Cena de "Meu Corpo É Mais" (2018), de Susanna Lira

A Mostra de Cinema Feminista, promovida pela Coletiva Malva, chega, neste agosto, a sua sexta edição. Empenhada em estimular o trabalho de mulheres no campo do audiovisual, a Coletiva reúne, no evento, obras diversas em uma curadoria cuidadosa e preocupada em não delimitar, demasiadamente, as experiências dessa categoria que, antes de identitária, é iminentemente política. Coordenada e produzida por Daniela Pimentel e Rita Boechat, a Mostra acontecerá virtualmente entre os dias 14 de agosto e 3 de setembro, através da plataforma Cardume TV, canal streaming dedicado a abrigar produções do cinema independente e artesanal brasileiro. Preservar e projetar as nossas mais pujantes experiencias cinematográficas não é nada insignificante quando lembramos que parte da sua memória ainda corre o risco de arder em chamas.

 

"Sem Asas" (2019), de Renata Martins; Mostra de Cinema Feminista
Cena de “Sem Asas” (2019), de Renata Martins, em cartaz na Mostra de Cinema Feminista
"Meu Corpo É Mais" (2018), de Susanna Lira; Mostra de Cinema Feminista
Cena de “Meu Corpo É Mais” (2018), de Susanna Lira

A programação é extensa, contemplando 126 filmes, nacionais e internacionais, além de cinco debates – que refletirão sobre a atuação de diretoras contemporâneas, sobre o cinema trans e travesti, sobre direção de fotografias negras e direções indígenas, para discutir, por fim, a produção das imagens de si nesses discursos. É possível revisitar obras de realizadoras veteranas como Renata Martins (Sem Asas, 2019), Helena Ignez (Fakir, 2019), Susanna Lira (Meu Corpo É Mais, 2018; Torre das Donzelas, 2018; e Amnestia, 2019) e Sabrina Fidalgo (Alfazema, 2019), assim como descobrir a potência criativa de jovens como Juliana Antunes (Plano Controle, 2018) e Camila Kater (Carne, 2019). Espectadoras que já nadaram pelas águas da Cardume irão reconhecer títulos como Em Reforma (Diana Coelho, 2019), Joãosinho da Goméa, o Rei do Candomblé (Janaína Oliveira Re.Fem e Rodrigo Dutra, 2019) e o adorável animadoc Lé com Cré (Cassandra Reis, 2018).

Deste amplo universo temático, gostaria de destacar dois documentários que me parecem confirmar a vocação crítica e combatente da Mostra. O mineiro Filhos da Puta (Santuzza Alves de Souza, 2019) e o espanhol Faça Seu Próprio Pornô – DIYSex (Maria Lorente, Juno Álvarez, Yaiza de Lamo e Mariona Vázquez, 2019) abordam, cada qual a sua maneira, um dos temas mais difíceis e, talvez por isso, mais inarredáveis para os feminismos. O trabalho sexual ainda desperta fortes conflitos e discordâncias, e não raramente a voz e o olhar das próprias sujeitas que exercem o ofício são obnubilados para se priorizar narrativas – elaboradas desde um lugar de fala outro – de vitimização, desamparo e sofrimento. Não que a situação precária – intencional e politicamente induzida, como já dizia a filósofa Judith Butler – que acomete certos grupos não deva ser tensionada pelo cinema; mas ao trabalho sexual são aferidas imagens de uma espoliação que existe, na verdade, em outras várias atividades laborais no capitalismo neoliberal vigente. Nessas obras nega-se, portanto, que a violência seja seu apanágio, em uma tentativa de reconfigurar, através da faculdade performativa dos discursos audiovisuais – que podem operar concretamente na constituição da realidade social – nossos entendimentos mais arraigados sobre o trabalho do sexo.

Filhos da Puta, que já circulou em eventos como a mostra Palavras Plurais e a mostra Periferia Cinema do Mundo, reconcilia duas figuras aparentemente incompatíveis através dos relatos de três personagens cujas mães exercem ou exerceram o meretrício. A maternidade ganha outros contornos num processo de ressignificação da interpelação supostamente humilhante que titula o filme. Produzido pelo Coletivo Rebu, ele tenta desestruturar estigmas sustentados por uma das principais dicotomias que engendram a ideia legitimada de “mulher”: a esposa e a puta – esta última tomada como o oposto conformador ou exterior constitutivo da feminilidade almejada. Longe dos cenários soturnos que caracterizam grande parte dos documentários sobre prostituição, Filhos da Puta dispõe os entrevistados em ambientes abertos, iluminados e acolhedores, estabelecendo com eles uma cumplicidade mutuamente estratégica. O filme, claramente militante (no melhor dos sentidos do termo), tenta interferir na realidade imediata moldando nossos afetos, para permitir, ainda que timidamente, que certas famílias possam circular mais livremente, sem as censuras estigmatizantes que interferem cotidianamente nas suas vidas. Reivindica-se, assim, pautas fundamentais do movimento organizado de prostitutas que, nunca é demais lembrar, existe no Brasil há quase 40 anos.

DIYSex, podemos sugerir, é um pouco convencional documentário de busca que, a partir da releitura de imagens do pornô mainstream, tenta encontrar caminhos e elementos para arquitetar uma pornografia ética e feminista. A crítica às figurações dominantes, marcadamente atravessada pelo deboche, abre espaço para novas formulações no campo. A voz over autorreflexiva evidencia o percurso tateante para se alcançar essa forma divergente de representação, expondo o processo percorrido pelos diretores para, enfim, realizar a cena pornográfica – um filme dentro do filme. A montagem é dinâmica, afiada e, talvez, até mesmo dialética, aspirando a sínteses mais promissoras. As entrevistas são um ponto alto da obra. Em documentários sobre trabalho sexual, costuma-se realizar entrevistas do tipo confessional, como categoriza o pesquisador Nicholas de Villiers em Sexography (2017). São conversações sublinhadas por moralismos e que objetivam – através de uma retórica ironicamente pornográfica, pois se joga com uma dinâmica voyeurista de ocultamento e revelação de algo do âmbito do privado –, explorar presumidas perversões que perpassam as práticas e as relações das profissionais. Assuntos sobre intimidades e preferências sexuais costumam ser priorizados em narrativas que lhes tiram qualquer capacidade de agência. Em DIYSex, como em outas obras que buscam dialogar com o movimento de trabalhadoras sexuais, destacam-se principalmente falas sobre direitos laborais, colocando em relevo reflexionamentos e modos de agir criticamente das próprias criadoras dessa contra-pornografia. Também é bonita a cena em que as duas atrizes escolhidas para performar o ambicionado pornô ético tentam construir, juntas, os parâmetros, os limites e as possibilidades da cena que estão prestes a gravar. É possível incitar novas manifestações dos nossos desejos.

É mérito da 6ª Mostra de Cinema Feminista abraçar esses filmes na sua programação e se engajar, destemidamente, no sempre intrincado debate sobre sexo. Apesar dos heterocentrismos e masculinismos que podem assinalar as trocas prostitutivas e as produções pornográficas hegemônicas (e que abalizam todos os âmbitos da nossa coletividade, não?), esses ainda são terrenos em disputa. Como alerta o filósofo Paul. B. Preciado, é fundamental lutarmos para saquear e ressignificar os meios e espaços de edificação de sujeitos, institucionais ou midiáticos. Tanto Filhos da Puta quanto DIYSex, parecem empreender esse gesto, oferecendo importantes ferramentas para efetuarmos transformações discursivas e, consequentemente, materiais. Eles nos lembram que os feminismos continuarão falhando se não compreenderem e abarcarem as suas demandas. Os documentários ficarão disponíveis por três dias na plataforma da Cardume a partir de 24 e 28 de agosto, respectivamente. Para mais informações sobre a programação, acesse o catálogo da Mostra.

6ª Mostra de Cinema Feminista. Até 3 de setembro. Gratuita, na Cardume TV.

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