamente ficar aqui mais uns 40 anos, mas é melhor pagar as contas. Tem um programa novo na Caixa Econômica, chama Minha Luz, Minha Vida. Você pode começar financiando em até 15 anos a conta do mês passado. Fechou?