Thammy Miranda e o filho Bento - Foto Instagram

Quando o Brasil bate recorde de pré-candidaturas LGBTs para as eleições municipais de 2020, às vésperas do dia dos pais, a rede social Twitter (a décima mais visitada do mundo) sustentou em sua localização nacional, por três dias consecutivos, a hashtag #NaturaNão, propondo o cancelamento da campanha publicitária da marca de cosméticos, que traz ator e modelo trans Thammy Miranda e seu filho Bento, de apenas seis meses de idade, como representação da figura paterna para ação na internet. A igreja, representada pela figura pública do pastor Silas Malafaia, saiu em defesa do conceito “família tradicional brasileira” propondo o boicote à empresa por todos seus seguidores. Nessa batalha de mercado com meta de representação social, comprovação científica e aprovação de Deus, a sociedade – base piramidal – é pressionada a fazer escolhas e repensar valores sociais e econômicos. A diversidade é lucrativa e boa para a economia, mas quem paga essa conta?

O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo, mas sabe-se que o público arco-íris representa muito dinheiro. Pesquisas apontam que os homossexuais gastam 30% a mais do que os heterossexuais, e o seu poder de consumo, o chamado pink money, é o resultado de um ciclo de vida diferente com potencial de compra equivalente a R$ 418,9 bilhões de reais por ano, ou 10% do PIB nacional (Produto Interno Bruto, total de bens e serviços produzidos no país), sendo os mercados de turismo e beleza os que mais faturam. Entretanto as empresas que sustentam esse mercado se tornam alvo de ataques e críticas de conservadores e religiosos, que segundo o IBGE representam 86% da população, entre católicos (64%) e evangélicos (22%). De um lado empresas que buscam aumento do seu faturamento desenvolvendo estratégias para ganho de público e vantagem competitiva no mercado; do outro, ativistas lutando por se sentirem representados ou ao menos com seus direitos – garantidos por lei – aplicados na prática do dia-a-dia.

Sabe-se também que a homofobia e o machismo são heranças da colonização, comprovadas por fatos históricos e números que carregamos até hoje. Segundo o IPEA, 21,9 milhões das famílias no Brasil são chefiadas por mulheres, e há estimativas que apontam que a participação igualitária no mercado de trabalho poderia adicionar US$ 28 trilhões ao PIB mundial até 2025, contribuindo para a diminuição da pobreza e para o aumento do bem estar social (dados do relatório da Situação da Paternidade no Brasil), que aponta também o relato dos pais brasileiros em brincar com as crianças (83%), enquanto atividades como cozinhar (46%) e dar banho (55%) são atribuídas à mulher. Até o ano passado, 5,5 milhões das crianças não tinham o nome do pai no registro de nascimento segundo o Conselho Nacional de Justiça.

A pandemia que se instalou no mundo, aos poucos forçou adaptações a um novo modelo de vida para a grande maioria da população – inclusive os 42 bilionários que aumentaram a sua fortuna durante esse período. Em contramão desse grupo, toda uma economia em queda e um grande número de pessoas vivem com dificuldades, presas em suas casas, numa decadência do modelo estrutural de vida, e declaram a internet como a janela do tribunal de justiça, de oportunidade e voz, sem mediação e muitas vezes sem rosto ou verdade. Enquanto isso as ações da Natura lideram em alta de 6,73% o Ibovespa, e quem tem seu pacote de dados que economize seus 140 caracteres e faça suas apostas em algo que renda, no mínimo, uma visualização, mesmo que seja para cancelar, porque há um “castelo de celebridades” assinando contratos milionários à custa de polêmicas e cancelamentos.

 

Giovani Falcão é jornalista, consultor de inteligência competitiva, ativista dos direiros LGBTQIA+ e desenvolvedor de conteúdo em rede social com a temática negra e LGBT.

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