Disco raro de 1974, expoente da cena nordestina, Flaviola e o Bando da Lua foi recuperado e relançado

Disco raro de 1974, expoente da cena nordestina, Flaviola e o Bando do Sol é recuperado e relançado

Os anos 1970 foram pródigos em experiências psicodélicas extraordinárias, algumas das quais quase ninguém lembra com precisão por causa da profusão de substâncias envolvidas. Na música, uma dessas experiências foi sem dúvida o disco pernambucano Flaviola e o Bando do Sol, lançado há 46 anos, que juntava um grupo de músicos que definiria o futuro da música nordestina: Lula Côrtes, Robertinho do Recife, Paulo Raphael, Zé da Flauta, entre outros.

Em 1974, um ano de grande fertilidade musical, o único disco lançado pelo poeta Flávio Lira, o Flaviola, alcançava o pico mais radical das experiências do período (assim como os discos de Marconi Notaro e o grupo Ave Sangria). Para delírio dos amantes do som psicodélico, a Polysom relança agora o vinil de Flaviola em 180 gramas, em parceria com a gravadora pernambucana Rozenblit, que o lançara originalmente. A restauração gráfica foi feita a partir do acervo preservado por Luiz Calanca, do selo Baratos Afins – convém lembrar que a capa de Flaviola é absurdamente parecida com a capa de um disco do sacerdote do space rock, o britânico Syd Barret: Opel, de 1988.

Ao longo dos anos, em fitas que passavam de mão em mão, em cópias piratas de todo tipo, Flaviola e o bando do Sol tornou-se um mito da cultura underground brasileira. Ouvindo hoje as 13 canções de seu álbum raro, é possível perceber os motivos. A poética era de ruptura, com a presença, no disco, de dois poemas musicados do espanhol García Lorca (Canção de Outono e Romance da Lua, Lua) e um do russo Vladimir Maiakovski (Balalaica). Há um trecho musicado do Hamlet, de Shakespeare (“Noite, noite, noite eterna/Trevas, quando se dissiparão?”). Lula Côrtes, primeiro parceiro de Zé Ramalho, fornece as outras pedras de toque da poética. “Essas palavras/O vento imaginou que eram nuvens”, diz uma letra de Henriqueta Lisboa. A sonoridade parece materializar Flaviola como um Mark Sandman (do Morphine) do sertão, uma entidade estranha. Era artista de confronto: por causa de seu erotismo acentuado, Flaviola foi intimado pela Polícia Federal em uma de suas apresentações, naquela década, acusado de algo parecido com “indecência”.

Em 2015, Flaviola foi um dos artistas a se apresentar na 23ª edição do Festival Abril Pro Rock. Vive hoje no Rio de Janeiro e, em dezembro, prometeu um novo disco em 2020, com uma faixa composta em 1972, antes portanto de seu lendário único disco daquela década. Mas a sonoridade será inteiramente nova. “Se fosse para soar como Flaviola e o Bando do Sol, eu não teria me dado ao ‘trabalho’ de fazer um novo disco”, disse.

Flaviola e o bando do Sol. Lançamento Polysom/Rosenblit. 120 reais

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