O poeta Salgado Maranhão. Foto: Daniel Mordnski
O poeta Salgado Maranhão. Foto: Daniel Mordnski

Um dos mais prestigiados jornais do mundo, o New York Times publicou um poema inédito do poeta maranhense Salgado Maranhão. Caxiense qual Gonçalves Dias, ele dividiu uma página do diário nova-iorquino com a amazonense Astrid Cabral e o mexicano Homero Aridjis – as ilustrações são de Paola Saliby. Sob o título “Três poetas na Amazônia”, os poemas refletem a atual situação da região, que, como também o Pantanal, arde em fogo ante a inoperância e a cumplicidade do governo federal.

Os poemas integram a série de artigos de opinião “A Amazônia já viu nosso futuro”, de acordo com o jornal, “sobre como os povos da região vivenciam as versões mais extremas dos problemas do nosso planeta”.

A publicação do poema de Salgado Maranhão no NYT repercutiu no jornal O Globo: a coluna de Ancelmo Góis noticiou o fato, apontando-lhe como um dos favoritos a uma das duas vagas abertas da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele conversou rapidamente e com exclusividade com Farofafá.

Leia a seguir a breve conversa e o poema original, em português.

ZEMA RIBEIRO – Como você tem observado o noticiário político brasileiro sob a égide de Jair Bolsonaro,  enquanto poeta e cidadão?
SALGADO MARANHÃO – Já fui mais ligado à política circunstancial quando militei, na clandestinidade, contra a ditadura militar. Depois, ajudei a fundar o PT, mas, jamais servi, senão como voluntário, em prol da cultura – há 18 anos faço um salão de livros com um grupo de professores, em Teresina, onde todos trabalham gratuitamente. Não votei no Bolsonaro e não estou, de modo algum, satisfeito com o desmonte da cultura perpetrado no seu governo. Porém, ele foi eleito legalmente e cabe a nós, da oposição, nos perguntarmos: “por que ele chegou lá?”. Sem autocrítica ninguém constrói estratégia alguma. A vaidade e a presunção não são boas conselheiras.

Teu poema publicado no NYT soma-se a inúmeros outros protestos mundo afora, diante das situações da Amazônia e do Pantanal. Qual a sensação de ser publicado em um dos jornais mais importantes do mundo e dar voz às vítimas de tamanha violência?
Há uns 15 dias, a editora do The New York Times procurou meu tradutor, pedindo um poema meu acerca desse tema atual da destruição da Amazônia. Eu tinha vários poemas que abordam (ainda que indiretamente) a temática, mas, nenhum era inédito. Todos já haviam sido publicados em revistas literárias americanas. Então, ela pediu que eu escrevesse um exclusivo para seu jornal. E foi o que fiz. Claro que, além da enorme repercussão, a sensação é muito boa, não só pela importância do periódico, quanto pelo ineditismo de ver a língua portuguesa, a “última flor do Lácio”, impressa ao lado do idioma inglês. Nesta mesma página, além de um poeta mexicano, saiu também a poeta amazonense Astrid Cabral, também com tradução de Alexis Levitin.

Quais as suas expectativas em relação à eleição para a Academia Brasileira de Letras?
Como não há inscrições abertas para preenchimento das vagas existentes, seria até deselegante falar do que ainda não está posto. A ABL funciona de dentro para fora, primeiro tem que haver um desejo dos seus membros, que, em virtude da pandemia não estão se reunindo. De qualquer modo, creio ser uma honra para qualquer escritor, integrar essa nobre confraria.

VELHO ÍNDIO

Salgado Maranhão

Já nos tiraram o couro
e o sangue;
já nos rifaram a terra
e seus nomes santos
(deixando-na rente ao osso).
Insaciáveis, agora, trocam-nos
pelos bois.
Não à seiva do agrobusiness!
Não à sorte da agromorte!
Não ao tablet sem Taba!
Geme a flora,
geme a fauna,
geme o rio de mercúrio.
Do fogo não brotam flores.
Deixem o que ainda nos resta!
O que veste o índio é a floresta.

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