O diretor e ator Orson Welles, de "Cidadão Kane", clássico cuja cópia em 35 mm estava no prédio incendiado da Cinemateca Brasileira

Uma semana após o incêndio que destruiu o prédio de apoio da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, em São Paulo, na quinta-feira, 29 de julho, ainda não foi permitido que nenhum técnico da área do audiovisual tivesse acesso ao material armazenado no local calcinado, para examinar o que se salvou e apontar aquilo que eventualmente pudesse exigir uma intervenção emergencial. Essa interdição (a tutela da instituição é do governo federal) impede que a ação de restauradores e arquivistas possa influir diretamente na recuperação – nesses últimos seis dias, São Paulo já enfrentou ao menos uma manhã de chuva fina e temperaturas muito baixas, e o prédio atingido pelas chamas está sem cobertura, que foi praticamente toda destruída pelo fogo.

Segundo FAROFAFÁ apurou junto a técnicos que trabalharam na Cinemateca (no prédio atingido ou na catalogação do material), não havia matrizes de filmes no galpão que queimou, só cópias secundárias. Entre elas, estavam centenas de cópias doadas pela Pandora Filmes, além de uma coleção de documentos cuidada durante 27 anos pelo ex-secretário de Cultura de São Paulo, André Sturm (fundador da Pandora). Perderam-se, desse lote, cópias de filmes clássicos como Cidadão Kane (1941), Laranja Mecânica (1971), Lili Marlene (1981), Vozes Distantes (1988) e As Bicicletas de Belleville (2003). “O que queimou eram cópias e esses filmes não deixarão de existir, mas hoje em dia não é fácil encontrar cópias em 35 mm”, lamentou Sturm.

Glauber Rocha (baiano) e a companheira Paula Gaitán (parisiense)

Um outro acervo crucial da história do cinema brasileiro que pode ter se perdido para sempre é o material relativo à biblioteca do Arquivo Tempo Glauber. O acervo foi fundado em 1983 pela mãe do cineasta, Lúcia Rocha, com o objetivo de reunir e propagar a obra do diretor, e reunia (além das matrizes dos seus filmes) livros com anotações pessoais, diários, cartazes originais dos filmes e objetos pessoais. Os filmes não estavam no galpão queimado, mas os documentos, sim.

O programa Fantástico da Rede Globo, no último domingo, mostrou imagens internas do prédio incendiado nas quais se viam latas de filmes que pareciam ter se salvado. Mas, no momento, é impossível determinar se são partes ou filmes inteiros, e o que efetivamente está intacto. Isso só se saberá ao fim de um laudo pericial. Segundo os ex-funcionários que trabalharam ali, o que já se pode afirmar que se perdeu efetivamente foram quatro toneladas de documentação relativa às instituições responsáveis pelo Cinema Brasileiro por 50 anos até a ativação da Agência Nacional de Cinema (Ancine), em 2002: o Instituto Nacional de Cinema, a Embrafilme e o Conselho Nacional de Cinema (Concine). Perdeu-se, dessa forma, a memória da política pública audiovisual do Brasil. “Toda a memória, documentação, tramitação da política pública, investimentos, produções, que constituem um material de quatro toneladas de papel, se perdeu definitivamente”, avaliou Carlos Augusto Calil, presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca.

O Corpo de Bombeiros informou que o fogo no prédio da Rua Othão, 174/290, um galpão de apoio da Cinemateca, começou quando atuava no local a empresa terceirizada que prestava serviços à instituição. A empresa contratada pelo governo federal para serviços de manutenção preventiva e conservação predial para a Cinemateca Brasileira é a Produtiva Serviços de Engenharia, cujo contrato entrou em vigência apenas no dia 1º de julho, 28 dias antes do incêndio. A empresa não é especializada em acervos, apenas faz manutenção em qualquer tipo de construção.

A situação atual da Cinemateca Brasileira é fruto direto da falta de diálogo, de compreensão do tema e do autoritarismo do atual governo, que a mantém fechada há um ano. Mas, examinando-se o histórico estatal dos investimentos na modernização e na conservação do acervo ali reunido, o maior da América do Sul (cerca de 250 mil rolos de filmes), é assustador constatar que foi um abandono progressivo. Em 2012, a Sociedade Amigos da Cinemateca conseguiu 500 mil reais do Fundo Nacional de Cultura para um programa de capacitação e formação de técnicos. Em 2013, a mesma organização captou 400 mil reais da Petrobras para contratação de estudos e projetos técnicos destinados à construção de um novo arquivo de matrizes para a Cinemateca Brasileira. A construção, acalentada desde 2007 e estimada em 4 milhões de reais na época, serviria para que a instituição pudesse armazenar adequadamente seu crescente acervo de materiais audiovisuais. De lá para cá, não houve muito investimento na Cinemateca.

O governo de Jair Bolsonaro cometeu a façanha de aprofundar ainda mais o problema, talvez iludido pela ideia de que se tratava de uma joia da coroa com a qual poderia aumentar o seu raio de ascendência sobre o senso de liberdade da classe artística. Primeiro, passou a diminuir drasticamente os repasses de recursos para a instituição, dependente do governo federal. Depois, suspendeu as negociações com a instituição que cuidava da CB, a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), dando um calote no gestor. A falta de repasses levou os vereadores de São Paulo a organizarem uma vaquinha para pagar a luz atrasada e evitar uma tragédia. Mas o dinheiro não pode ser entregue por questões burocráticas. A partir daí, o governo federal vem mantendo a Cinemateca respirando por aparelhos, com contratos precários, emergenciais, sem quaisquer análises técnicas.

 

 

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