Catadores: da invisibilidade ao protagonismo. Frame. Reprodução
Catadores: da invisibilidade ao protagonismo. Frame. Reprodução
Seu Zezinho em ação. Frame. Reprodução
Seu Zezinho em ação. Frame. Reprodução
Grupo de catadores em galpão em Santa Luzia/MA. Frame. Reprodução
Grupo de catadores em galpão em Santa Luzia/MA. Frame. Reprodução

“70% dos municípios brasileiros depositam seus resíduos sólidos em lixões”, adverte já em seu início o documentário “Catadores: da invisibilidade ao protagonismo” [Brasil, 2020, 35 minutos; direção e roteiro: Lucas Sá], a despeito das recomendações (e constantes prorrogações de prazo) da Política Nacional de Resíduos Sólidos quanto ao fim dos lixões.

Realizado em parceria entre a Jirau Filmes e a Secretaria de Estado do Trabalho e Economia Solidária (Setres), o filme vai muito além de peça publicitária do projeto “Pró-Catadores – Recuperando vidas, reintegrando cidadania”, que “visa contribuir com a redução da miséria dos catadores em áreas de lixões das cidades do Estado do Maranhão”, como também é informado ao espectador na abertura.

Urubus passeiam na tela, evocando o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, que começa: “Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos” e arremata: “O bicho, meu Deus, era um homem”.

“Quando eu cheguei no lixão me deparei com uma situação muito difícil. Marcou minha vida. Eu vi o Josimar [um catador] pegando uma garrafa de refrigerante muito quente no meio do lixo e tomando. Eu me arrebentei, eu saí de lá chorando. Eu nunca tinha presenciado uma pessoa tomar um refrigerante quente daquela maneira. E ele ainda levantou a garrafa e disse assim: “olha, Deus, obrigado aí, o Senhor me mandou um guaraná”. Aí ele abriu a garrafa, fez tssss, ele disse “eita, tem gás, então tá bom” e tomou ali mesmo, a boca toda ferida devido à situação que ele vive e eu saí de lá chocada”, lembra Fabiana Oliveira, presidente da cooperativa de catadores de Itapecuru, que após o episódio resolveu se engajar na luta por direitos da categoria. Eles preferem ser chamados de agentes ambientais, donos de uma consciência política e de classe de fazer inveja a muitas outras com mais anos de escolaridade.

O filme acompanha a trajetória de catadores e catadoras de materiais recicláveis em municípios alcançados pelo projeto, a organização em cooperativas, avanços na conquista de direitos e garantia de políticas públicas para o segmento.

“Nós morava no lixão e convivia com todos os insetos ruins lá. Aí nós pensamos: vamos fazer a associação e ver no que dá”, conta Seu Chiquinho, líder da Cooperativa de Santa Luzia, sobre o processo de organização junto aos colegas no município. “Catadores: da invisibilidade ao protagonismo” mostra o dia a dia de catadores e catadoras de material reciclável, em sua rotina de trabalho, entre a coleta, o transporte em caminhões, a prensagem, o armazenamento nos galpões, sedes das cooperativas, e a venda para as indústrias de reciclagem.

“Eu me sinto de parabéns. Eu vivia, mais esses companheiros, vivendo, meu Deus, pegava uma latinha, vendia, pra arrumar o pãozinho de cada dia. Hoje nós pode dizer que nós vive bem, trabalhando aqui limpinho, bota um perfumezinho para ficar cheiroso, não tem mais aquele aperreio, meu Deus, como é que eu vou fazer pra comprar um litro de óleo, um quilo de arroz?”, continua, envergando o fardamento da cooperativa e os vincos no rosto, conquistados em anos de vida sofrida – merece destaque a direção de fotografia assinada por Arthur Rosa, Ingrid Barros e Gabriel Bruno.

O filme joga luz em um universo desconhecido pela maioria da população. Um segmento em geral invisibilizado por uma sociedade que costuma confundir catadores com moradores de rua, dependentes químicos ou até mesmo ladrões. “Hoje o trabalho de reciclagem é muito importante. Quando nós veio pra cá disseram que ia vir uns mendigos para cá. Não, aqui vem é homem trabalhador. A nossa caminhada foi isso”, rememora Seu Zezinho, liderança da Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Imperatriz (Ascamari), dono de uma visão e consciência invejáveis, apesar da pouca escolaridade uma das maiores autoridades quando o assunto é Economia Popular Solidária – filosofia em torno da qual se agrega o fazer das associações de catadores.

“Dentro do grupo não tem um mais importante que o outro, por que Economia Solidária não tem patrão nem empregado. A gente entendeu que essa questão do meio ambiente é uma questão muito séria”, diz ele, que é autor do xote que serve de trilha sonora para o filme, cuja letra refaz a sua própria biografia: “perdi minha terra/ perdi meu arroz/ virei catador/ na cidade depois”.

“Catadores: da invisibilidade ao protagonismo” foi lançado no apagar das luzes de 2020, em sessão para convidados no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande). O filme percorrerá o circuito brasileiro de festivais.

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