Michel Temer e Sérgio Sá Leitão, então presidente e Ministro da Cultura

Augusto: Outra coisa: liberamos mais 500 da última parcela do Procult

Augusto: Temos um cascalho pra vcs

Ricardo Martins: Almoçando tę ligo à tarde

(alguns dias depois)

Ricardo Martins: Esquece de nóis não

Augusto: Cacete

Augusto: Foi Mal!

Augusto: Não fui no escritório essa semana ainda.

Augusto: De São Paulo pra aqueles encontros Ancine

Augusto: Amanhã sai

Augusto: Você consegue emitir a NF amanhã?

Ricardo Martins: Mandas os dados da firma pf

(alguns dias depois, nova comunicação)

Augusto: viu o pgto lá?

Ricardo Martins. Vi. Tudo certo valeu

 

Os diálogos acima são trechos de correspondência virtual obtida pela Justiça com quebra de sigilo no âmbito da Agência Nacional de Cinema (Ancine) em 2018.

Ricardo Martins era então assessor direto do diretor presidente da agência, Christian de Castro (além de seu sócio). A outra pessoa designada apenas como Augusto é identificada como representante da empresa Panorâmica Comunicação, e a conversa é relativa ao projeto audiovisual Bem vindo ao Inferno. Procult é o nome de uma operação de financiamento do BNDES específica para o setor audiovisual.

A troca de mensagens é uma das inúmeras evidências, segundo os promotores, que indicam pagamento de valores fixos e percentuais móveis de produtoras a um grupo que operava dentro da agência, liderado justamente pelo seu alto escalão: Christian de Castro e Ricardo Martins. É citado também, na denúncia, o então ministro da Cultura de Michel Temer, Sérgio Sá Leitão (hoje Secretário de Cultura e Economia Criativa do Governo de São Paulo). Todos já são réus em outro processo na Justiça Federal, por improbidade administrativa, e têm bens bloqueados.

O Ministério Público Federal ofereceu as novas denúncias a partir do exame da relação estranhamente informal detectada entre a direção da instituição e a empresa Investimage Administradora de Recursos Ltda, foco central da investigação autorizada pela juíza federal Adriana Alves dos Santos Cruz. Os servidores teriam feito “intermediação ilícita” enquanto na exercicio de funções públicas, mediante trâmites irregulares de processos de empresas do setor do audiovisual para que recebessem investimentos dos Funcines, em especial aqueles já “geridos pela empresa INVESTIMAGE”, diz o documento.

A quebra de sigilo de dados bancário e fiscal e telefônicos de Thierry Peronne e Gabriel Kessler, controladores da Investimage, indica, segundo o MPF, uma “possível escalada criminosa voltada ao acesso e comando da agência reguladora, tudo com a finalidade de obter ganho ilícito que ora está sob apuração”. Os diálogos mostram grande desenvoltura do grupo. Em mensagens trocadas do dia 14/12/2018, Martins encaminha documento que ele mesmo informa ser sigiloso para Kessler e solicita seus comentários.

Ricardo Martins encaminha a Kessler uma foto com a legenda: “Diretoria amanhã”.

Gabriel Kessler. Obrigado!!!

Ricardo Martins: eh para aprovar?

(mais adiante)

Ricardo Martins: On line aí?

Gabriel Kessler: Fala

Gabriel Kessler: Sim

Gabriel Kessler: tava numa call

Ricardo Martins: Vou te (enviar) um doc confidencial para vc dar uma olhada e fazer algum comentário. Caso queira ok

Ricardo Martins: Mas MEGA confidencial ok

Ricardo Martins: Posso?

Gabriel Kessler; Claro

Ricardo Martins encaminha documento com o titulo Manifestação sobre Funcines

Gabriel Kessler: Quer minha opinião?

Gabriel Kessler: uma merda

Gabriel Kessler: Ta dizendo que além de comprovar a integralização

Gabriel Kessler Tem q fazer conciliação bancária

Gabriel Kessler E mostrar gasto a gasto do que a empresa fez

Gabriel Kessler: Com o dinheiro do Funcine

Gabriel Kessler: o texto inteiro e uma dialética

Gabriel Kessler: Que vc não sabe se vai pra esquerda ou pra direita

Ricardo Martins. Monta uma critica em um word e me passa ai

Ricardo Martins: Can u?

Gabriel Kessler: Yes

Ricardo Martins Tb achei isso

Gabriel Kessler: Mas tô embarcado

Além de apontar uma possível gestão fraudulenta dos Funcines, o MPF denuncia a servidora Fernanda Farah de Abreu Zorman sob a acusação de orientar, junto ao BNDES, o encaminhamento de projetos com vícios. “Nesse sentido, Fernanda teria sido indicada para compor a diretoria da Ancine por SÉRGIO SÁ LEITÃO, o que não teria logrado efeito em razão de FERNANDA estar, à época, sendo investigada pela chamada Operação Bullish, em trâmite na Justiça Federal do Distrito Federal. Esta servidora consta em diversas mensagens trocadas em acompanhamento próximo de projetos, especialmente, com RICARDO MARTINS”, afirma a denúncia. As tratativas para sua nomeação para a diretoria da Ancine foram registradas em duas oportunidades. Há ainda mensagens entre Christian de Castro e Magno Maranhão (outro réu no processo por associação criminosa), datadas na véspera de Christian de Castro assumir o cargo de diretor-presidente da Ancine, apadrinhado por Sá Leitão:

Christian de Castro: Vamos indicar o Alex de substituto na entrada.

Christian de Castro: figura

Magno Maranhão: Quando vc se ausentar ele vai ter os poderes de presidente

Mägno Maranhão: De todo o modo, não temos muitas opções. Se pudéssemos: “sentar” na decisão, esperaríamos FF (Fernanda Farah) ou, pelo menos, passar o calor dessa guerra e o Alex compor.

Alex é o atual diretor-presidente substituto da Ancine, Alex Braga. Na época, o grupo em questão, segundo ação que corre na Justiça, produziu um dossiê apócrifo para difamar dois membros da diretoria colegiada, Alex Braga e Debora Ivanov, de forma a reduzir as resistências ao nome de Christian de Castro para o cargo de diretor-presidente da agência.

Segundo o MPF, o grupo teria recebido comissões ilegais e remuneração ilícita direta e indireta – os investigadores apontam que uma parte do dinheiro da propina seria depositado na conta da mulher de Peronne, Mariana Turbiani Peronne. Há diversas outras empresas citadas como usufrutuárias do suposto esquema ou vítimas dele.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome