O compositor baiano Riachão. Foto: Jotabê Medeiros/Farofafá
O compositor baiano Riachão. Foto: Jotabê Medeiros/Farofafá

“Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara [1922-2018], se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram [o compositor maranhense Antonio] Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão”.

Quem conta a história é o percussionista maranhense Arlindo Carvalho, um dos fundadores do Regional Tira-Teima, ao lado de Antonio Vieira, no final da década de 1970. Mas Riachão não se por dava satisfeito, para além do anedotário. Ao jornalista Jotabê Medeiros, em texto intitulado justamente “Onde nasceu o samba?”, declarou certa vez: “O pai do samba é o samba de chula. E o samba nasceu na Bahia, porque o Brasil nasceu na Bahia”.

Bahia, a terra natal de Riachão, nome artístico do sambista Clementino Rodrigues, sempre cantada em seus versos. Como em “Eu vou chegando”, que abre “Mundão de ouro” (2013), o mais recente de seus parcos três discos solo: “Eu vou chegando da Bahia/ trazendo um pouquinho de alegria”, começa a letra.

Ao lado de Batatinha (Oscar da Penha, 1924-1997) e Ederaldo Gentil (1947-2012), Riachão (14/11/1921-30/3/2020) formou uma tríade de autores originalíssimos, que expunham com crueza, por meio de seus sambas, temas que vão do amor às desigualdades sociais, da crônica de costumes às relações homem-mulher, às vezes resvalando no politicamente incorreto.

O número de composições de Riachão é impreciso, algo muito comum no universo do samba: autores não registram, não têm dimensão da própria obra e esta pode vir a ser perdida com a memória do compositor. Estima-se que tenha composto entre 300 e 500 músicas. Havia um projeto de resgate e registro deste repertório, agora interrompido com a morte do artista.

Riachão estava em estúdio, gravando um novo álbum, que pretendia lançar este ano. Intitulado “Se Deus quiser eu vou chegar aos 100”, o disco trazia repertório inédito e autoral.

De sua lavra, há pelo menos três clássicos: “Cada macaco no seu galho”, gravada (1972) e regravada (1993) por Caetano Veloso e Gilberto Gil, “Vá morar com o diabo”, mostrada ao Brasil por Cássia Eller em seu último disco lançado em vida (“Acústico MTV”, de 2001), e “Baleia da Sé”, regravada pelo grupo Moinho, da atriz e cantora Emanuelle Araújo.

Velório – A família enviou a seguinte nota aos meios de comunicação:

É com grande tristeza que nós, familiares, comunicamos o falecimento do nosso querido patriarca, Clementino Rodrigues, carinhosamente conhecido como o sambista Riachão! Riachão faleceu em casa, de causas naturais, na manhã desta segunda-feira [30], junto de sua família! O velório acontece no cemitério Campo Santo e o sepultamento ocorrerá às 16h. Levando em consideração o decreto que proíbe a aglomeração de pessoas por conta da pandemia do coronavírus, a entrada de pessoas no velório será rotativa e limitada.

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Ouça, na interpretação do autor, três composições de Riachão:

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